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Jonas Moura

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Precisamos falar sobre Dolores Claiborne

Para as mulheres, a tormenta de seus karmas. Para os homens, a revisão de alguns conceitos. Para a humanidade, a lembrança de que cada um tem sua história , o julgamento alheio é dispensável...


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Reecontrar o passado pode ser doloroso. Algumas feridas abertas, que habitam este tempo, podem ser tão cruéis quanto quem você se tornou, por razão daquilo que viveu. Os fantasmas das más lembranças insistirão em regressar, e fugir nem sempre será a melhor alternativa.

Dolores Claiborne nunca evitou seu passado, mas sua filha Selena, sim. E, quando as duas obrigadas pelas surpresas da vida, precisam enfrentar velhos inimigos, sofrer será inevitável, porém libertador. Essa libertação será gloriosa, e renderá um excelente filme, carregado de suspense, toques feministas e dramas familiares.

"Eclipse Total" (1995) é uma história baseada num livro de Stephen King, mas que dispensa o terror sobrenatural, tão presente na biografia do autor. Talvez, os horrores abordados remetam muito mais ao que pertuba nossa mente e personalidade ao que provoca gritos ou sustos na poltrona. Numa aproximação real com o cotidiano de qualquer família, em qualquer lugar do mundo.

Do ponto de vista psicológico, Eclipse evoca a construção da personalidade humana na maneira como lidamos com traumas ou situações que nos coloque em cheque, com nós mesmos e com quem está ao nosso lado, provocando ou dependendo de nossas decisões. Revela as possibilidades, comuns ou incomuns, de como as pessoas lidam com seus dilemas.

Por outro lado, não há como ignorar os aspetos feministas da película. Vale ressaltar esta ode as mulheres, numa busca pela vitória do feminismo sobre o machismo primitivo, que ainda assombra nossa sociedade. Dolores Claiborne é a materialização da mulher forte, guerreira e capaz de reverter sua realidade adversa. Embora, não haja explicitamente o levante de uma bandeira pela causa, há o triunfo das personagens femininas sob seus destinos ingratos.

A ilha de Maine, fria e distante da cidade grande, abriga a vida conturbada de sua protagonista, acusada de uma assassinato. Esse é o ponto de partida para o reencontro de mãe e filha, de passado e presente, tão hostil quanto amargo, que trás a tona estórias mal resolvidas, anuladas pela ação do tempo, mas não menos presentes na vida dessas mulheres.

A fotografia é perfeita para transmitir a sensação de frieza da relação entre as duas, tão neutra e sem cor quanto a ausência de abraços ou gentilezas. A trilha sonora se encarrega de dá o clima de suspense pertinente ao clima sombrio do enredo.

O resultado é denso, digno dos dilemas e dos medos entranhados na alma humana. Incomoda, e por hora nos faz crer, perdoar, e até ponderar certas atitudes. Eclipse Total põe o dedo em certas feridas que nos permite concessões. Submissão, humilhação, desprezo, falta de amor e senso de moralismo são alguns elementos que assustam. Tudo sutilmente colocado na linha tênue entre os homens e mulheres.

Katty Bates está impecável como Dolores, numa atuação digna de grandes prêmios. A atriz consegue humanizar e tornar real sua personagem, fazendo-nos imaginá-la como uma mãe facilmente enontrada em qualquer lugar. Também destacam-se Jeniffer Jaison Laigh (Selena), Cristopher Plummer (Mackey) e Judy Parfitt (Vera Donovan)com suas interessantes interpretações coadjuvantes.

Sobre o título em Português, cabe a liberdade poética, já que o evento tem grande importância psra o enredo, e soa com o simbolismo significativo que se espera para o desenrolar dos fatos.

O filme entra facilmente para o hall de excelentes produções da década de 90. Para a videoteca de clássicos que devem ser lembrados e reassistidos várias vezes, pois instiga boas discussões e reflexões. Há o feeling sobre as relações humanas, sobre vencer os próprios medos, resolver o mal resolvido, reatar laços que nunca deveriam ser desatados.

Para as mulheres, a tormenta de seus karmas. Para os homens, a revisão de alguns conceitos. Para a humanidade, a lembrança de que cada um tem sua história , o julgamento alheio é dispensável...


Jonas Moura

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