identidade cinematográfica

Se descubra em cada filme

Victor Martins

Estudante de jornalismo, curioso e com vontade de ser critico de cinema. Cinema é uma paixão que fez eu me descobrir como pessoa. Também posto textos no assimfalouvictor.

O Poderoso Chefão

Francis Ford Coppola nos presenteou há um pouco mais de cinco décadas com "O Poderoso Chefão", filme que conta a história da família Corleone, liderada por Vito, interpretado por Marlon Brando. Além de ser um clássico, é uma obra que atingiu todo tipo de pessoa, e se tornou histórica mesmo após cinquenta anos. Filme que até hoje é considerado um dos maiores já feitos. E conta, além da ação, com um estudo de personagem e de empatia. Mas, o que a personalidade de seus personagens acrescenta à narrativa?


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Uma obra que a maioria do mundo cinematográfico considera uma das maiores, senão a maior, o filme usa como plot a máfia ítalo-americana dos anos 30, mas, não apenas isso, ainda conta com um estudo de personagem que ultrapassa a qualidade da historia, este é “O Poderoso Chefão”.

Filme dirigido por Francis Ford Coppola, lançado em 1976, tem um elenco recheado de estrelas americanas, Marlon Brando, James Caan, Robert Duvall, Al Pacino e ainda, Talia Shire, a única mulher no cast principal, algo que falaremos mais adiante com mais detalhes.

Brando é Vito Corleone, comandante da família Corleone, que, após recusar a usar seus contatos para corroborar a venda de drogas das outras famílias mafiosas de Nova York, sofre uma tentativa de assassinato. É aqui que começam os estudos de personagens que são a grande atração do filme, logo na primeira cena, cada um dos personagens da história fica bem estabelecido, Vito Corleone é o chefe, inteligente, um homem ponderado, altamente prático, que pensa muito antes de agir, Santino (Caan) é o filho mais velho, esquentado e bem sucedido entre as mulheres, Tom Hagen (Duvall) é o advogado da família, filho adotado por Vito e que tenta provar seu valor a cada oportunidade, Michael (Pacino), herói de guerra e o único não envolvido com os negócios da família e por fim Connie (Shire), que está se casando, e tenta se sobressair no meio dos homens.

Tudo isso muda, após a tentativa de assassinato que Vito sofre, e duas mudanças são as principais, a de Michael e a de Connie. Michael assume um papel que não queria, mas que ele achou necessário assumir, não por ele e sim pela família, com a inclusão dele nos negócios, vemos alguém que, é inteligente e prático como o pai, mas cruel como nenhum outro, essa crueldade, é pontuada por pequenas ações para a família, mas grandes ações para Michael, como por exemplo, a cena do jantar com rivais no restaurante, ali a mudança se confirma, e percebemos que Michael faz parte dos negócios. A mudança em Connie demora um pouco mais para ocorrer, ela fica mais nítida na hora final da projeção, com a desconfiança, e posteriormente a descoberta de uma atitude tomada pelo irmão recém-inserido nos negócios, Connie passa a ser mais atenta, mais arisca, e acaba se tornando indiretamente (no primeiro filme) parte da máfia familiar. Levando em consideração que mulheres eram praticamente inexistentes no mundo do crime retratado no filme, Connie é uma personagem importante, e acima disso, representativa, vemos uma mulher forte, inteligente, e que vai aprendendo com o decorrer dos acontecimentos.

Acontecimentos que ficam claros e fáceis de acompanhar, apesar da longa duração do filme, por conta de uma montagem bem feita, e de planos bem encaixados. A montagem unida à fotografia brilhante de Gordon Willis, deixa tudo bem organizado, sabemos exatamente o ponto onde Michael se torna um membro da máfia, sabemos como as mortes ocorrem, porque ocorrem e onde ocorrem por conta de planos gerais que ilustram bem o quadro, facilitando para o espectador entender o que a cena quer dizer. Um exemplo disso é a famosa cena do “Leave the gun, take the cannoli”. Vemos um plano geral, mostrando apenas o carro, com a estatua da liberdade ao fundo, já vimos o assassinato, mas percebemos a dimensão dele, pelo uso do plano geral, mostrando todo um ambiente que ainda não tinha sido mostrado.

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E, já que falamos em uma cena de homicídio, um dos pontos que merece atenção no filme são as sutilezas de cada tipo de ação, a que eu mais gosto é a que diz respeito às laranjas. São mostradas laranjas em momentos violentos, ou em situações que antecedem esses momentos, como por exemplo, a morte do cavalo, onde antes, no jantar, o anfitrião come uma laranja, ou, quando Vito Corleone é atacado, ele está comprando laranjas em uma banca na rua neste momento. Com esse tipo de sutileza, a cada vez que assistimos “O Poderoso Chefão”, descobrimos novas coisas, em um mesmo ambiente, e essas descobertas proporcionam mudanças de olhar para cada cena. Um filme que consegue tudo isso, merece todo tipo de destaque, esta é uma proeza para poucos, o que costuma mudar a cada vez que reassistimos a uma obra cinematográfica não é a obra e sim a gente mesmo, aqui, isso não se encaixa.

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As atuações também são de tirar o folego, Marlon Brando está brilhante como Vito Corleone, o tom de voz, o jeito de andar, a composição de personagem feita pelo ator é algo acima da média, a cena inicial do filme, ilustra isso muito bem. Al Pacino transforma Michael em um personagem multifacetado que conquista o público, apesar de sua crueldade, ele é muito inteligente, inteligência que ele usa para tomar atitudes práticas e concisas, que apenas se encaixam nos negócios, e o ator consegue passar claramente o sentimento de que Michael não consegue separar o trabalho da vida afetiva, assim, o relacionamento dele com Kay (vivida por Diane Keaton) sofre mudanças bruscas e de forma muito rápida, expondo como a falta de cabeça para separar um lado da vida, que é o trabalho, do outro que é o amor, pode destruir relações, mesmo que essas sejam bem construídas e que tenham sido consolidadas ao longo do tempo.

O filme de Coppola consegue unir tudo isso e ainda muito mais, agradando os dois públicos, tanto o comercial, quanto o que frequenta com afinco o circuito cultural. “O Poderoso Chefão” é um filme para todo o tipo de pessoa, quem gosta de cinema vai se apaixonar, e quem não gosta, bom, acho que deu para entender.


Victor Martins

Estudante de jornalismo, curioso e com vontade de ser critico de cinema. Cinema é uma paixão que fez eu me descobrir como pessoa. Também posto textos no assimfalouvictor..
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