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vou ser feliz e já volto.

Guilherme Mariano

tenho medo de começar a ser feliz e surgir efeito colateral como puxar coro de musica de onibus de excursao ou tirar foto de braços abertos.

O clube da luta Nietzschiano

Nesse artigo eu irei abordar o filme “Clube da Luta” (Fight Club, David Fincher, 1999) baseado em dois problemas interligados: crise de identidade e o niilismo. A partir da crise de identidade irei discutir brevemente a visão materialista que o personagem se encontra. Com a discussão sobre niilismo irei procurar fazer uma ligação entre o filme e o pensamento de Nietzsche sobre o niilismo na cultura ocidental.


No filme “Clube da Luta”, o personagem interpretado por Edward Norton tem uma vida tranquila, segura financeiramente, confortável e viciado em comprar moveis de luxo em por catalogo.

“Você compra móveis. E pensa, este é o último sofá que vou comprar na vida. Compra o sofá, e por um par de anos fica satisfeito porque, aconteça o que acontecer, ao menos tem o seu sofá. Depois precisa de um bom aparelho de jantar. Depois de uma cama perfeita. De cortinas. E de tapetes. Então cai prisioneiro de seu adorável ninho, e as coisas que antes lhe pertenciam passam a possuir você.” (PALAHNIUK, 2000)

É explicito no filme uma crítica clara ao capitalismo e consumismo. O personagem principal é de uma classe média/alta que tem um bom emprego mas se vê preso, dizendo que todos os dias é uma cópia, da cópia, da cópia. Essa posição no mercado de trabalho, juntamente com sua rotina, fez com que ele caísse em uma “crise de identidade”. É um cara bem sucedido socialmente, com uma instabilidade financeira, porém, ele vive em uma constante angustia, e acaba caindo em crises psicológicas e de identidade, e com uma forte insônia. Essas crises foram evidentes nos EUA com a criação de vários grupos de autoajuda onde se buscava valores para acabar com essa crise de identidade, com o objetivo de aliviar esse stress cotidiano.

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Um exemplo no filme, embora que por motivos diferentes, nos grupos de apoio psicológico que o personagem interpretado por Norton participava para livrar-se da insônia. Lembremos especialmente do grupo de câncer nos testículos, onde os homens se encontram para chorarem a perda dos símbolos corporais da sua virilidade. A gente consegue observar que há por parte do personagem de Norton a busca por uma fuga psicológica de um mundo cheio de fingimento e completamente vazio de sentido. Para fugir disso, o personagem tenta se desfazer de tudo de valor, começando pelo seu apartamento perfeito, com moveis de luxo, comprado pelos catálogos. Ele foge de um modelo de vida capitalista/consumista que o leva a completa alienação. A questão é que nessa fuga, o personagem de Norton cria em Tyler (Brad Pit) um estilo de vida oposto ao que vivia antes, e esse desabafo contra a sociedade do consumo é discurso de Tyler, criatura que inverte todos os valores sociais antes vividos por Norton. Nesse momento também podemos perceber em Tyler a criação de um modelo de identidade diretamente oposto ao que o personagem de Norton vivia.

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Essa troca de valores mostrada por Tyler Durden, culturais, morais e psicológicos também foi seguida por uma leva de homens que integraram o Clube da Luta, com a clássica regra de ninguém dizer nada sobre o clube da luta. Assim o Clube tem exatamente um público que busca se libertar dos fardos de uma sociedade capitalista, monetarista, excludente, consumista, moralista e tradicionalista como é os EUA. Pensando bem, o intuito do Clube da Luta é bem mais semelhante ao de um grupo de apoio psicológico do que um ringue de violência gratuita, feito para libertar toda esse peso do fardo que temos no nosso dia-a-dia. Todo os questionamentos do personagem interpretado por Norton são evidenciadas justamente pelo personagem de Marla, que sempre acaba agravando as crises dele, ao mesmo tempo em que mede forças e “vence” Tyler. Ou seja, o confronto entre a dual e bipolar, com sua crise de identidade.

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Agora irei Tentar estabelecer um paralelo do filme com algumas ideias de Nietzsche, principalmente com relação ao tema do niilismo. O anarquismo também poderia entrar nesse tema, de teóricos como Bakunin, Proudhon, Malatesta, Kropotkin e outros clássicos. Nietzsche criou um conceito de niilismo. Este tema faz parte da crítica à modernidade ocidental construída pelo filósofo alemão praticamente em toda a sua obra. Aqui não será possível fazer uma explicação completa do niilismo, é algo muito profundo, e não tenho tanta competência pra explicitar. Mas, grosso modo, poderíamos defini-lo, através da obra nietzschiana, como o processo de desvalorização dos valores estabelecidos; processo que tende a se intensificar na sociedade ocidental moderna, e hoje em dia então, nem se fala. Podemos dizer que esse fenômeno se desenvolve principalmente a partir da interpretação moral da existência, interpretação que se radicaliza em direção a um abismo. Com a morte de Deus – escrito em Gaia Ciência, um dos acontecimentos fundamentais da modernidade, desaparece o mundo metafisico e a divisão antes estabelecida entre o mundo metafísico e o mundo sensível. Porém já nesse conceito fica claro que os homens não entenderam a gravidade de tal acontecimento, que trocam o trono vazio de Deus com novos ideais, os ideais modernos, podemos colocar a ciência no lugar de Deus. O niilismo pode ser entendido a partir da relação que os homens estabelecem com esse acontecimento e suas conseqüências. Trazendo assim o desespero e depressão perante o abismo que se abre em sua frente. Não é necessário concordar com Nietzsche que coloca a vontade de potência como uma forma do ser, mas na minha opinião é algo muito importante.

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Surge assim o questionamento final sobre o filme: o personagem de Norton consegue sair da destruição e criar algo? Ele consegue deixar de ser movido por uma vontade de nada e de destruição, deixar o niilismo e criar algo novo a partir daí? Talvez ainda coubesse perguntar se o narrador poderia até mesmo sair do niilismo.

A contemporaneidade do filme Clube da Luta é muito evidente, especialmente pela problematização de tensões e crises dos tempos em que vivemos. Os dois elementos que aqui analisamos se enquadram num contexto maior que poderíamos nomear de pós-modernidade, onde as angustias da modernidade foram continuadas em experiências contemporâneas. As crises que surgem da modernidade também afetam a sua personalidade, e a nossa também, por que não.


Guilherme Mariano

tenho medo de começar a ser feliz e surgir efeito colateral como puxar coro de musica de onibus de excursao ou tirar foto de braços abertos..
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