horizonte de eventos

De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

o vemag fissore chegou a ser considerado o mais sofisticado!

O Fissore foi lançado no Salão do Automóvel de 1962 mas começou a chegar nas revendas apenas no final de 1963. Era a primeira iniciativa brasileira de um automóvel de luxo apresentado para os brasileiros. Equipado com a confiável mecânica DKW, contava com carroceria idealizada pela italiana Carrozziere Fissore. Foi considerado pela imprensa especializada como o mais sofisticado!


A indústria automobilística brasileira dava seus primeiros passos, trazendo para o Brasil usualmente produtos que já eram ultrapassados nos Estados Unidos ou na Europa, tanto do ponto de vista tecnológico quando do ponto de vista de design. A Vemag produzia DKWs que haviam sido projetados ainda nos anos 30, mas que ainda estavam sendo produzidos e mesmo encontravam-se ainda em desenvolvimento na Alemanha. E foi natural então para a Vemag lançar o Fissore!

fissore-sof-02.jpg

As imagens acima e abaixo mostram peças publicitárias sobre o lançamento do novo produto, chamando os interessados a conhecer essa mistura de mecânica alemã com design italiano. O anúncio fala de um automóvel único no Brasil, pela sua luxuosidade e pela sua exclusividade, cuja porta pode ser “aberta com a ponta dos dedos”, com uma lâmpada indicando que foi aberta, com um motor mais potente que os outros motores produzidos pela Vemag, com um novo sistema automático para lubrificação do motor de dois tempos, o Lubrimat, entre outras novidades.

fissore-sof-04.jpg

Era uma tentativa da Vemag de mostrar uma certa independência em relação à Auto Union que, além de não ajudar financeiramente sua licenciada brasileira ainda limitava algumas de suas ações. Por exemplo, em anos anteriores a Vemag teria já algumas modificações estéticas prontas para lançamento, que ficaram retidas até que a Auto Union apresentasse seus produtos. Além de não receber licença para produtos mais modernos, como o F-12 e o F-102.

fissore-sof-05.jpg

O Fissore era também claramente um lance de mestre na concorrência com sua maior rival, a Volkswagen, que contava com um produto (que com o tempo ficaria conhecido como o "Fusca") que não era melhor que os DKWs mas que, por uma série de fatores, era um sucesso de vendas. O Fissore mostrava que a Vemag (reconhecida pela qualidade técnica de seus produtos) era um fabricante de automóveis com autonomia para apresentar novos projetos ao mercado.

A foto acima mostra um dos primeiros exemplares do Fissore, produzidos no final de 1963, ao lado de dois dirigentes da Vemag. O Fissore era um carro de linhas sóbrias mas muito refinadas, com três volumes bem marcados e ampla área envidraçada. Era um típico cupê europeu, que no entanto sofreu por ter recebido uma mecânica um tanto “fraca” para seu peso, já que apresentava cerca de 100 kg a mais que o Belcar, de quem herdou a motorização de 981 cm³.

A foto abaixo mostra um Fissore sendo apresentado em um evento de lançamento de uma revenda no interior do Estado de São Paulo, no segundo semestre de 1963. O Fissore chamava a atenção dos admiradores da DKW e mesmo de admiradores de outras marcas, mas seu preço extremamente alto manteve as vendas em patamares muito baixos. O Fissore custava cerca de 25% mais caro [1] que o Belcar (que por sua vez custava ainda 25% mais que o sedan da Volkswagen).

fissore-sof-01.jpg

O Fissore tem visivelmente uma ampla área envidraçada e janelas relativamente altas em relação à altura total do automóvel. Era uma tendência em seu tempo, também presente em outros automóveis em sua época, de certo modo antecipada pelos Fissore. Existem versões de que o prototipo do Fissore, que veio da Itália e que foi produzido pela Carrozziere Fissore, teria janelas menos altas. [Desmentidas pela simples inspeção de fotos desse prototipo.]

Contam, entretanto, uma história de que, em uma cerimônia, durante o período de lançamento do Fissore, algum reporter teria batido a cabeça no teto do carro ao tentar entrar em seu interior. Na verdade, durante um lançamento dessa versão de "janelas baixas". Ao que a diretoria teria imediatamente dado ordem para que o teto do carro fosse elevado.

A imagem abaixo mostra uma peça publicitária veiculada em revistas da época, apresentando o modelo de 1966, com pequenas modificações estéticas. Uma nova sinaleira dianteira, um pouco deslocada para fora e para trás no paralamas dianteiro em relação à sinaleira anterior, em favor da segurança no trânsito moderno, e um novo bocal para o combustível, atrás da placa traseira.

fissore-sof-07.jpg

O modelo de 1967 traria ainda uma nova grade dianteira em peça única. Essas seriam as únicas modificações em relação ao modelo lançado em 1963. O modelo de 1966 ainda oferecia como opcionais um raro sistema de retorno automático de pisca pisca, um conjunto de rodas semelhante às rodas do Belcar Luxo, de 1964, e um sistema para aquecimento, desviando ar do radiador para dentro do habitáculo.

Enfim… em seu lançamento, o Fissore foi considerado pela imprensa especializada como um automóvel enxuto, prático, de linhas sóbrias e elegantes e que oferece ampla visibilidade ao motorista e seus passageiros. Recentemente, em 2008, foi comparado com o Fiat Siena, pelas semelhanças de suas linhas e pela localização de faróis e lanternas.

O Fissore foi produzido entre o final de 1963 e outubro de 1967, com um total de 2489 exemplares produzidos [2], segundo uma fonte, e 2638 exemplares produzidos [3], segundo outra fonte. Em testes realizados na época, pelas revistas Quatro Rodas [4] e Mecânica Popular [5], ele ficou conhecido [1] por não andar tão bem mas por frear muito melhor que seus contemporâneos.

Referências: [1] Berezovsky, Sérgio. DKW Fissore; o mais bonito dos DKWs nacionais podia não andar tão bem, mas parava como ninguém. Revista Quatro Rodas, seção Grandes Brasileiros, outubro de 2004. [2] Sandler, Paulo César. DKW, a grande história da pequena maravilha. São Paulo: Alaúde Editorial, 2006. 384p. ISBN 85-98497-44-4. [3] Arantes, Paulo Renato. Blue Cloud, Clube DKW Vemag do Brasil, Fissore. Disponível em www.dkwvemag.net/fissore/. Acesso em 10 de outubro de 2007. [4] Marazzi, Expedito. Teste do Fissore. Revista Quatro Rodas, n.49, p.4-9, agosto de 1964. [5] Emerich, Hélcio. Vemag Fissore, linhas modernas e mecânica aprimorada. Revista Mecânica Popular, n.59, p.20-25, novembro de 1964.


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/design// @obvious, @obvioushp //Alexandre Beluco