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De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

uma enorme usina fotovoltaica cobrindo o deserto do saara

Entre várias iniciativas e controvérsias recorrentes envolvendo projetos com fontes alternativas de energia, uma proposta interessante é a de uma grande usina fotovoltaica cobrindo o deserto do Saara. Mas, afinal... quanta energia uma usina instalada no Saara (ou pelo menos em parte dele) geraria?


O deserto do Saara é popularmente conhecido como um dos maiores e mais quentes desertos do mundo. Ele ocupa uma área total de pouco mais de nove milhões de quilômetros quadrados, estendendo-se desde áreas próximas ao Oceano Atlântico até os vales férteis do rio Nilo e desde as regiões semi-áridas do rio Niger e do Sudão até o extremo norte do continente banhado pelo Mar Mediterrâneo. Seu território abriga um total de cerca de 2,5 milhões de habitantes e sua área é comparável à área de países continentais como os Estados Unidos, o Brasil, a Austrália ou a Índia.

1024px-Sahara_satellite_hires.jpg Montagem a partir de imagens de satélite mostrando o deserto do Saara.

O Saara é na verdade o terceiro maior deserto do mundo, superado pela Antártida e pelo Ártico e ocupando áreas na Argélia, no Chade, no Egito, na Líbia, em Mali, na Mauritânia, no Marrocos, no Niger, no Saara Ocidental e na Tunísia. O deserto ocupa 31% de todo o continente africano e ele inclui áreas que apresentam precipitações médias anuais próxima de zero até áreas que recebem precipitações médias anuais que variam desde 100 mm ao ano até 250 mm ao ano.

Em um passado distante, o rio Nilo corria até o Oceano Atlântico, mas o último realinhamento do eixo magnético terrestre (conjuntamente com outros fatores, claro!) levou o Nilo à sua atual localização. No passado, além disso, uma boa parte do deserto era coberto por densas florestas tropicais, mas o atual padrão de circulação global de massas de ar acabou alterando o clima na região.

Pela sua extensão continental e pela sua localização geográfica, eventualmente ressurgem sugestões de um investimento vultuoso para a instalação de uma enorme usina solar fotovoltaica cobrindo o deserto do Saara. Uma usina que, conforme quem a defende, poderia fornecer suprimentos de energia suficientes para toda a humanidade. "Uma energia limpa e renovável!"

Mas, afinal, quanta energia uma usina dessas seria capaz de disponibilizar?

Considerando que não fosse possível cobrir todo o deserto e considerando que uma usina não ocuparia 100% de sua área com painéis fotovoltaicos, vamos calcular o que poderia ser fornecido por uma usina cujos painéis ocupassem uma área equivalente a (digamos) 10% da área total aproximada do deserto, citada acima. Desse modo, consideremos painéis ocupando 900.000 km².

Na região aproximadamente central do deserto, a energia incidente é igual na média a 6,25 kWh por metro quadrado por dia, que por sua vez é igual a 2.281,25 kWh por metro quadrado por ano. A energia anual varia entre 4,75 kWh/m²/dia no inverno e 7,22 kWh/m²/dia no verão. Considerando a área citada acima, a energia total será igual a 2.053.125 TWh por ano.

Os painéis fotovoltaicos podem ser fabricados em diferentes configurações e vêm atingindo eficiências um pouco superiores a 20% na conversão de energia solar em eletricidade. Isso significa dizer que a energia elétrica fornecida por esses painéis é equivalente a cerca de 20% da energia incidente, sendo a diferença perdida ou não aproveitada.

Considerando uma eficiência de 20% para os painéis solares e considerando também uma declividade para os painéis, adequada para aproveitar melhor a energia solar ao longo do dia, chegaremos a uma energia total anual igual a 386.000 TWh. Esse valor é igual a 17 vezes a energia elétrica total gerada ao redor do mundo durante o ano de 2013 e é igual a 555 vezes a energia gerada no continente africano nesse mesmo ano.

Finalizando, a fotografia abaixo mostra uma usina solar fotovoltaica operando no deserto de Atacama, no Chile, (que, como outras usinas, opera) em condições aproximadamente semelhantes às de uma usina no deserto do Saara. Existem outros meios para conversão de energia solar, alguns inclusive mais eficientes que os painéis fotovoltaicos e que serão tema de futuros artigos.

pv-atacama.jpg Usina solar fotovoltaica instalada no deserto de Atacama, no Chile.

Uma usina desse tipo, com essas dimensões, estaria disponibilizando energia em região distante dos grandes centros consumidores e seria necessária portanto ainda transportá-la até as pessoas e indústrias etc que a consumiriam. Isso exigiria obras de infra estrutura e custos de transporte. Dificuldades superáveis mas que podem facilitar a adoção de outras soluções.

Além disso, as energias renováveis se prestam melhor para a geração distribuída de energia, levando desenvolvimento social e econômico às comunidades que as adotarem (o que também será tema de artigo futuro). E uma usina fotovoltaica enorme atuaria como um fornecedor centralizado, portanto contrariando conceitos de utilização sustentável de recursos renováveis.


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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