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Jonas Moura

Uso as palavras para falar ao mundo o que penso.
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O futuro do presente

Que venham as rugas, os cabelos brancos e o poder da experiência. Sempre teremos a escolha em nossas mãos. O que nos definirá como mais velhos, não será apenas nossa aparência física. Será a maneira como nos enxergamos, o modo como iremos encarar nossa realidade.


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Envelhecer é parte da jornada da vida. Todos nós, ou pelo menos é o que se espera, chegaremos a gloriosa terceira idade. Daí, o tipo de velhinho que seremos, pode ser uma dúvida ou até mesmo um receio. A verdade é que talvez não estejamos preparados, não pensamos ou evitamos falar sobre isso. Eis um dilema. Um desafio que, deseje ou não, estaremos predestinados a experimentar.

Não raro e infelizmente, a solidão assombra esta que deveria ser a melhor fase de nossas vidas. O momento que desfrutaríamos da nossa abundante experiência, do nosso livre descanso e do pleno gozo dos frutos plantados ao longo da árdua e maravilhosa arte da existência.

Quem sabe, fugir das coisas óbvias e rotineiras do que se espera de uma avô ou avó, fosse uma atraente alternativa para nos tornarmos um espírito, eternamente jovem? Ou, se pudéssemos compreender todo o mistério do envelhecimento, exercendo a paciência e a compaixão com aqueles que um dia seremos nós?

A vida é um ciclo. É inevitável, dentro da normalidade dos fatos, que possamos driblar os efeitos do tempo, a iminência do fim. Se tentarmos, inconscientemente, estamos evitando o medo de uma realidade possível, mas não condenada ao imutável.

A filósofa Simone de Beauvoir, já observara algumas questões sobre o assunto. Pensara sobre a exclusão dos idosos na perspectiva que nós temos este destino, e também a partir dos efeitos do Capitalismo, na percepção das relações humanas. Uma relação de necessidades e desejos, onde visualizamos no outro, um meio de realização das nossas vontades. O jovem ofereceria inúmeras possibilidades, enquanto o velho, dentro de seu papel na estrutura capitalista, já não seria tão relevante. Uma relação sem trocas, geraria a exclusão, a falta de importância do outro.

Mesmo que não consideremos tal visão, uma regra geral, a reflexão é válida. E, é sobre esse tema que Marcos Bernstein, diretor e roteirista brasileiro, trata em seu primeiro (e delicado) longa-metragem: O outro lado da rua. Um filme sensível e capaz de quebrar alguns tabus, de uma maneira muito bem construída. Em cena, os gigantes e irretocáveis, Raul Cortez (in memmorian) e Fernanda Montenegro dominam a trama brilhantemente, e revelam aos espectadores os dilemas da terceira idade, num romance-suspense, com toques de Hitchcock.

Em Copacabana, não por acaso, um bairro com grande quantidade de idosos, D. Regina (codinome Branca de Neve) vive as suas aventuras policiais. Ela integra uma rede de espionagem onde velhinhos colaboram com a polícia local na captura de criminosos que agem na área. Essa é a única ocupação da senhora e sua fiel companheira Betina, sua cachorrinha.

A super avó tenta afugentar sua recorrente solidão nessa atividade. Busca na sua fiscalização social se sentir útil, heroína de sua própria vida e da vida dos outros.Vive sozinha, e não mantém uma relação próxima com o filho, com quem pouco conversa. A ligação se mantém na figura do pequeno neto. A Branca de Neve carioca, segue no seu dia a dia driblando o cotidiano da terceira idade que ocupa as praças do bairro, enquanto ela frequenta a sala do Delegado Alcides, denunciando as coisas que acredita ver. Aliás, ela acredita em tudo que ver, até o dia em que da janela de seu apartamento testemunha o que considera um crime. Realidade ou excesso de desalento?

Acreditando ter testemunhado um assassinato, Regina embarca numa investigação, que acaba com a aproximação com o suposto assassino, Dr. Camargo (Raul Cortez). E, é a partir deste envolvimento que vêm à tona uma envolvente narrativa, capaz de tocar em assuntos tão comuns, mas tão ignorados da nossa sociedade.

A trama é ousada. Não apenas, por tratar-se de um suspense brasileiro, mas principalmente por protagonizar um romance entre duas pessoas mais vividas. Por expôr as mazelas de uma fase da vida, pouco explorada pelo cinema.

A fotografia é primorosa, e traduz perfeitamente alguns momentos de solidão da personagem. Momentos esses, que são delicadamente abordados, e quando aliados a interpretação incontestável da atriz mais a trilha sonora certeira compõem o clima necessário. A parceria Fernanda Montenegro e Raul Cortez é gigante. Os dois têm total domínio sobre seus personagens e brilham, transformando o que em determinados instantes poderia soar vulgar, em pura sutileza e sensibilidade.

Bernstein acerta em sua direção e roteiro. Sua estória é demasiadamente interessante. Seduz e convida a reflexão. Usa do mistério, da ousadia e do sarcasmo para tocar em algumas feridas. Trata de eutanásia, sexo e envelhecimento. Pode lhe fazer chorar, sorrir e pensar sobre sua própria vida e sobre um futuro que lhe espera. Através de seus personagens tão humanos e reais, nos apresenta possibilidades e alternativas, mas também nos assusta com o marasmo do cotidiano.A obra é uma homenagem, um tributo aos mais velhos. Mas, também é um recado aos mais novos.

Os vovôs e as vovós, das pracinhas mundo afora, estão perdoados e absolvidos de qualquer julgamento. A escolha é livre. O ato de envelhecer sabiamente está diretamente relacionado ao modo como nos enxergamos. Portanto, não haveria regras absolutas. E, sim fatos, felizes ou tristes. A escolha se revelaria com o tempo, o futuro se definiria pelo presente. E, a felicidade talvez a alguns passos, do outro lado da rua...


Jonas Moura

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