horizonte de eventos

De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

quase 7.000 km atravessando o meio-sul da américa do sul

O pampa gaúcho se estende adiante das fronteiras do Rio Grande do Sul, para o Uruguai e a Argentina, mas mais ao sul há a Patagônia. E há ainda os Andes e a paisagem chilena na encosta dos Andes. Este roteiro foi percorrido em outubro, unindo Porto Alegre a Bariloche e a Santiago do Chile.


O mês de outubro marca os primeiros dias da primavera no hemisfério sul e é um mês ideal para viagens longas, para quem não mantém bom relacionamento com o calor e a umidade. Outubro então foi escolhido para uma empreitada que somou quase 7.000 km saindo de Porto Alegre, passando por Montevideo e Buenos Aires, passando ainda por Bariloche e depois retornando por Santiago e por Mendoza. Essa expedição foi uma mescla de compromissos profissionais e de interesses pessoais.

O primeiro trecho nos levou à Montevideo. O mapa abaixo mostra o percurso, percorrido com tranquilidade (e com um tempinho para uma visita às lojas na fronteira, em Jaguarão e Rio Branco) em aproximadamente 12 horas. A paisagem ao longo desse percurso é praticamente a mesma... é o pampa! Uma região de planícies com coxilhas, com vegetação rasteira bastante apropriada à pecuária.

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Em Minas, quase em Montevideo, em frente a uma rotatória, há uma bela parrilla. Cumprindo esse percurso em apenas um dia, esse restaurante se coloca em posição conveniente para uma parada para descanso e reabastecimento. É perto, é verdade, do fim desse primeiro percurso, mas chegando a Montevideo adiante do final do dia, já ficaria tarde para uma janta mais reforçada.

minas-parrilla.png Rotiseria Walter (à esquerda na foto), em Minas, Depto de Lavalleja, Uruguay.

Ficamos em Montevideo em um hotel localizado no centro da cidade. Estávamos próximos da Fuente de los Candados e da Avenida 18 de Julio. Ali próximo ao centro teríamos, no dia seguinte, nosso primeiro compromisso profissional, uma visita à Facultad de Ingenieria da Universidad de la Republica. Especificamente, uma visita ao grupo de estudos sobre energias renováveis.

O segundo trecho nos levou à Buenos Aires e à AutoClasica. Logo nas primeiras dezenas de quilômetros, uma bela surpresa... o vilarejo de Nueva Helvecia. Ele fica no cruzamento das Rutas 52 e 53, onde deixamos o caminho para Colonia del Sacramento para seguir em direção à Fray Bentos. Uma pequena cidade de pouco mais de dez mil habitantes, simpática, bem organizada, limpa, convidativa.

O mapa indica o trajeto, que passou por Fray Bentos para evitar a passagem com o carro utilizando o aliscafo, em Colônia de Sacramento. A cidade de Buenos Aires é uma grande metrópole e tem suas entradas e saídas bastante bem sinalizadas e com dimensões razoáveis, que facilitam o tráfego. Sabendo onde ir e tendo um conhecimento mínimo da estrutura viária, o GPS se torna um coadjuvante.

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A AutoClasica é um encontro de automóveis clássicos que acontece desde 1998, organizado pelo Club de Automoviles Clasicos de Argentina. Ele acontece sempre no segundo final de semana de outubro, no Hipodromo de San Isidro. É o maior evento desse tipo na América do Sul, reunindo cerca de 600 veículos antigos e, em 2016, o evento homenageou os Mercedes 300 SL e as motocicletas clássicas da BMW.

AUTOCLASICA-2016.jpg Cartaz anunciando a edição de 2016 da AutoClasica.

O trecho seguinte seria percorrido em duas etapas: primeiro a Neuquen e depois até Bariloche. O trecho até Neuquen seria vencido em apenas um dia de viagem. Ao longo do percurso, vamos nos afastando da Grande Buenos Aires e adentrando regiões menos povoadas. A partir de certo ponto, quase não encontramos mais outros veículos. São longas e extensas planícies, com alguns poucos povoados aqui e ali. Voltamos a ver algum movimento quando nos aproximamos de Neuquen.

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O nome Neuquen vem do idioma dos índios que habitavam a região, os mapuches. Originários do outro lado dos Andes, eles atravessaram a cordilheira há alguns séculos. A cidade de Neuquen é uma cidade jovem, como outras cidades da região, com pouco mais de um século desde sua fundação. Neuquen é capital de província e, juntamente com Plottier e Cipolletti, compõe uma região metropolitana que abriga cerca de um milhão de habitantes.

A cidade de Bariloche, cujo nome oficial é San Carlos de Bariloche, fica situada em região muito agradável, que lembra muito as cidades da serra gaúcha e as cidades do sul da Alemanha e da Áustria, pelas suas casas de arquiteturas alemã e austríaca. Ali teríamos nosso segundo compromisso profissional, uma visita ao Centro Atomido de Bariloche. É um centro de pesquisas e de desenvolvimento tecnológico ligado à Comision Nacional de Energia Atomica de Argentina.

Chegamos ali em um final de tarde e rodamos um pouco para sentir o clima que reinava por aquelas paragens. Depois de muita estrada, queríamos uma bela refeição, de preferência com as especialidades regionais. Chegamos ao Restaurante Berlina. Não queriamos gastar demais, por termos orçamento limitado, e a aparência do lugar nos assustou nesse sentido. Mas vendo o que o lugar oferecia, percebemos que a sorte nos acompanhava.

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O trecho seguinte, até Santiago do Chile, também teria duas etapas. Primeiro atravessamos os Andes até Osorno, depois seguimos em direção ao norte pela Ruta 5, a Panamericana Sur. Interessante que vários nomes de locais por ali tinham nomes repetidos, característica da linguagem dos indígenas daquela região. É dali a equipe de futebol do Coo-Colo, que eventualmente disputa a Taça Libertadores da América.

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Nós não tínhamos planejado paradas no trecho chileno e queríamos avançar rapidamente até Santiago. Rodamos em direção ao norte através da principal rodovia da região, em uma espécie de platô, situado pouco acima do nível do mar e abaixo dos picos andinos que víamos à nossa direita. Uma rodovia muito organizada e com pedágios insistentes, todos "baratinhos", mas um a cada 100 km.

O trecho final teria três etapas. Primeiro, cruzamos os Andes e chegamos até Mendoza. Esse trecho tem um dos pontos altos de toda a expedição que é a travessia de Los Caracoles, já relatada em artigo anterior. A travessia entre Chile e Argentina ficou facilitada e encurtada depois da inauguração de um túnel com pouco mais de 3 km de extensão, localizado acima dos 3.000 metros de altitude.

paso-los-caracoles.jpg A subida de Los Caracoles leva à fronteira entre Chile e Argentina.

Na etapa seguinte, chegamos à Santa Fé. Ali teríamos o último compromisso da viagem, um contato com um professor da Universidad Nacional del Litoral. A cidade fica (na província de Santa Fé) de um lado do rio Paraná, enquanto do outro lado fica a cidade de Paraná (na província de Entre Rios). Essas duas cidades formam um grande conjunto metropolitano que abriga cerca de um milhão de habitantes.

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Entre Mendoza e Santa Fé cruzamos uma região interessante. É uma extensa planície com atividade agrícola aparentemente muito bem organizada. Um pouco ao norte da estrada fica localizada a cidade de Coŕdoba. Essa região é muito procurada pela produção de vinhos. Um investimento significativo foi depositado nessa região ao longo de décadas, com resultados importantes.

percurso-7000-tunel.png O túnel sub fluvial entre Santa Fé (ao norte) e Paraná (ao sul).

A passagem entre as duas cidades pode ser efetuada por um túnel sub fluvial que atravessa o rio Paraná. O mapa acima mostra sua localização. O túnel tem comprimento de 2.397 metros, mas a travessia total soma 3.497 metros. O fluxo diário é da ordem de 10.000 veículos, sendo 70% de origem regional. O túnel atende apenas ao fluxo rodoviário, mas inclui infra estrutura ferroviária.

tunel-01.jpg Um dos acessos ao Túnel Sub Fluvial Raul Uranga - Carlos Sylvestre Begnis.

tunel-02.jpg Travessia do túnel sub fluvial.

O trecho final nos trouxe novamente ao Brasil e finalmente à Porto Alegre. Os vários dias de viagem fazem com que queiramos chegar o mais rapidamente de volta em casa. A travessia da fronteira é tranquila, com policiais bastante cordiais nos dois lados da alfândega. A paisagem já é conhecida e reforça a sensação de retorno. O último trecho foi percorrido entre o entardecer e a noite.

A rodovia imediatamente a partir de Uruguaiana chama atenção por um fator negativo. A estrada apresenta boas condições para o tráfego em velocidades da ordem de 100 km/h. Mesmo assim, o limite de velocidade é de 80 km/h e vemos policiais rodoviários desonrosamente esgueirados nas laterais do pavimento, entre a vegetação, com medidores de velocidade para "pegar" condutores incautos.

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O percurso completo percorrido nesses dias de outubro é mostrado no mapa acima. A distância total indicada é de 6.524 km. Ao final da expedição, o odômetro parcial do carro marcava o percurso total: 6.976,3 km. Seis mil, novecentos e setenta e seis quilômetros e trezentos metros percorridos!

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Missão cumprida!


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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