ideias aleatórias

O usuário tem o poder

Jeronimo Molina

Administrador com MBA em Marketing e Vendas. Atua como professor nos cursos de Administração e Marketing. Ativista político e colunista do Jornal Sete.

Turbulência pelo poder

A turbulência pode ser uma palavra bem simples, mas querer dizer agitação. Quando usada por governantes com sede pelo poder, essa agitação faz com que regimes totalitários se iniciem. E isso pode estar acontecendo no Brasil.


emocional-x-intencionial.jpg

Turbulência. Quando lemos essa palavra logo vem em nossa cabeça um avião com várias pessoas dentro, tremendo e balançando freneticamente no ar. Bem, apesar de haver filmes com essa temática, turbulência vem de uma palavra latina chamada de turba, ou seja, agitação, inquietação. Pode parecer estranho, mas o movimento exagerado da água também é chamado de turbulência, assim como o movimento exagero de uma multidão.

image.jpgTurbulência é ligada sempre a aviões

Ao falar em turbulência, no sentido de agitação, temos a nítida impressão que estamos vendo algo que é ruim. De fato não é nada bom quando o avião balança em pleno voo - inclusive quando estamos dentro dele - mas a turbulência pode ser algo bom. Basta analisarmos que para mexermos o açúcar no fundo de uma xícara precisamos fazer turbulência no café.

O grande medo que temos é quando esse turbulência não está atrelada a coisas físicas materiais, como água ou aviões, mas sim a fatos ou ações. Uma mãe quando grita com um filho para que ele faça o dever de casa, quando um homem discute com sua companheira, quando uma classe se revolta com seu professor. Existem vários sinônimos para a palavra turbulência em nossa vida cotidiana.

Se uma turbulência vem a nossa família, a nossa casa, ou a nossa rotina, nos sentimos desorientados, sem rumo. Lidar com essas turbulências da vida faz parte da vida de qualquer humano adulto. Temos que ter o chamado "jogo de cintura" para driblar tudo o que vem pela frente: um estouro da conta corrente, um filho que quebra um braço, um divórcio, uma morte. Seja o que não estiver nos planos de uma pessoa será uma turbulência.

braço-quebrado-gesso1.jpgQuebrar um braço pode ser uma turbulência

Porém, como uma turbulência aeronáutica, ela tem início, meio e fim. Não há uma turbulência que dure uma vida toda, ou uma eternidade. Seria o mesmo que uma tempestade, algo que irá passar em breve. Mas para que termine essa turbulência precisamos saber qual rumo tomar, qual caminho seguir. Não podemos ficar olhando a turbulência, como uma simples "marola".

Por diversos anos, o brasileiro se preocupou com os desmandos na política, com a corrupção nos altos escalões do governo, com peripécias de nossos representantes eleitos. Mesmo assim, o brasileiro seguia sua vida, porque tinha outras prioridades: trabalhar, garantir o sustento da sua família, suar todos os dias para conseguir um mísero lugar ao sol.

Graças aos santos e a sensatez de um Ministro da Fazenda, tivemos o privilégio de flertar com o impossível: passamos de inflações colossais para números menos preocupantes, nosso dinheiro teve valor, podíamos comprar mais produtos, podíamos enfim sonhar com o um futuro menos penoso. Com o passar dos anos a situação melhorou ainda mais: os brasileiros estavam estudando mais, trabalhando mais. Havia até pouco tempo atrás empregos, a economia crescia e conseguíamos vislumbrar o fim do túnel com uma luz mais clara que antes. Parecia que tudo estava bem.

foto22.jpgEm 1994, o então Presidente Itamar Franco mostrava as cédulas do Real

O tempo passou, os governos mudaram. Com estas mudanças na forma de governar as mesmas preocupações políticas do brasileiro se tornaram corriqueiras: diariamente se via em jornais, na TV, no rádio e na boca do povo as mazelas que a corrupção, que o desgoverno, que o descalabro e a "cara de pau" dos representantes eleitos faziam e ainda fazem com o povo de bem, trabalhador. Isso acontecia por aqueles que juraram proteger e defender esse mesmo povo que sofria calado.

O tempo passou e as preocupações começaram a entrar nos lares de cada um, tornando a vida que era no passado longínquo pesada, mais pesada ainda. E começaram a influenciar a vida de todos nós: o estudo foi diminuído, os empregos foram acabando, a inflação voltando. A luz do final do túnel ficou turva, embaçada, parecia quase algo semelhante a chama de uma vela.

Desemprego_1_.jpgCarteiras de trabalho

Essa turbulência influencia a todos os brasileiros hoje: a turbulência social. Vivemos tempos obscuros. Não sabemos o que poderá ocorrer hoje, amanhã ou depois. Existem grupos divididos, não há consenso sobre nada. As discussões sobre o futuro da nação que antes eram simples comentários da dureza da vida, se tornaram agressivas. Brigas, prisões, protestos, manifestações, agora fazem parte do noticiário de qualquer canal de TV, de qualquer site de notícias. A rotina do brasileiro foi quebrada, seu ânimo foi jogado às traças. Não temos mais disposição para nos unirmos, quiçá para acabar com essa divisão absurda e estúpida.

A turbulência fica a cada dia mais forte: ocorrera uma morte, mais e mais denúncias vem a tona, pessoas não se julgam responsáveis, políticos convocam "exércitos" de manifestantes para provar que tem força, que tem poder.

briga-protesto.jpgBrigas entre manifestantes pró e contra governo no centro do Rio

Normalmente governos e governantes fazem isso quando se sentem ameaçados ou quando querem um golpe político. Um exemplo disso foi o incêndio no Reichstag na Alemanha na década de 1930. A necessidade de criar um pretexto para prender judeus alemães foi a turbulência necessária para iniciar o maior genocídio - na mesma época que a palavra foi criada - de seres humanos da história.

incendio-reichstag.jpgReichstag pegando foto

Vindo como tempestade, a turbulência é um evento natural. Casualidade fortuita dos acontecimentos diários de uma vida comum. Quando provocada, não sabemos o que poderemos encontrar, pode se tornar um furacão que devasta tudo e todos, levando consigo milhares e milhares de pessoas e seus sonhos. Ao flertar com turbulência, um governo está em terreno perigoso, pois quer no meio do caos instaurar uma falsa ordem, que - sem sombra de dúvidas - será totalitária, cruel e ditatorial.

A apatia no controle de turbulências anteriores por quaisquer governos brasileiros, demonstra que a agilidade em sufocar protestos e manifestações - de maneira quase que desproporcional - está fora do status quo convencional da política brasileira. Antes podíamos ao menos dialogar política sem angariar inimigos, agora não há mais diálogo político. Existem visões completamente antagônicas, criadas por políticos com sede de poder, na real intenção de tornar o caos regra, para emergir do meio deste caos um novo monstro, mais cruel e sanguinário que se possa imaginar: a guerra.

get_img.jpgGuerra civil na Síria, por exemplo, já matou milhares de pessoas

Normalmente as turbulências sociais são usadas por governos com o intuito da sua perpetuação no poder. Desejam o caos pelo poder, pura e simplesmente. Sem filtros. Seria o mesmo que um filho querer ser chefe da família, somente pelo fato de decidir o que deve ou não ser feito para o jantar. Não há propósito, não há crescimento, não há habilidade alguma.

Nós, como brasileiros, estamos cansados. Não queremos mais essa promiscuidade que se tornou a política de estado no Brasil. Precisamos de reformas urgentes e que sejam profundas. Feridas vão aparecer, o remédio será dolorido e amargo. De toda forma não precisamos segmentar o país entre "nós" e "eles". Isso é a turbulência pelo poder, algo que já foi usado no passado.

Certamente, sou a favor dos protestos contra a corrupção, contra os devaneios da presidente, e no meu singelo entender até mesmo sou a favor do impeachment da mesma. Agora, jamais seria a favor de uma dicotomia em nossa singela e fraca democracia. Iríamos irromper em uma guerra sangrenta, onde não iriam sair vencedores, somente perdedores.

Estamos no meio da turbulência, no meio do caos. Não podemos deixar que esta turbulência venha ser usada para a manutenção de um sistema falido de poder, mas que seja o ingrediente que falta para nos tornarmos uma democracia de verdade. Porque depois de toda turbulência vem a calmaria, e precisamos urgentemente que ela chegue em breve.


Jeronimo Molina

Administrador com MBA em Marketing e Vendas. Atua como professor nos cursos de Administração e Marketing. Ativista político e colunista do Jornal Sete..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Jeronimo Molina