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De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

as flechas de prata e a lenda do quilo de tinta branca

As 'Flechas de Prata', como ficaram conhecidos os automóveis de competição principalmente da Mercedes e da Auto Union, empregados em Grandes Prêmios da segunda metade dos anos 30, tiveram algumas marcas superadas apenas por carros de Fórmula Um do final dos anos 80. Entre várias lendas surgidas ao seu redor, está a 'lenda do quilo de tinta branca'.


Ao longo dos anos 30, quando os carros de corrida passaram a atingir marcas surpreendentes em desempenho e em potência, a Mercedes e a Auto Union (superando na época a Alfa Romeo) produziram carros que ficariam conhecidos como as 'flechas de prata' (ou 'silver arrows', em inglês, ou ainda 'silberpfeil', em alemão). Depois, os carros da Mercedes, tanto nos primeiros anos da Fórmula Um quanto os carros da equipe atualmente em atividade, herdaram essa denominação.

A Mercedes produziu principalmente o W25, o W125 e o W154. O W25 foi projetado para os Grandes Prêmios da temporada de 1934 e foi utilizado, com modificações e aprimoramentos, até 1936, com um motor com oito cilindros em linha desenvolvendo 280 CV a 5800 rpm nas primeiras versões, com 3360 cc, até quase 500 CV a 5500 rpm nas últimas versões, com 4300 cc.

silver-arrows-05.jpg Reprodução artística de Grande Prêmio mostrando uma Mercedes W25.

O W125 foi projetado para a temporada de 1937, para fazer frente à superioridade da Auto Union. O W125 tinha um motor com oito cilindros em linha com 5660 cc, desenvolvendo 570 CV a 5800 rpm, com comando duplo de válvulas no cabeçote e com compressor. Os carros que competiram nessa temporada estabeleceram recordes de potência ultrapassados apenas nos anos 80 na Fórmula Um.

O W154 foi projetado para as temporadas de 1938 e 1939, tendo sido moldado conforme as novas regras estabelecidas para os Grandes Prêmios. O W154 contava com um motor com oito cilindros em linha com pouco menos de 3000 cc, com 480 CV a 7000 rpm, com comando duplo no cabeçote e com compressor. Mesmo com menos potência, o W154 alcançava um desempenho semelhante ao W125 por apresentar melhor desempenho aerodinâmico.

A Auto Union produziu o Tipo A, o Tipo B, o Tipo C e o Tipo D. O Tipo A foi o modelo desenvolvido para os Grandes prêmios do ano de 1934, com um motor V16 com blocos em 45°, desenvolvendo 295 CV a 4500 rpm e 530 N.m a 2700 rom, com compressor atuando a 8,85 libras por polegada quadrada. O Tipo B foi empregado no ano de 1935, com um motor V16 desenvolvendo 375 CV a 4800 rpm e 660 N.m a 2700 rom, com compressor atuando a 10,88 libras por polegada quadrada.

O Tipo C foi desenvolvido para as temporadas de 1936 e 1937, ainda contando com motor V16 com blocos dispostos com ãngulo de 45°, desenvolvendo cerca de 500 CV a 5000 rpm e 850 N.m a 2500 rom, com compressor atuando a 13,78 libras por polegada quadrada. Os quatro modelos contavam com freios a tambor com 400 mm de diâmetro, acionados por um circuito hidráulico projetado por Porsche.

silver-arrows-03.jpg Uma Auto Union Tipo C carenado para melhor desempenho aerodinâmico.

O Tipo D foi desenvolvido para as temporadas de 1938 e 1939, sujeito a um novo regulamento, com motor V12 com blocos a 60°, desenvolvendo cerca de 500 CV a 7000 rpm e 550 N.m a 4000 rom, com compressor atuando a 24,22 libras por polegada quadrada. Os quatro modelos apresentavam pesos finais entre 750 kg e 830 kg, dependendo do regulamento e de ajustes do motor e de mecânica.

silver-arrows-auto-union-d.jpg Um Auto Union Tipo D (reproduzido em ambiente virtual).

Era um período em que nem todas as informações eram divulgadas e que mesmo a imprensa tinha ainda uma atuação limitada e um interesse restrito sobre essas competições. Nesse contexto, muitas lendas surgiram sobre os automóveis de competição, sobre os pilotos que corajosamente os conduziam e sobre os Grandes Prêmios disputados no período de 1934 e 1939 (precursores da Fórmula Um).

silver-arrows-01.jpg Reprodução mostrando uma Mercedes e uma Auto Union em primeiro plano.

Uma dessas lendas surgiu para explicar a cor dessas máquinas.... prata! Ou melhor, a cor das chapas de alumínio utilizadas para montar as carrocerias dessas máquinas de competição.

Em 1958, o gerente de competições da Mercedes durante os anos 30, Alfred Neubauer, contou que, quando a Mercedes W25 foi apresentada para a pesagem para o Grande Prêmio de Nurburgring de 1934, ela alcançou 751 kg. Era um quilo a mais que os 750 kg estabelecidos pelo regulamento. Ele e seu piloto, Manfred von Brauschitsch, sugeriram que a tinta branca aplicada sobre o carro fosse totalmente retirada. O carro ficaria sem pintura e com seus painéis de alumínio à mostra. A sugestão deu certo e von Brauschitsch venceu aquela corrida. E surgia ali a denominação de 'flecha de prata'!


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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