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Jonas Moura

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Quem trará ele de volta?

Se contasse que vi o Fuhrer andando livremente e sendo idolatrado pelas ruas de Berlim, caminhando como um popstar, como um bom motivo para selfies e risos. E que isso não foi em 1933, no auge de sua popularidade, ou em plena segunda guerra mundial. Que o ano é 2014, no século XXI. E os alemães, que o abraçavam, eram descendentes do mesmo povo que conheceu de perto o nascimento e as maldades do Nazismo?


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Seria impossível visualizar esta cena?

Com a figura viva de Hitler, sim. Mas, a partir da linguagem cinematográfica, não. E o filme "Ele está de volta", do diretor alemão David Wnendt, baseado na satírica obra literária de Timur Vermes, nos presenteia com essa interessante reflexão. De volta aos dias atuais, assistimos a ascensão da caricata figura do líder Nazista, numa outra sociedade, em outro momento da história.

Do risível ao perigoso discurso que permeia este retorno sombrio 'a contemporaneidade, descobrimos que sem os alemães, "cidadãos de bem" e comuns, o crescimento do Nazismo não teria sido algo imaginável. Pois é, conscientes ou não, ludibriados ou seduzidos, foram eles próprios que elegeram, e que mais uma vez, numa pequena experiência, acolheram seu grande vilão ou, para alguns, herói.

Talvez, seja redundante listar as consequências e os fatos históricos atrelados ao Partido Nazista, e o seu líder mor, Adolf Hitler. Porém, mais proveitoso, seria relembrar os pilares que serviram de base para a construção, do movimento e discurso, que manchariam a trajetória da humanidade. Sob a proteção de uma crise econômica, uma polarização política e a invocação de valores morais, a erva daninha do nazismo se alastrou. Primeiramente como mera piada, e depois como uma solução para a reconstrução de uma nova Alemanha.

O anti semitismo, o nacionalismo exacerbado, o autoritarismo, o preconceito, e tudo que ia contra a um modelo democrático surgia naquele momento. Mascarando o mal, a oratória baseada na conservação da família tradicional e de uma raça pura, passou a criar inimigos, e coisificar o outro, o diferente. A tentativa de criação de um novo império massacrou milhões de judeus, em nome de um plano excludente e manipulador, apoiado por pessoas incapazes de compreender o tamanho de sua responsabilidade sobre as futuras consequências.

Uma essência, por exemplo, interpretada pela filósofa judia, Hannah Arendt, como a "banalidade do mal". De maneira sucinta, o apoio e o acato as ordens e políticas nazistas, por grande parte dos alemães, era fruto da massificação de um discurso nocivo, mas cheio de promessas articuladas a partir de mentiras fabricadas e amplamente propagadas, fazendo com que essa massa disseminasse o mal, sem maiores questionamentos ou juízo de valor adequado. Homens bons e comuns reproduziam uma ideia perturbadora.

Por mais simples que pareça, a genialidade de "Ele está de volta" reside na proposta de exercitar o pensamento crítico. Não apenas revisitar o passado ou rir da personagem teatral que se constrói de Hitler. O receio não está só no que passou. O simbólico regresso do Furher é apenas um modo de sinalizar que suas ideias ainda sobrevivem entre nós, mesmo depois de tudo, apesar do que sabemos.

Não está tão distante o discurso de ódio que ecoou a algumas décadas atrás. Ele resiste, só mudou de rostos ou se esconde, a espreita. No Brasil ou mundo afora, não faltam candidatos e seus discípulos, prontos para uma nova onda, um novo Reich. O mundo político é um ninho desses modelos tenebrosos. E, um alerta já sinaliza que fundamentalistas e extremistas não foram extintos, sobrevivem fortes, aptos para o momento adequado.

A história tenta nos poupar, nós é que insistimos em ignorar seus fatos como uma lição. Resta saber, a quem caberá ou que sociedade permitirá outro holocausto. Um outro sistema liderado pelo individualismo, e descompromissado com a coletividade, a universalidade e diversidade dos homens. Quem ressuscitará o medo, o ódio, a devastação dessa vez? Sinceramente, tento não crer nessa possibilidade, pois do contrário, estaria desacreditado da inocência humana.


Jonas Moura

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