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Jonas Moura

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A maldade não é inocente

Hoje, o bullying já é discutido. O que antes era visto como uma brincadeira despretensiosa ganhou nome, e não apelido. Há um limite entre o amistoso e o cruel. As pessoas só precisam compreender que ser mal não é divertido.


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Existem maldades que passam desapercebidas, que se escondem no dia a dia. Parecem tão inofensivas que as pessoas ignoram ou fingem que não são atos deprimentes para continuarem suas vidas, livres da responsabilidade de se preocupar com o outro ou com o que está sendo feito com ele.

Resta para os culpados a liberdade de continuar agindo sorrateiramente e sem receio de punição. Para as vítimas a angústia, o medo e quase sempre o silêncio perturbador que aprisiona, emudece e humilha. Não há rosto para o mal, ele habita até nas margens limpas da aparente inocência. E, vaga livre pelas ruas ou entre paredes.

No filme mexicano "Depois de Lúcia" (do diretor Michel Franco) a ideia é provocar o incômodo, de maneira quase insuportável. É nos fazer sentir o que sente quem é refém desses males. O soco no estômago é doloroso, e não hesita em incitar um misto de revolta e desprezo pelos agressores. Quem sabe, só assim, alguma coisa mude na vida real.

"Depois de Lúcia" é cruel. Seco e apático. A ausência de música e o exagero de silêncio se fazem justificar a medida que a trama vai se revelando. Seus primeiros trinta minutos são frios, parecem criados estritamente para instigar a imaginação e a curiosidade sobre o que não é óbvio. A falta de comunicação e a certeza do sofrimento pós luto estão a flor pele, mas o que se passa depois é perverso.

Não sabemos do que trata a história logo de imediato. Mas, quando sabemos e somos testemunhas dos fatos, viramos cúmplices de um terror psicológico perturbador. O filme não é de terror, mas facilmente se encaixaria como tal. Não há sangue, não há facas ou motoserras, o que assusta é a banalidade do mal, praticada por quem nem parece um psicopata ou algo do tipo.

As semelhanças seriam meras coincidências? Não, pior que não. A obra que leva o tema bullyng as últimas consequências é fatidicamente verdadeiro. E, sua crueza, uma triste constatação do que acontece na realidade. Em algum lugar ou em algum momento, alguém já foi Alejandra. Não raro, vemos vídeos íntimos compartilhados nas redes sociais, pessoas sendo expostas, jovens em idade escolar sendo vítimas de uma crueldade, muitas vezes praticada por outros adolescentes.

A certeza da impunidade fomenta o ciclo vicioso dessas desumanidades e truculências. Também alimenta atitudes inconscientes que geram consequências irreversíveis. Não há medida para o mal, não há uma maldade menor do que outra. Há um ato nocivo, que independente de sua amplitude, não deixará de ser algo ruim. Poderemos seguir complacentes ou não com tais iniquidades.

Uma obra cinematográfica pode ir além do mero entretenimento, muito mais quando choca, sem meios termos. Certamente, este filme não é o perfil do grande público. Está longe de ser um blockbuster, e também um roteiro impecável. Mas, sua densidade e tensão são perfeitas. Permita-se avaliar. Decida se no final vale a razão ou a emoção, o justo ou a insanidade, a legalidade ou a justiça com as próprias mãos.


Jonas Moura

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