idees

Meus pensamentos, sua opinião.

Jonas Moura

Uso as palavras para falar ao mundo o que penso.
Observo. Amo. Ouço. Declaro.
Compartilho ideias, quero colher pensamentos.

Sobre aquilo que não mencionamos

Os homens são seres racionais preenchidos pela emoção. Não sabemos lidar com certas questões da nossa existência. Para algumas dessas questões preferimos o silêncio ou a fuga. Seria possível fugir das dores da vida ? Driblar o inevitável buscando um mundo paralelo ?
Precisamos mencionar algumas coisas...


“Uma garota, de dezesseis anos, foi estuprada por 33 homens, na cidade do Rio de Janeiro.

Terroristas realizaram um ataque no aeroporto de Bruxelas, na Bélgica. Trinta e quatro pessoas morreram.

Um menino, de seis anos, morreu após ser arrastado por sete quilômetros. Os assaltantes afirmaram que não viram o garoto que estava preso ao cinto de segurança.

Uma jovem, de classe média alta, arquitetou a morte dos próprios pais. O motivo: queria a herança.”

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Seria apenas triste, se não fosse verdade. Mas é real, o que torna tudo mais difícil. Esse é o mundo real, duro e cruel, aprisionado a maldade humana. Condenado a perda da inocência e carregado de tragédias e barbáries, dignas do medievo. A humanidade estaria regredindo ao que há de mais primitivo ? Estaria a sociedade moderna doente ? Vítima de sua própria insanidade ?

É, parece que estamos vivendo tempos obscuros. Tempos que necessitam de reflexão e hábitos, que temos sido incapazes de avaliar, perceber e sentir. Mas, e se pudéssemos evitar todo esse sofrimento ? Se pudéssemos prosperar sob o sentimento da inocência e da preocupação verdadeira com o semelhante ? Se pudéssemos realmente praticar o amor ao próximo, longe de toda essa maldição, desse universo de atrocidades cotidianas ?

São sobre estas questões que “A Vila”, do diretor indiano M. Nigth Shyamalan, nos fazem refletir. Não! O filme não é apenas uma caça ao grande público. Pelo contrário, há controvérsias sobre seu êxito, tanto como um bom exemplar do terror, quanto como um grande sucesso de bilheteria. Embora, seus elementos cinematográficos sejam demasiadamente atraentes, a obra é uma reflexão sobre a possibilidade da fuga de uma realidade cruel. Sobre a busca pela harmonia, respeito e tolerância no convívio social. Um mundo paralelo, uma utopia, um paraíso livre das assombrações cultivadas pelos homens, lobos de si mesmos.

Talvez, de imediato, não haja tal percepção desse ponto de vista sem que tenhamos visto o filme. Mas, certamente, tudo se esclarece ao final da película. A possível sensação de medo dará lugar a reflexão. Seria uma saída ? Valeria a pena sacrificar, certos princípios, por um egoísmo que pretende humanizar e preservar a pureza do homem ?

Assistimos, aos poucos, a construção do desejo de uma sociedade subsistente, com suas tradições, seus hábitos, seus mitos, e seus limites. Entre sustos, suspense e o tom sépio apreciamos os destinos e o amor se entrelaçarem. A vida poderia ser tão simples e bela, não fosse nós mesmos. O homem sempre agindo de forma instintiva. Por vezes, impulsionado pelos mais nobres sentimentos, e outras, infelizmente, impregnado pela maldade gratuita.

O olhar crítico sobre a obra de Shyamalan soa bem mais interessante quando direcionada a estes aspectos filosóficos e sociais, do que quando focada em classificação de gênero ou falta de terror, erradamente proclamados pela publicidade. “A Vila” é um suspense, drama, e até mesmo um romance, que evoca conceitos relevantes para uma discussão, principalmente quando o tema é a crueldade, tão presente em nossos dias. É o pensamento sobre a real necessidade do afastamento da civilização para viver de forma civilizada, numa tentativa de livrar-se do sofrimento. Seríamos capazes de driblar todos os medos, todas as dores ? Sacrificar o conhecimento do bem e do mal, isentaria o homem da sua própria natureza ?

Vale a incursão pelo tema. Também vale, além de tudo já observado, as atuações marcantes de Bryce Dallas Howard (Ivy), Joaquin Phoenix (Lucius) e Adrien Brody (Noa). O trio excêntrico e incomum que vive um inusitado triângulo amoroso, e movimenta a trama. São válidos ainda, a trilha e a fotografia dando o clima necessário a estória. Vale a obsessão vermelha de Shyalaman, assim como o artifício do final surpreendente para chegar ao grande clímax.

Só não vale continuarmos acreditando que as coisas não podem ser diferentes. O mundo não pode ser tão ruim, inabitável. As pessoas não podem ser tão más a ponto de afugentar as outras a viverem numa bolha. A vida é feita de felicidades e dores. Dores naturais ou fabricadas. Por menos fabricação de sofrimento, e mais produção de humanidade.


Jonas Moura

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