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"A arte regula o homem inteiro" Carl Gustav Jung

Bianca Ferreira

Idealista, talvez até incoerente, inocente, inconsequente. Não sabe falar sobre arte e emoções economizando palavras

Às impressões da vida ─ Monet e a luz dos teus olhos!

As luzes de Monet que invadem os olhos também colorem a alma. A vida, feita das impressões que temos sobre tudo e todos, pode ser mais bonita quando olhamos com o coração.


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A viagem no tempo existe senhoras e senhores, foi criada por um gênio cujo nome muitos reconhecem, mas poucos compreendem. Claude Monet, nascido em Paris no ano 1840, falecido aos 86 anos em Giverny, também na França. Recusado e ridicularizado no inicio de sua caminhada artística, sua obra, “Impressão ─ Sol Nascente”, deu nome ao movimento Impressionista quando ele e outros diversos artistas renegados organizaram por conta própria a exposição de suas obras.

Telas de características peculiares cujas imagens ausentes de contorno pareciam mais rabiscos de lunáticos. Paisagens muitas vezes retratadas com pouca ou nenhuma presença humana, que em movimentos artísticos anteriores eram o centro das atenções. Falarei de Monet não como se fosse ele o marco do Impressionismo em detrimento dos demais, mas porque Monet, possuidor de um nome célebre que muitos já ouviram falar, atrairá a este artigo a atenção que eu preciso para fazer com que você se apaixone pela “impressão”. Sim, isso foi uma emboscada, me processe.

Olhe, portanto, com atenção a esta primeira obra de Monet: o retrato do jardim de sua casa em Giverny. Mas não olhe de perto, meu amigo, esta tela é para ser vista à distância. Não há minúcias nas obras impressionistas, não há necessidade de razão ou exatidão. Há apenas rabiscos, sim, rabiscos. Rabiscos que quando observados por olhos atentos, produzem uma impressão. A impressão que os seus olhos tem de ver um jardim, um lago, um céu. Não basta à Monet e outros artistas serem brilhantes, é necessário que os olhos que observam façam mais que isso. Precisamos que eles se iluminem e deixem-se viajar pelo espaço que o artista põe a mostra.

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Eis que surge então nossa máquina do tempo: ela nada mais é do que a própria pintura. Acalme-se, eu vou explicar.

Na tela acima está uma das “Ninfeias”, último trabalho da vida do artista no qual ele retratou o amado lago que abrigava suas preciosas flores. Monet as retratou diversas vezes ao dia, captando as luzes que incidiam sobre a paisagem e produziam diferentes cores, chegando a pintar a cena 250 vezes. Olhando tanto para o jardim de Giverny como para o lago você precisa tentar perceber as diversas tonalidades de cor que Monet usou para pintar cada centímetro desta imagem. Sim, cada centímetro, se não for milímetro. Ora, pois, mas eu não disse que não existe minúcia na pintura impressionista? Ora, pois, e não existe mesmo!

Apesar de detalhista tudo ali é livre. Este retrato é irreal. Não se vê aí nenhuma hiper-realidade, ele visivelmente não se parece com uma foto. O que existe aí é o seu cérebro humano, notável e esplêndido, interpretando a cena e repassando a informação à sua consciência de que esse jogo de cores aí em cima é real. De que esse conjunto de rabiscos é um lago com flores e o reflexo do céu. Impressão. Esta obra de Monet, meu bem, é mais uma obra da sua mente do que de fato de Monet. Hãn?

Uma tela como esta, leitor devoto (como dizia Machado), fica encarcerada nos limites de suas dimensões se o observador não permite que ela rompa as barreiras do tempo e do espaço, e o transporte até o instante precioso e único em que Monet fez pessoalmente essas pinceladas diante de seu lago. Se você abrir mão da realidade, das formas e da consistência das coisas, sua mente livre vai interpretar todos os tons de cores, e à medida que você o observa, poderá sentir como se estivesse vivido pessoalmente esse momento. Como se pudesse sentir o cheiro da abertura das flores no lago. Sentir o vento gelado do fim de tarde soprar, e olhar o céu laranja do crepúsculo refletir sua grandeza no espelho da água.

ninfeias azuis.jpg

Segue, assim, uma declaração de Monet já no fim de sua vida, porque sua existência será eterna, a respeito das “Ninféias”:

“Estas paisagens refletidas tornaram-se para mim uma obrigação, que ultrapassa as minhas forças que são as de um velhote. Mas mesmo assim, eu quero chegar ao ponto de reproduzir aquilo que sinto. E espero que estes esforços sejam coroados de êxito.”

Parece exagero da minha parte, mas digo com toda sinceridade do meu ser que as telas impressionistas me emocionam. O azul do céu, o reflexo dos salgueiros que devem oscilar ao vento e beijar a água algumas vezes, a beleza do colorido das flores que sem o azul do lago não pareceriam tão coloridas. Posso reviver esse momento.

Posso fechar os olhos e acreditar que vejo Monet, como numa memória perdida, sentado em frente ao seu lago admirando a natureza que ele tanto amou durante sua vida, e colocando nas telas, uma após a outra, a emoção que sentia por estar vivo naquele instante. A paisagem celebrando a vida num fim de tarde, a mostrar a mesma gratidão que este velhote tem em poder presenciar esta cena, as emoções que enchem seu coração, um respirar fundo do cheiro de mato que traz paz à nossa alma.

É o que eu quero sintas. Compartilho com você que lê a mesma paz, o mesmo amor pela vida que floresce. Enxergue a vida através dos olhos de Monet, e eu tenho certeza, o próximo pôr do sol que você verá não será mais o mesmo. Nem a sua existência será. Uma vez tocado pela impressão, jamais há de voltar a ter os olhos em tons de cinza.

Até mesmo uma olhadela da janela do ônibus a caminho do trabalho será para você o estender de sua alma, que humana como todas, vibrará diante da emoção de luzes e cores que a natureza leva até seus olhos, e que antes, você não havia notado. E eu sei, a próxima vez que isso acontecer você vai sorrir. E à imagem de Monet, posso desde já imaginar o seu sorriso também.


Bianca Ferreira

Idealista, talvez até incoerente, inocente, inconsequente. Não sabe falar sobre arte e emoções economizando palavras.
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