horizonte de eventos

De onde dizem que nem mesmo a luz consegue escapar...

Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos

automóveis clássicos... nostalgia ou medo do futuro?

A nostalgia é um sentimento relacionado com o passado ou com um tempo já vivido e muitas vezes favorece uma certa idealização. O medo envolve receios possivelmente mais profundos e menos elaborados, relacionados com instintos básicos. Entre um extremo ou outro, os automóveis clássicos motivam muitos colecionadores, agitam setores da economia e podem representar fonte de importantes satisfações (ou mesmo prazeres) existenciais.


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A nostalgia é um sentimento que tem relação com o passado e muitas vezes com um tempo já vivido e que, portanto, é inacessível. Por ser inacessível, esse tempo passado pode ser idealizado e é de fato frequentemente idealizado, assumindo então uma dimensão de romantismo. [Por mais que essa frase possa parecer um alerta de possíveis problemas, a nostalgia ou a idealização, como outros sentimentos, se experimentados com equilíbrio e moderação podem conduzir a 'finais felizes'!]

A nostalgia, ao contrário da saudade, é potencializada quando se mantém contato com o objeto da emoção. Um sentimento de saudades é desfeito quando, por exemplo, se reencontra uma pessoa que não se via há muitos anos. Um sentimento de nostalgia pela época em que se jogava taco no pátio do colégio da infância, por exemplo, é potencializado quando os colegas se reúnem depois de anos para uma nova partida de taco.

Nesse sentido, os automóveis antigos se prestam bastante bem ao papel de potencializadores de sentimentos nostálgicos. E o interessante é que muitos colecionadores buscam automóveis clássicos ou raros muito anteriores aos seus nascimentos. A nostalgia aí estaria associada não obrigatoriamente a lembranças de um tempo vivido no passado, mas a uma época ou a um tempo no qual esses carros eram produzidos e circulavam pelas ruas.

As culturas de massa costumam apresentar movimentos de interesse nostálgico por determinada época. Esses movimentos chegam a ter denominação própria: retrofilia. É uma forma de escapismo comunitário, onde determinados grupos criam uma identidade nostálgica entre pessoas da mesma idade. Mas potenciais aspectos negativos perdem efeito quando esses movimentos se associam a conhecimentos técnicos e-ou científicos (como pode acontecer com automóveis antigos).

Muitos especialistas citam a nostalgia como uma forma de receio do futuro. As novas tecnologias, o crescimento populacional, as incertezas sobre o futuro. Pode ser mais fácil refugiar-se em um passado idealizado e perfeito. Ao mesmo tempo, por outro lado, associado a busca por conhecimento e por amadurecimento, esse possível escapismo pode contribuir para autoconhecimento e pode sempre render boas experiências sociais e mesmo econômicas.

Os automóveis clássicos podem se mostrar como importantes instrumentos nostálgicos, como refúgio dos temores pelo futuro incerto, mas isso vai certamente depender da postura de cada proprietário. Há os que mantém seus antigos engaiolados, como se estivessem em um museu. Há aqueles que os conservam como se tivessem saído de fábrica, tal o índice de originalidade. Há ainda os que utilizam seus automóveis antigos no cotidiano de suas vidas, para ir ao trabalho, para levar os filhos à escola ou para ir ao supermercado.

Um melhor entendimento sobre o relacionamento entre colecionador e seu(s) automóvel(is) antigo(s) exige levar em conta uma grande quantidade de fatores. Uma frase de um especialista britânico, Quentin Willson, pode resumir a questão, caracterizando bastante bem a complexidade envolvida nessa discussão. Ele disse: 'Our affair with old cars is purely emotional, fiercely partisan, terminally subjective and completely without logic or order'.


Alexandre Beluco

Engenheiro, pesquisador, professor universitário. Especialista em energias renováveis. Apaixonado por motores de dois tempos.
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