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O usuário tem o poder

Jeronimo Molina

Administrador com MBA em Marketing e Vendas. Atua como professor nos cursos de Administração e Marketing. Ativista político e colunista do Jornal Sete.

O que é ser feliz?

A felicidade pode ser atingida, mas nunca buscada. Nossa incessante busca pela felicidade torna a vida um martírio sem fim, e não vivenciamos momentos simples da vida.


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Eu adoro comer margarina. Gosto mesmo. Faz tempo que não como margarina porque todos em minha casa tem restrições alimentares - por necessidade ou por cuidado com a saúde - então acabei abolindo tal iguaria doméstica faz muito tempo. De toda forma o que eu gostava de sentir na margarina era o gosto de família feliz.

Todos nós seres humanos buscamos a felicidade, isso é natural. Quem não busca estar bem em todos os aspectos da vida? Eu não sou exceção a regra e sempre quis obter tal felicidade. Quando eu comia margarina estava próximo de atingir o "nirvana" da felicidade familiar. E essa felicidade era latente até mesmo quando foi casado. Naquela época dizia para meus pais e meu irmão que gostava do "cheio do ambiente familiar" que tinha em minha casa: cheiro de café novinho, pão fresquinho e margarina, muita margarina! Estupidez minha que depois de um tempo tal revelação reveladora - sendo a redundância proposital - foi ao fim, e a ideia de "ambiente famliar" se tornou folclore familiar. Assim comecei a me indagar: porque raios a minha visão de família feliz não dera certo?

Com certeza o fracasso de meu casamento não foi pela falta de margarina, logicamente. A questão principal é que nós todos superestimamos a felicidade, e buscamos a plenitude deste sentimento, que como todos os outros - tristeza, raiva, angústia, dor, medo, entre outros - são passageiros. A grande diferença entre a felicidade e os outros sentimentos é que a grande maioria não são positivos ou trazem bem-estar. Veja por exemplo a tristeza: o que traz de bom algo tão ruim? Ou o medo? Quem sabe a raiva? Não, são poucos os sentimentos que fazem estar sublime, e entre eles podemos listar a felicidade.

download.jpgA raiva é um sentimento passageiro, como a felicidade

Mas assim como os outros sentimentos, a felicidade vem e vai rapidamente, sempre deixando um gostinho de quero mais no ar. Isso porque com a felicidade o sorriso em nosso rosto aparece rapidamente, existe uma certa leveza nas coisas, a pressão que é exercida some ou diminui, e de forma quase que instantânea tudo que estamos fazendo parece que dará certo.

Não digo que não existem pessoas felizes, muito pelo contrário. Existem pessoas felizes por aí o tempo todo. O detalhe é que ninguém consegue ser feliz todo o tempo. As aflições naturais do dia-a-dia fazem com que a felicidade diminua ou até mesmo venha a sumir. O que resta é a saudade do sentimento que se foi.

A procura incessante pela felicidade levou aos publicitários criar um modelo hipotético de família: a família margarina. Tal qual disse no início deste texto, a família margarina é o protótipo da família feliz, ou seja, com ausência plena de problemas. Em um comercial de margarina não vemos o casal discutindo sobre as contas do mês, os filhos reclamando o controle remoto, ou a pior cena de todas: todos com seus smartphones na mão digitando no WhatsApp ou Facebook.

Comportamento_17_1.pngO retrato da família de hoje

Por isso almejamos a felicidade, ou a família margarina; para obter ausência de problemas. Sejam quaisquer eles quais forem: financeiros, conjugal, relacionamentos, amizades, familiares. Ideamos a família perfeita e embarcamos nessa metáfora moderna que todos têm que obrigatoriamente serem felizes para obter o sucesso. A felicidade plena nunca será atingida, isso porque, para tal situação ocorrer deveríamos viver em uma sociedade perfeita, livre de ameaças que pudessem derrubar o status quo da ausência de situações adversas. E como sabemos isso não existe.

Mesmo assim podemos atingir um nível de felicidade relativo, onde as pessoas sentem-se satisfeitas com a situação onde se encontram, e por este motivo acabem por si só tornando-se felizes. Isso ocorre muito em pessoas que moram no interior com muito pouco ou quase nada. O objetivo maior não é atingir a felicidade plena, mas sim viver bem, entendo por este bem simplesmente viver.

20120611164537.jpgÓrfão, mendigo e engraxate: poderia ser depressivo, mas optou ser feliz

Nas cidades a busca por um nível social ou ascensão financeira é tão grande, que a felicidade relativa passa desapercebida. Ficamos olhando nossas conquistas passar pela janela e não damos o crédito para isso como deveria ser dado. Ganhe uma promoção e acredita que já deveria ter ganho; mude de casa e acredita que já deveria ter feito antes, compra um roupa nova ou sapato novo, imagina que deveria ter comprado; e assim por diante.

Dessa forma rotulamos a felicidade relativa como pequenos momentos de obter algo, seja lá o que for, material ou imaterial, indo desde o novo smartphone do momento até um amor para a vida toda. E essa projeção da felicidade em cima de ideias, pessoas ou objetos é mais tênue do que a felicidade plena, porque não está alicerçada naquilo que deveria estar: a não buscar a felicidade.

Como qualquer sentimento quando não buscamos algo ele acaba aparecendo, devido a circunstâncias do dia. Dessa forma largamos esse fardo pesado de buscar e buscar a felicidade, e passaremos a viver os momentos de nossa vida, seja bons ou ruins. Até mesmo porque o ser humano precisa de estímulos para continuar querendo mais e lutando na vida. Se fosse tudo um mar de rosas, uma calmaria só, não haveriam invenções, construções, empresas, médicos e suscetivamente.

Para ter a felicidade em nossas mãos temos que apreciar cada momento de nossa vida, pois cada momento é único seja bom ou não, pois cada momento serve de aprendizado. É este aprendizado prévio que irá analisar o quão feliz está sua vida comparada há alguns anos atrás. Seja em uma casinha de barro ou em uma cobertura, podemos ser felizes, basta não queremos a felicidade, e vivermos um dia de cada vez.

Assim pequenos momentos serão momentos de felicidade: seja comendo chocolate, tomando café, assistindo um filme, passeando no parque, ou simplesmente apreciando um belo pão caseiro com uma generosa dose de margarina.

Talvez esse seja o recado da família margarina, que não existe a felicidade completa, existem momentos felizes, nem que sejam tomando café da manhã com pãozinho de ontem e uma dose ultra-calórica de margarina.


Jeronimo Molina

Administrador com MBA em Marketing e Vendas. Atua como professor nos cursos de Administração e Marketing. Ativista político e colunista do Jornal Sete..
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