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Jonas Moura

Uso as palavras para falar ao mundo o que penso.
Observo. Amo. Ouço. Declaro.
Compartilho ideias, quero colher pensamentos.

A ideologia que veste a alma

O Brasil ferve e clama por democracia, enquanto isso a genialidade de algumas obras atravessam o tempo. As propostas que representam a realidade despertam a constante necessidade de se pensar o mundo real.
Entender a evolução da sociedade exige o contato com o passado, descobrir o moderno é mergulhar na história. Cinema é vida em movimento, o ato nobre de impressionar. Revisitar clássicos é encontrar respostas.Uma experiência que pode te surpreender.


"Silêncio total. Olhos nos olhos. Estão sentados à mesa. Romana tem o olhar marejado, mirando o rosto triste e cansado de Otávio. Suas mãos se encontram, se apertam. São cúmplices, no amor e na vida. Uma lágrima escapa e escorre pelo rosto dela. Os grãos de feijão estão na mesa, e ela começa a catá-los. Ele pega um punhado, e também o faz. Não há som algum, agora apenas os grãos que caem na bacia de alumínio, amparada no colo de Romana. Não há nada além dos dois, apenas um silêncio, capaz de dizer muito mais do que qualquer palavra. Por mais que o mundo seja hostil, eles sobrevivem. Há esperança. Ainda não é o fim..."

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Este é o ápice da história. Este é o Brasil, subúrbio de São Paulo, década de 80. O movimento operário ganha força, e sob a égide da eterna luta de classes, o desejo de justiça e igualdade resplandece. Há força no chão de fábrica e vigor na esperança da mudança. O país sobrevive, após um duro Regime Militar, eo povo sonha com a democracia plena.

Um bom enredo. Um excelente motivo para discussões. E, sim, uma possibilidade magnífica para o cinema, basta apreciar "Eles não usam black-tie" (1981). Uma história incrivelmente atual, motivada pela consciência política e social. Um reflexo da sociedade brasileira, algumas vezes consciente, outras vezes submissa ao desejo do poder.

Marcado pelas atuações brilhantes de Gianfrancesco Guarnieri (também autor da obra) e nossa grande dama, Fernanda Montenegro, o filme é, além de toda sua ideologia, uma metáfora ao cotidiano das classes proletariadas. Um apontador das convicções humanas, certas ou equivocadas, mas que definem nossas escolhas, sejam elas políticas ou pessoais.

No cinema, foram vários prêmios em grandes festivais, porém esta obra estreava há 58 anos como peça teatral, embarcando no neorrealismo inspirado pelo Cinema Novo. E, se transformaria, num dos maiores sucessos do teatro tupiniquim. Revolucionária, trouxe para o centro do palco, personagens diferentes dos que eram habitualmente representados. Rodou o país em uma turnê de sucesso, que foi capaz de provocar sentimentos intensos no seu publico. Sua força foi suficiente para conquistar a sétima arte.

Revelando demandas sociais tão contemporâneas quanto urgentes, o roteiro constrói, na figura de cada personagem, um ator social. A luta pelos direitos, num cenário marxista do mundo moderno, revelado a partir da luta de classes, e tendo como pano de fundo aos conflitos pessoais, o início dos movimentos sindicalistas e grevistas do ABC Paulista, nos anos 80.

Torna-se inevitável não comparar as épocas. Identificar, que embora os tempos sejam outros, as mazelas ainda, continuam as mesmas. Cada figura é simbolicamente importante, como a representação das ações policiais, que são apresentadas a partir da hostilidade. Destacando-os como os agentes do estado e seu tratamento junto à periferia. O cotidiano das famílias e sua dura realidade nas favelas. A dor e a maravilha de ser brasileiro.

“Eles não usam black-tie” celebra a democracia, a liberdade em poder expressar tudo o que se pensa e tudo o que se almeja, sem o receio da censura. É uma provocação e um marco, que num futuro breve, inconscientemente, tornou-se o reflexo de um movimento forte o suficiente para gerar líderes políticos. Para gerar transformações tão profundas, que até hoje, são discutidas e defendidas a ferro e fogo nas ruas das grandes capitais brasileiras.

Um instrumento de observação relevante para quem se interessa por temas sócio-políticos. Contemplamos um delicado retrato, que pode tocar fundo uma alma revolucionária. Daqueles filmes, que após o fim, pensar é necessário. E para isso, exige-se a abstração de preconceitos quanto aos aspectos técnicos da obra, pelo seu tempo de filmagem. Apenas a análise de seu simbolismo, que historicamente jamais deve ser ignorado. Uma peça indispensável ao acervo dedicado a arte pensante.

É o duelo entre a coragem e a moral traçando um paralelo humano sobre vidas miseráveis. A entrega ao medo de uma vida privada dos desejos materiais ou o pulso firme diante das adversidades, garantindo a vitória ou o fracasso sob aquilo que pode determinar um eterno ciclo de pobreza ou a volta por cima de um destino, muitas vezes, condenado ao fim indesejado. É o espírito livre que está em cena, reanimando as virtudes capazes de vencer qualquer possibilidade de fracasso.

Relembrando que a vida, muitas vezes, nos exige um posicionamento, está em jogo as escolhas que definirão nossas derrotas ou êxitos. Não nos deixa esquecer, que se ame ou odeie o ser social, a sociedade cobra de que lado estamos. E, que o movimento constante do universo e seus elementos, também permite a mobilidade do homem. A inércia enterra a evolução e a arte existe para impressionar a vida real, que diversas vezes ignora a realidade. Nos permitindo ver o agora sob os olhos de uma representação do passado, mas tão tangível quanto moderna. Obras, como essa, são tão geniais que viajam pelo tempo e tornam-se imortais.

Muito além daqueles que não vestem black-tie, a película é um pensamento sobre o que vestimos, e os nossos olhos não alcançam. Sobre os ideais que vestem a nossa alma. Carregado de diálogos metafóricos e inteligentemente construídos para alcançar um propósito, fala-se de um país, de pessoas que buscam viver neste país. Um Brasil de ontem e de hoje, tão atual que não soa demodê assisti-lo agora, neste momento, cerca de três décadas depois.

Dono de uma das cenas mais linda e expressiva do nosso cinema, não há como assistir este filme e decidir manter a nudez, sem um idealismo qualquer.

Decida o que vestirá...


Jonas Moura

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