idees

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Jonas Moura

Uso as palavras para falar ao mundo o que penso.
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Compartilho ideias, quero colher pensamentos.

Cada tempo em seu aquário

Resistir é preciso, mesmo que seja solitário. Os muros e obstáculos sempre existirão, mas ainda assim não serão capazes de extinguir uma ideologia, uma opção, um estilo de viver. Na contramão do que pensa a maioria reside a coragem, não há nada a temer. Não há tempo certo, há o vintage e o velho, lugar para todos. Deixemos para os cupins, o ideal parasita de destruir sem respeito.


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O novo e o antigo andam de mãos dadas. Não se anulam, se completam. O apego a história das coisas, das nossas coisas pessoais, é parte de nós. Uma vida não se resume ao presente ou ao futuro, o passado é uma peça fundamental nesse quebra-cabeça cotidiano. O saudosismo e a nostalgia não são velhos, são uma maneira de nos lembrar quem somos.

Proibir essa possibilidade, de nos apegarmos ao que atribuímos uma importância ímpar, é nos talhar a liberdade de viver segundo o que acreditamos. Nada e nem ninguém tem esse direito. O amor é fruto das nossas escolhas, e isso não tem preço. O espaço que nos aconchega é do tamanho dos limites que nós mesmos construímos. Não importa o quanto o mundo mude, algo sempre permanecerá e essa necessidade deve ser respeitada.

Para Clara (Sônia Braga) isso é essencial. Sua liberdade, seus espaços, suas saudades, seus livros e vinis. Sua casa, seu canto, seu lar. Uma vida marcada em cada mobília, na vista pro mar de Boa Viagem, nas cores da fachada de seu Aquário. Não há chances para mudanças bruscas, não há pressa para se render a selva de pedras, não há preço. Seu tempo vai contra a ausência de apego de uma época que devora a calmaria, o sentimento pelo outro e pelas próprias propriedades.

Aquarius, filme mais recente do pernambucano Kleber Mendonça Filho, não é apenas uma obra que ganhou destaque pela militância política de seu elenco no Festival de Cannes. É a consolidação de um diretor e a expressão sublime da qualidade do cinema brasileiro. Num ano intenso como 2016, o filme abusa da sensibilidade e da ousadia de não ser comum e popular, apenas relevante e inesquecível. E, acerta em cheio ao que se propõe transmitir. Sua trama não se resume apenas ao embate resultante da venda de um apartamento.

Aquarius é sobre liberdade, força, memórias, ambição. Sobre nossa sociedade. É musical e sentimentalista. Desperta a saudade de um tempo mágico, o fascínio entre a convivência do moderno e do anacrônico. Instiga a observação da ansiedade capitalista e seu desprezo por valores que ultrapassam o cheiro das moedas.

É uma experiência acolhedora que envolve pelo realismo e humanidade, principalmente de sua protagonista. Os diálogos são tão possíveis que cativam sem grandes esforços. A música é tão intensa que se mistura aos acontecimentos de forma indispensável. Estar junto a Clara, dividindo seu apartamento e seus discos, seu prazer em viver e a angústia da perda iminente é um exercício de intelectualidade e disposição cinematográfica.

Um grande acerto. Do seu anterior, O Som ao Redor, Kleber evoluiu para uma linguagem aperfeiçoada capaz de dizer muito em poucas imagens. São as cenas menos faladas que mais encantam e mais têm a dizer. O resultado é um olhar sensível e detalhista, atento a cada centímetro dos atos. Todo contexto político e social das entrelinhas são apenas coadjuvantes, a mensagem vai além do que poderia ser óbvio. Um exemplo trivial de que o cinema nacional é tão forte quanto seus conterrâneos.


Jonas Moura

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