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De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

um fissore percorreu a europa em 1965 para divulgação

A industria automobilística brasileira começava a dar sinais de consolidação ao longo dos anos 60 e os primeiros modelos com projeto nacional começavam a aparecer. O primeiro deles foi o Fissore, apresentado pela Vemag no Salão do Automóvel de 1962, com projeto italiano e mecânica DKW. Como estratégia para divulgação, um exemplar foi colocado em 1965 a circular pela Europa!


A Vemag começou a produzir os automóveis da DKW no Brasil a partir de 1956, com crescente nacionalização a partir de 1958, dentro do esforço para consolidação de uma indústria automobilística nacional. Nesse contexto, a Vemag foi a primeira a apresentar um modelo "genuinamente" brasileiro: o Fissore. Ela teve a iniciativa de contratar um estúdio italiano, o Carrozziere Fissore, para elaborar um projeto inteiramente novo, que receberia a confiável mecânica da DKW.

dkw-fissore-1964.jpg Imagem de publicidade da época do lançamento do Fissore.

O Fissore foi apresentado no Salão do Automóvel de 1962, mas acabou sendo comercializado apenas a partir do final de 1963. O projeto havia sido desenvolvido por artesãos muito habilidosos, resultando em um automóvel considerado o mais sofisticado em sua época, mas apresentava deficiências quanto aos processos de produção. Como consequência, o Fissore demorou para ser colocado a venda e sofreu muitos melhoramentos ao longo do período em que foi produzido.

Como estratégia de divulgação, a Vemag enviou um Fissore e uma equipe de reportagem. com suporte da Revista Quatro Rodas, para um roteiro de viagem através de algumas das principais cidades europeias ao longo dos primeiros meses de 1965. A aventura foi apresentada em três números consecutivos da revista, de fevereiro (n.55) a abril (n.57) de 1965, com uma introdução na revista de janeiro (n.54). Entre os integrantes da equipe, o jornalista Jose Hamilton Ribeiro.

4r-fissore-europa-2.jpg As Quatro Rodas que apresentaram a viagem de um Fissore pela Europa.

Nessa época, a cidade do Rio de Janeiro, ainda com pouco menos de quatro milhões de habitantes, completava 400 anos desde sua fundação e o piloto Bird Clemente fazia sucesso em competições regionais pilotando um Willys Interlagos. Nessa época, era lançado o teto solar opcional (que ficaria conhecido como "cornowagen") para o Fusca (ainda não oficialmente Fusca). A quarta dessas Quatro Rodas mostrava em sua capa o Fissore que percorrera a Europa para divulgação.

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Um automóvel produzido pela iniciante indústria automobilística brasileira causaria muita curiosidade e estranheza. Ainda mais sendo um projeto original e exclusivo para os brasileiros e não um modelo de algum fabricante tradicional que estivesse sendo nacionalizado. As fotos acima e abaixo mostram flagrantes do interesse despertado por esse modelo. Como dizia o título de uma das reportagens que descrevia a viagem: "chapa amarela na Europa".

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O Vemag Fissore utilizado nessa viagem foi levado à Europa naturalmente por via marítima e foi desembarcado em Lisboa. O primeiro trecho da viagem, retratado na Quatro Rodas de fevereiro de 1965, teve 2.396 quilômetros de extensão e passou por Portugal, Espanha e França, chegando à Paris depois de 14 dias. O Google Maps, que resultou no mapa abaixo, indica que esse trecho poderia ser percorrido atualmente em um período mínimo de até 24 horas.

4r-fissore-europa-mapa1ed.png Primeiro trecho, retratado na Quatro Rodas de fevereiro de 1965.

Após o desembarque do carro em Lisboa, houve uma rápida visita a um mecânico para um revisão do veículo. Freios, suspensão e ajustes do motor. Com tudo em ordem, a expedição foi iniciada. Essa viagem foi o primeiro roteiro turístico internacional apresentado pela Revista Quatro Rodas no Brasil. Conforme a própria reportagem explica, há dois tipos possíveis de roteiros turísticos: o roteiro de distância a ser percorrida e o roteiro de visitas em um determinado local.

fissore12-2.jpg Em frente à Torre de Belém, em Lisboa.

No primeiro tipo de roteiro, o objetivo é cruzar o maior número possível de cidades, regiões e-ou países em um determinado período de tempo (rodando uma maior quilometragem). No segundo tipo de roteiro, o objetivo é conhecer um determinado local ou região com maior profundidade, cobrindo uma área menor mas conhecendo mais pontos turísticos dessa região (eventualmente rodando menor quilometragem). O melhor obviamente seria poder cumprir os dois tipos de roteiro...

fissore11.jpg Puerta Alcalá, em Madri.

O segundo trecho, retratado na edição de março de 1965, passou por França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Suíça, passou pela França novamente e chegou à Mônaco. Foram na época 2.348 quilômetros percorridos em 17 dias. O Google Maps, que resultou no mapa abaixo, indica que esse trecho poderia ser percorrido em um período de até 29 horas e 55 minutos. Naquela época, a travessia do Canal da Mancha ocorria com um ferry boat, mas hoje em dia há o Eurotunel.

4r-fissore-europa-mapa2ed.png Segundo trecho, retratado na Quatro Rodas de março de 1965.

A foto abaixo mostra o famoso Moulin Rouge, um "cabaré" fundado em 1889 e que segue em operação, prestes a completar 120 anos de existência. Entre tantas circunstâncias envolvendo esse ponto turístico notável, a casa é muito conhecida como o local onde se originou a forma moderna do estilo de dança conhecido como can-can. Quase em frente à casa de espetáculos aparece o Fissore estacionado logo atrás de um Renault Dauphine (no canto inferior direito da foto).

fissore15.jpg Estacionado quase em frente ao famoso Moulin Rouge, em Paris.

A travessia do Canal da Mancha foi realizada na época por serviço de ferry-boat entre Calais e Dover, na ida, em trecho cerca com de 40 km, e entre Dover e Ostende, na volta, percorrendo cerca de 130 km. Atualmente, o Eurotúnel substituiu o uso do ferry-boat, com 50,45 km de extensão (e o mais longo trecho submarino do mundo, com 37,90 km) entre Folkestone, no Reino Unido, e Coquelles, na França. Foi inaugurado em 1994 depois de sete anos de obras civis.

fissore01.jpg O Fissore que cruzou a Europa estacionado em Londres. Ao fundo, o Big Ben.

O terceiro e último trecho da expedição, retratado na edição da Revista Quatro Rodas de abril de 1965, partiu do Principado de Mônaco e entrou na Itália, passando por Milão, Veneza e Roma e chegando ao porto de Óstia, onde o valente Fissore foi despachado para retornar por navio para o Brasil. Este trecho, segundo o Google Maps, totalizou 1.192 quilômetros de extensão e poderia ser percorrido atualmente em um período mínimo de até 14 horas e 45 minutos.

4r-fissore-europa-mapa3ed.png Terceiro trecho, retratado na Quatro Rodas de abril de 1965.

Esse último trecho contemplou a etapa italiana da viagem e encontrou estradas modernas e permitiu admirar o contraste de um país moderno e que ao mesmo tempo apresenta traços de seu passado em quase todas as paisagens. Desde construções que datam da época dos romanos até enormes catedrais erigidas ao longo da Idade Média. E além disso tudo, há ainda o próprio povo italiano, tão eloquente pelo próprio idioma e também pelo "uso das mãos e braços".

fissore04.jpg Em frente à Catedral de Florença.

Por fim, uma circunstância um tanto inusitada! O nosso Fissore viajante-aventureiro enfrentando um engarrafamento em uma estrada europeia. Os engarrafamentos são sempre associados a fenômenos modernos, mistura de automóveis em excesso e de mobilidade sendo restringida com temperos de falta de organização e planejamento. Os engarrafamentos já existiam no Brasil e mesmo na Europa, mas são sempre melhor aceitos aqui do que lá.

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Enfim, uma viagem de trabalho que assumiu contornos épicos!

[Os créditos das fotos são da Revista Quatro Rodas, publicada pela Editora Abril.]


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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