horizonte de eventos

De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

então deckard não era um replicante?

É anunciada uma continuação para Blade Runner, de 1982, que será lançada em outubro de 2017. Em um trailer dessa continuação o policial Rick Deckard aparece 30 anos depois dos fatos narrados no filme de Ridley Scott. Mas (ao menos na "versão do diretor") ele não era um replicante?


A primeira versão do filme é de 1982 e logo se tornou um "cult movie". Havia um clima noir, mas havia uma narração (inserida depois, como se ficou sabendo com o tempo) um tanto incômoda. E a dúvida se a personagem principal era um replicante ou um humano existia principalmente por comentários de produtores e do diretor em entrevistas.

Nos anos 90, surgiu a primeira "versão do diretor", sem essa narração suplementar e basicamente com algumas cenas cortadas e com outras cenas adicionadas. E nessas pequenas diferenças surgia uma narrativa inteiramente nova e mais complexa. Talvez lá em 1982 os produtores tenham pensado que o filme seria complexo demais para ser digerido pelos expectadores pretendidos.

A verdade é que, entre as inserções, aparecia um sonho de Deckard, quando ele estava no sofá com um copo de uísque. Nesse sonho, ele via um unicórnio cavalgando. Esse sonho poderia ser encarado como um sonho normal, que poderia ser sonhado por qualquer pessoa normal. Um sonho qualquer... mas também poderia ser uma memória enxertada, caso ele fosse de fato um replicante.

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Mas na cena final, quando ele retorna para seu apartamento para buscar Rachel e para que possam fugir juntos, ele encontra caído no corredor um origami de um unicórnio, feito por Gaff, um outro policial. Rachel teria que fugir porque também era uma Nexus 6. Ela não estava entre os fugitivos, mas deveria sair de circulação. E Deckard fugiria para ficar com ela ou porque também precisaria sair de circulação?

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A cena final do filme de 1982 foi retirada dessa "versão do diretor". Os replicantes teriam apenas quatro anos de duração e Rachel não seria um caso especial, sem prazo para desligamento, que depois poderia viver feliz para sempre com Deckard. Ela teria também apenas quatro anos de duração. E Deckard sendo um replicante também teria ainda pouco tempo.

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Então, nessa época de intermináveis trilogias e de repetidas continuações de filmes, de busca por grandes bilheterias, de filmes transformados em games, Deckard aparece envelhecido no trailer da continuação de Blade Runner. Seriam Rachel e Deckard especiais e teriam tempo não-limitado de existência? Ou simplesmente Deckard não seria um replicante?

Engraçado é que existe muito mais sobre a vida e sobre o mundo ainda escondido ali nas entrelinhas do filme. E parece que o diretor (ou alguém) não queria contar toda essa história de uma vez. Então uma versão "romantizada" foi liberada antes, para que todos se acostumassem com a ideia. E depois em conta-gotas a verdade foi sendo contada, para aqueles que quisessem de fato ver a verdade. E agora, em tempos complicados, alguém no apagar das luzes quer recontar essa história.

Eu prefiro a versão em que Deckard é um replicante!


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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