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De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

o jato argentino pulqui foi o primeiro na américa latina

O jato Pulqui foi produzido em duas versões e nenhuma delas chegou às fases de produção ou de operação. O primeiro deles, o Pulqui I, foi o primeiro jato projetado e testado na América Latina e mesmo no Terceiro Mundo, tendo feito seu primeiro vôo em 9 de agosto de 1947. O Pulqui II voou em 27 de junho de 1950. A palavra 'pulqui', em idioma mapuche, significa 'flecha'!


A Alemanha estava entre os países mais desenvolvidos industrial e tecnologicamente nos anos 30 e 40 do século XX, especialmente no que diz respeito à aeronáutica. O final da Segunda Guerra Mundial na Europa, durante o primeiro semestre de 1945, levou a uma dispersão de vários profissionais altamente qualificados, em várias áreas das ciências e das engenharias, que passaram a atuar em outros países. Um deles, Kurt Tank, que atuou na Focke-Wulf durante vários anos, foi recebido na Argentina e passou a atuar em favor de um projeto local muito importante.

pulqui-i-01.jpg O Pulqui I em vôo, no final dos anos 40.

Um projeto liderado por um engenheiro francês, com uma equipe contando com engenheiros militares e civis de várias nacionalidades, levou ao primeiro jato projetado e testado por um país fora do grupo de países mais desenvolvidos. O Pulqui voou pela primeira vez em 9 de agosto de 1947 e, mesmo não se mostrando um projeto promissor, com apenas um prototipo construído, fez da Argentina o nono país no mundo a desenvolver uma aeronave a jato. A foto acima mostra o Pulqui num de seus vôos de avaliação e a imagem abaixo mostra o Pulqui em três vistas.

pulqui-i-00.jpg Três vistas do Pulqui I.

O Pulqui voou depois do alemão Heinkel He 178, do italiano Caproni Campini N.1, do inglês Gloster E.28/30, do norte-americano Bell P-59, do japonês Nakajima Kikka, desenvolvidos ainda durante o conflito, e do soviético Mikoyan-Gurevich MiG-9, do francês Sud-Ouest Triton e do sueco Saab 21R. O projeto do Pulqui se revelou limitado e o desenvolvimento de uma aeronave a jato passou então ao experiente engenheiro Kurt Tank, que sugeriu um projeto baseado no Focke-Wulf Ta 183, iniciado na Alemanha ainda em 1944 mas interrompido pelo final do conflito.

fw-ta-183.png Modelo do Focke-Wulf Ta 183 para túnel de vento e suas três vistas.

A imagem acima mostra, à esquerda, um modelo para túnel de vento do Focke-Wulf Ta 183, e, à direita, as três vistas desse projeto alemão que foi uma resposta a uma demanda emergencial do governo nazista pensando em manter a supremacia aérea nos céus da Europa durante o conflito. O modelo reduzido acima pode ser comparado com uma imagem do Pulqui II, abaixo, que ficou muito comum em ações de divulgação do governo argentino ao longo dos anos 50. O prototipo do novo projeto de aeronave a jato fez seu primeiro vôo em 27 de junho de 1950.

pulqui-ii-01.jpg O Pulqui II em imagem de divulgação bastante comum durante os anos 50.

As três vistas do Pulqui II, abaixo, mostram uma aeronave proporcionalmente maior que o Focke-Wulf Ta 183 (à esquerda, na imagem anterior). Uma fuselagem maior e mais longa, com asas colocadas ainda um pouco mais acima, mas com uma cauda menos alongada e também menos inclinada. Adaptações para uma aeronave que atuaria em um ambiente diferente, precisando cobrir distâncias mais longas e possivelmente tendo que desempenhar um conjunto maior de funções táticas e não apenas atuando em supremacia aérea, como seria esperado do Focke-Wulf.

pulqui-ii-00.jpg Três vistas do Pulqui II.

O desenho do Pulqui II é muito semelhante a outras aeronaves de seu tempo, como os soviéticos MiG-15 e MiG-17 e o norte-americano Sabre, desenvolvidos também a partir de desenhos alemães e com apoio de engenheiros alemães. Os MiG-15 e os Sabre foram protagonistas de embates pela supremacia aérea na Guerra da Coréia, no início dos anos 50. Na Argentina, o engenheiro alemão Kurt Tank trouxe uma parte significativa de sua equipe, contando com mais de cinquenta projetistas alemães e trabalhando também no desenvolvimento de outros tipos de aeronaves.

pulqui-ii-02.jpg O segundo prototipo do Pulqui II, no início dos anos 50.

O Pulqui II chegou a despertar interesse de países como a Holanda e o Egito. Mas as dificuldades típicas de países latino-americanos no desenvolvimento de projetos tecnológicos, em grande parte instabilidades econômicas e políticas, decretaram o fim do projeto (que já se arrastava há alguns anos) em 1960. Apenas um prototipo do Pulqui I e cinco prototipos do Pulqui II foram construídos. Atualmente, um exemplar do Pulqui I e um exemplar do Pulqui II encontram-se conservados e expostos no Museo Nacional de Aeronautica, em Moron, na Grande Buenos Aires.


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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