horizonte de eventos

De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

o inverno europeu de 62-63 e a dkw sendo superada pela vw

Ao longo das décadas seguintes, a Volkswagen faria de seu "velho" sedan o carro mais produzido no mundo, mas naquele início dos anos 60 os DKWs ainda eram melhores que os VWs. O intenso inverno de 62-63 contribuiu decisivamente para que os motores de dois tempos e os carros da DKW fossem superados pelo "carro popular" que viria a ser conhecido no Brasil como "Fusca".


No início dos anos 60, a DKW era uma fabricante consolidada com vários modelos à disposição dos compradores, enquanto a Volkswagen tinha apenas dois modelos. Os produtos da DKW e os produtos da VW apresentavam algumas diferenças básicas. A DKW oferecia modelos com tração frontal, com motor de dois tempos, três cilindros e refrigeração a água. A VW oferecia o sedan e o utilitário, com tração traseira, com motor boxer de quatro tempos, quatro cilindros e refrigeração a ar.

dkw-brochures.png A DKW oferecia modelos variados.

A DKW integrava a Auto Union já desde 1932 e naquele momento era propriedade da Mercedes Benz. Havia sido o maior fabricante de motocicletas no final dos anos 20 e durante os anos 30 e era uma marca associada aos motores de dois tempos. Oferecia modelos mais simples, como os F-93 e F-94, modelos intermediários como o Júnior e seus derivados, e modelos com apelo mais esportivo, como o 1000S e o 1000Sp. Seu público sempre fora a classe média e todos que preferissem modelos compactos.

61-vw-cars.jpg A Vokswagen oferecia dois modelos principais.

A Volkswagen oferecia apenas dois modelos naquele momento, o (que viria a ser conhecido no Brasil como) Fusca e a Kombi, mas já estava se consolidando como fabricante e nos anos seguintes já ofereceria outros modelos, mais modernos, sempre baseados na confiável mecânica boxer com tração traseira e refrigeração a ar. Seu público até ali sempre fora aqueles que viam no Fusca uma chance de ter um carro e naqueles que viam na Kombi um instrumento de trabalho.

É difícil afirmar que DKW e VW fossem concorrentes, porque elas visavam nichos diferentes de mercado. A questão, entretanto, é que a VW buscava um modo de incrementar rapidamente sua capacidade de produção (comprando uma fábrica pronta ao invés de investir um uma fábrica nova) e que, além disso, a VW pretendia atender a demanda daqueles que eram clientes da DKW com o seu Fusca e também com os modelos que ela pretendia colocar no mercado nos anos seguintes.

Essa sucessão de eventos culminou na compra da DKW pela Volkswagen, que encerrou a produção dos motores de dois tempos e o uso da marca DKW. Entre as marcas da Auto Union, a Volkswagen decidiu reativar o uso da marca Audi, antes associada a carros esportivos e de alto desempenho. A aquisição incluiu um projeto da Mercedes de um motor de quatro tempos, que junto com a carroceria do último DKW constituiu o primeiro Audi. Surgiu aí um novo capítulo do automobilismo.

Esse processo de "negociação" que culminou com a Volkswagen comprando a DKW da Mercedes passou por etapas nas quais a Volkswagen atuou ativamente contra a DKW, que não era uma concorrente direta mas que era vista pela Volkswagen como uma concorrente em potencial. Existem relatos de que naquela época a VW comprava automóveis da DKW e os colocava a rodar sem água no radiador, para que fossem vistos por todos fumegando por falha de arrefecimento.

Um elemento fundamental nesse processo, entretanto, foi o intenso inverno de 1962-63 e alguns invernos subsequentes. Naquele inverno, as temperaturas pouco depois do Natal caíram para -22,2°C na Escócia e a temperatura máxima em janeiro na Inglaterra não alcançou 0°C, ficando mais de 5°C abaixo da média histórica (conforme not a lot of people know that). Nessas condições, os carros com arrefecimento a ar tinham uma vantagem óbvia sobre aqueles arrefecidos a água.

Alguns invernos no início dos anos 60 foram tão intensos que se tornaram o centro de uma polêmica alguns anos atrás. Em 2009, alguns emails trocados por cientistas de uma universidade inglesa tiveram seu conteúdo vazado. Resumidamente, eles discutiam a retirada de séries de dados de temperatura do início dos anos 60 dos cálculos de variação de temperatura média no planeta nas últimas décadas. Esses dados seriam retirados porque eles indicavam temperaturas muito baixas e isso "mascararia" o que se entende por aquecimento global. O periódico britânico The Guardian traz algumas reportagens esclarecedoras sobre esse assunto.

A DKW trabalhava para reagir aos invernos intensos e à Volkswagen, pretendendo oferecer automóveis melhores e mais modernos e trabalhando mesmo para substituir seus motores de dois tempos por motores de quatro tempos. O principal resultado desse esforço foi o F102, o primeiro (e único!) DKW monobloco, com um motor com 1.200 cc que trazia o melhor sistema para lubrificação automática de seu motor de dois tempos.

dkw-f102-brochure.jpg Folheto de divulgação do DKW F102.

Mesmo assim, a VW conseguiu comprar a DKW da Mercedes-Benz e logo em seguida encerrou a produção dos motores de dois tempos e o uso da marca DKW. O F102 recebeu um motor de quatro tempos também adquirido da Mercedes e o denominou Audi F103. Aqueles anos de concorrência lançaram uma impressão de ineficiência sobre os motores de dois tempos para emprego automotivo que apenas recentemente começa a se desfazer com algumas novas tecnologias disponíveis.

1968-Auto-Union-Audi-60-70-80-Variant-_57.jpg O Audi 80 substituiu o F103 e foi produzido ate os anos 90.


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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