identidade cinematográfica

Se descubra em cada filme

Victor Martins

Estudante de jornalismo, curioso e com vontade de ser critico de cinema. Cinema é uma paixão que fez eu me descobrir como pessoa. Também posto textos no assimfalouvictor.

A História de amor inserida em A Origem

Você está esperando por um trem. Um trem que irá leva-lo para bem longe. Você sabe pra onde espera que esse trem te leve, mas não sabe com certeza. Mas não importa, por que nós estaremos juntos.


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“A Origem” é um filme lançado no ano de 2010, dirigido por Christopher Nolan e que conta com grande elenco, como Leonardo DiCaprio no papel principal, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy e Ellen Page. A obra concorreu ao Oscar 2011, e teve oito indicações, que foram: Melhor filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Trilha Sonora. Sendo vencedor em quatro destas: Fotografia, Edição e Mixagem de som, e Efeitos Visuais.

Mas, acima disso, esse texto trata sobre a história do filme, que, apesar de parecer ser uma ficção cientifica das mais pesadas, não é, a obra traz uma sensibilidade tocante e acima de tudo é uma historia de amor, de um homem, Dom Cobb (Leonardo DiCaprio), que apaixonado pela mulher com a qual explorava sonhos, sente-se culpado pela morte da mesma, e quando é culpado pela morte dela, é obrigado a fugir do seu país, deixando os filhos para trás. É justamente o amor pelos filhos que faz Cobb fazer o que faz, ele tem que voltar para casa, pois, seus filhos são criados pelos avós e não pelo pai, por isso, ele realiza os atos ilegais que o filme mostra com tanta maestria, e em relação a esses atos, o pior de tudo é que Cobb é extremamente competente naquilo que faz, poucos de sua equipe são capazes de realizar o que ele realiza.

Essa competência no trabalho se une a culpa sentida pela morte da mulher, que antes de chegar nos sacrifícios realizados por amor aos filhos pequenos, passa por uma privação da vida, e não apenas uma privação familiar, uma privação trabalhista, ou uma privação em suas amizades e relacionamentos formais, não, e sim, talvez a pior prisão de todas, que é a pessoal, a interna, que o leva a ser um homem amargo, não uma pessoa má, mas amargo, até porque, a privação interna o afasta cada vez mais da felicidade. E convenhamos que, quem nunca teve esse sentimento de estar longe da felicidade plena?

Nietzsche tinha um fundamento que mantinha como base a teoria de que, o homem quando deixa de ser ignorante nunca mais conseguirá alcançar a felicidade, e o sentimento de culpa de Cobb o leva a não ser mais ignorante, e assim, com a privação da vivencia dos filhos unida a privação pessoal, acaba fazendo o homem não ser mais feliz. Felicidade que ele tenta ter nos sonhos, e é por isso que toda vez que ele sonha, ele revive grandes arrependimentos, não podemos saber como ele os revive, porque temos acesso a isso na visão da personagem de Ellen Page, mas, podemos deduzir que, quando sozinho em suas lembranças, ele as revive de forma a corrigir erros e a melhorar acertos naqueles acontecimentos.

O pensamento do ultimo paragrafo, de sonhos que as pessoas têm, nos quais arrependimentos são corrigidos, pode ser ligado a aspectos da psicanalise que Freud usava em seus pacientes, um deles é o de que as pessoas precisam sonhar de três a quatro horas por noite, pois, caso essas horas de sonho não fossem cumpridas, a sensação de que a noite foi ruim dominaria o dia da pessoa em questão, fora que, Freud dizia que os sonhos refletem desejos e aspectos pessoais de cada um, é por isso que Cobb tinha suas horas de sono comuns e suas horas de sono sonhando, ele sempre dormia mal porque não conseguia mais sonhar naturalmente, ele tinha que forçar o sonho, e essa obrigação de sonhar o levava a lembranças de arrependimentos.

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Logo, os totens – objetos que os sonhadores no filme, usam para saber que não estão sonhando quando no mundo real – são a nossa consciência lidando com o sonho depois que a gente acorda, nos sentimos bem ou mal depois do sonho, mas, não sabemos o porque disso, o totem na medida que vai sendo usado nos traz de volta a realidade de forma gradual, nos fazendo esquecer dos sonhos aos poucos. Talvez, o totem de todos nós seja a nossa rotina, pois, na medida em que vai passando o dia, vamos aos poucos nos esquecendo do sonho que tivemos na noite passada.

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A história romântica do filme está inserida na culpa e na privação, já descritas neste texto, e a esperança de ver os filhos novamente, e o sentimento de felicidade (idealizados ou não por Cobb), pode fazer com que ele seja “ignorante” de novo, contrariando o principio de Nietzsche e alcançando a felicidade, felicidade essa que está unida ao amor. Essa esperança no filme é representada pela música usada como alerta para acordar dos níveis do sonho, a música em questão é de Edith Piaf e se chama “Non je ne Regrette Rien”, que em português é “Não, não lamento nada”, e Cobb realmente não lamenta, a única coisa da qual ele se arrepende é de ter levado a mulher a loucura (ou de se sentir culpado por isso), mas, fora isso, ele não lamenta nada, ele gosta do que faz, e das pessoas com as quais se relaciona, afastando-as por conta da sua culpa ou não. E como já diz essa música, “Com minhas lembranças, acendi o fogo”, é justamente o que ele faz, ele acende o fogo da sua vida familiar e de uma rotina pessoal mais calma.

Levando em consideração que a arquitetura dos sonhos são projeções dos sentimentos da pessoa em conflito com ela mesma, vemos em Cobb um homem sempre em conflito, mas, não apenas isso, vemos vontade de voltar para os filhos acima de tudo, e vemos amor, claro, nas projeções de sua mulher que são aparições frequentes, mesmo estando nos sonhos de outras pessoas, e isso acontece porque ele não consegue esquece-la, nem a mulher, e nem os sentimentos que ela despertava nele.

Mas, quando realmente se ama é possível esquecer? Bom, não há uma resposta certa para isso!


Victor Martins

Estudante de jornalismo, curioso e com vontade de ser critico de cinema. Cinema é uma paixão que fez eu me descobrir como pessoa. Também posto textos no assimfalouvictor..
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