identidade cinematográfica

Se descubra em cada filme

Victor Martins

Estudante de jornalismo, curioso e com vontade de ser critico de cinema. Cinema é uma paixão que fez eu me descobrir como pessoa. Também posto textos no assimfalouvictor.

A Noite e o vazio dentro de nós

Segundo filme da Trilogia da Incomunicabilidade, esse longa de Antonioni talvez seja o melhor deles. Não por conta da obra em si, mas por conta do que ela passa ao seu público, e principalmente, de como passa algo a quem assiste.


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Todos nós sentimos falta de algo, alguém ou de algum sentimento. Às vezes, nem sabemos do que temos falta, mas ainda assim esse vazio está lá, e as pessoas tentam preenche-lo de diversas formas, essas formas, costumam ser as mesmas.

São justamente as formas que usamos para nos esquecer que é foco de “A Noite”, filme de 1961, dirigido por Michelangelo Antonioni e protagonizado por um grande casal: Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau. A obra conta a história desse casal, que está passando por uma crise no relacionamento e vemos por duas horas de projeção uma jornada de autoconhecimento, de busca por si mesmo e pela força que precisamos no dia – a – dia.

O titulo do filme não é apenas um mero nome, Antonioni usou o nome de sua obra para estrutura-la, fazendo que o dia, a noite e um novo amanhecer representassem fases de descobertas, evolução, ou apenas alguma festa, cerimonia e caminhada da qual os dois protagonistas participaram.

Para essa estrutura funcionar, a montagem é extremamente necessária, já que é através dos cortes e dos planos que o público percebe ou não como o filme trabalha. Os planos, durante as três partes da obra, são longos, dando o tempo certo para que o espectador se sinta entediado (que é como o casal se sente) e para que Mastroianni e Moreau possam atuar sem medo de arriscarem, decisão correta do diretor.

O “dia” dura quarenta e oito minutos. Durante esse tempo, vimos como o casal, de forma separada, tentou se descobrir e preencher o vazio presente em si mesmo. Mastroianni, após visitar seu amigo no hospital, volta para a casa sem a mulher, antes disso, o mesmo foi ao lançamento de seu livro e deu uma pequena volta pela cidade, e foi assediado por uma das pacientes do hospital. Esse ultimo aspecto pode ser compreendido como uma metáfora contida na moça para o desespero que o próprio homem sente, e, assim como a jovem, ele não consegue escapar disso.

Moreau, por outro lado, após visitar esse mesmo amigo no hospital e de comparecer ao lançamento do livro do marido, passa todo o dia fora de casa, visitando lugares onde ela e o marido passearam quando jovens. Nesses locais, a jovem mulher relembra de um tempo onde os dois se amavam, tempo esse que de acordo com a expressão da atriz, foi há muito tempo atrás. O sorriso dela não é apenas de felicidade, mas também é de saudade, é possível para o espectador perceber isso na cena onde ela ve os meninos lançando seus pequenos foguetes na praça. Claramente, o vazio dela é a falta da vida que ela tinha, quando o amor entre o casal era reciproco.

Após isso, vem à noite, que é o período onde o casal tenta preencher seus respectivos vazios da mesma maneira. Diferente do dia, o casal dessa vez permanece a maioria do tempo junto, sempre presentes, e um olhando para o outro, de forma a não se perderem de vista.

Com a duração de uma hora e um minuto, vemos o casal em festas, apresentações em bares e tentando se divertir de toda forma possível. Para Mastroianni, a diversão é mais fácil, visto que é um escritor famoso, as pessoas sempre buscam falar com ele, e principalmente as mulheres, que buscam com frequência saber mais dele, e claro, tentam se envolver com ele, tentando conquista-lo.

E Moreau observa tudo isso, através de travellings longos, em sua maioria visando o lado direito ou esquerdo da tela, a mulher percebe como o marido é importante para as pessoas, e como ele gosta disso, e o mais cruel, como o homem esquece-se dela totalmente, ficando obcecado pela filha do casal anfitrião da festa onde eles se encontram.

Moreau percebe isso, e em dado momento ela resolve aceitar, e justamente nesse instante é quando começa a chover. A chuva serve de metáfora, querendo dizer que a liberdade e a felicidade que a moça tanto procura pode estar onde ela menos espera: pular na piscina, caminhar no jardim, ou apenas sentir a chuva tocando a pele. São nessas cenas em que a fotografia do filme coloca seu maior esforço.

Aqui, vemos frequentemente os personagens em contra luz, ou enquadrados de corpo inteiro, para o público ver como a chuva atinge todo o corpo de todo mundo presente naquela festa, assim, fica claro que além da metáfora citada acima, a chuva oferece outro aspecto: o de preenchimento, de alegria, de amor.

Assim, o dia amanhece, e nos é dado a ultima sequencia de cenas do filme. Cenas que levam o casal para fora da festa, de volta a vida real, e novamente juntos, os dois tem uma conversa esclarecedora depois de tudo que experimentaram.

Dessa vez, ao contrario do dia anterior, onde o casal tentava preencher seus respectivos vazios de forma separada, eles tentam resolver seus assuntos e sua crise no relacionamento estando juntos, mostrando evolução e amadurecimento.

Assim, percebemos como filme de Michelangelo Antonioni acerta em mostrar que todos nos temos crises e enfrentamos obstáculos para nos encontrar e para preencher nossos vazios. Dessa forma, a incomunicabilidade, que a obra tanto usa como assunto, é aqui, uma forma de fazer o espectador perceber que ainda há muito que aprender, e principalmente, ainda há muita coisa para descobrirmos em nós mesmos.


Victor Martins

Estudante de jornalismo, curioso e com vontade de ser critico de cinema. Cinema é uma paixão que fez eu me descobrir como pessoa. Também posto textos no assimfalouvictor..
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