identidade cinematográfica

Se descubra em cada filme

Victor Martins

Estudante de jornalismo, curioso e com vontade de ser critico de cinema. Cinema é uma paixão que fez eu me descobrir como pessoa. Também posto textos no assimfalouvictor.

A Relação Familiar Dentro da Atmosfera Onírica em De Olhos Bem Fechados

Último filme dirigido por Stanley Kubrick conta uma história de um relacionamento familiar, traçada dentro de uma atmosfera onírica e ainda nos permite conhecer um pouco do mistério que domina a obra "Um Breve Romance de Sonho" de Arthur Schnitzler.


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“De Olhos Bem Fechados” foi o ultimo filme dirigido por Stanley Kubrick, baseado na obra literária “Um Breve Romance de Sonho” de Arthur Schnitzler. O filme conta a historia de Alice, interpretada por Nicole Kidman, e Bill Harford, interpretado por Tom Cruise, que, sendo um casal, ele um medico e ela uma especialista em arte, após irem a uma festa juntos, Bill descobre que Alice o trairia se pudesse, e quem fala isso para ele é a própria mulher.

Após isso, o doutor sai em uma busca incessante e frustrante de autoconhecimento pelas ruas de Nova York, sozinho e a noite. A obra traz a mesma atmosfera onírica do livro de Schnitzler, e usa aspectos técnicos para fazer isso, a fotografia é um deles, que cria uma atmosfera fantasmagórica durante toda a obra, dominada pelas cores azul e cinza, esse aspecto ajuda a criar o misticismo necessário para uma adaptação digna da obra literária, e “adaptação” aqui, não quer dizer que ela será totalmente fiel ao material original, inclusive, muito pelo contrario.

Unida à fotografia está a montagem, que aqui se divide em três grandes polos de distribuição no filme, a obra é dividida através de seus acontecimentos principais, a sequencia inicial é a da festa e suas consequências, que termina quando Alice revela a Bill que o trairia se tivesse chance, essa dura 37 minutos, no qual, somos apresentados aos personagens primários e secundários, nos familiarizamos com a fotografia e com as cenas longas com poucos cortes, e claro, passamos a entender a historia, como o casal se comporta e como é a vida familiar para eles.

Logo após isso, o segundo polo são os acontecimentos acarretados pela revelação de Alice, aqui, o foco é em Bill, e essa parte dura 1h1, e mostra o doutor pensando no que poderia ter acontecido caso ela tivesse traído ele, como ele agiria, e ele descobrindo coisas sobre si mesmo que nunca sonharia em saber, e claro, é nessa parte que temos a sequencia marcante do filme, a da festa secreta na mansão, dessas uma hora e um minuto, aproximadamente vinte e cinco minutos são dedicados a festa em si, que é essencial para entendermos como Bill agiria caso Alice tivesse feito o que imaginou fazer e o que faria caso tivesse a oportunidade.

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O terceiro e ultimo polo é o fechamento do filme, onde os arcos dramáticos são todos concluidos, os mistérios são elucidados e onde as relações familiares tem um sério momento de esclarecimento. Essa parte tem o tempo de duração de cinquenta e cinco minutos, e conta com grandes cenas, quase sem cortes, assim como foi a da festa, que ocorreu no segundo ato.

Essas cenas quase sem cortes, são permeadas de duas coisas em relação a câmera, uma delas é a câmera parada, que predomina quando ocorrem diálogos entre o casal principal, ou quando ocorre um dialogo revelador demais por si só, e a segunda coisa é um travelling (movimento de câmera para os lados) que apresenta todo o ambiente para o espectador. Porém, o travelling aqui não é tão simples quanto apenas um movimento para os lados, aqui, o movimento de câmera citado é para trás, onde vemos sempre as ações ocorrendo como se elas já tivessem ocorrido, como se tudo tivesse acontecendo novamente, só que para nós, e claro, para o médico, tudo acontece pela primeira vez.

E tudo acontecer pela primeira vez é muito importante para o doutor Bill Harford, porque, unido a fotografia que cria uma atmosfera fantasmagórica e a montagem inventiva e quase inédita naquele momento do cinema, está que o medico nunca acaba de fazer o que está fazendo, as ações sempre ficam incompletas, sempre fica faltando algo, e isso se justifica pela atmosfera de sonho.

Atmosfera onírica essa que, mostra várias coisas que ocorrem na sociedade e que nos podemos ver facilmente usando apenas um olhar mais demorado e claro, vemos aqui os perigos do homem que é separado de seu habitat natural, e que sem saber quem é, percorre o desconhecido, tanto fisicamente, indo a lugares que ele nunca foi, tanto internamente, tendo atitudes que nunca teria, ou nunca pensou que teria.

Fora que, vemos um medo, vemos algo amedrontado que permeia aquele casal, essa coisa amedrontada é ligada as coisas comuns, que assim, é ligada a algo que poderia ter ficado oculto, que nesse caso é a historia contada por Alice, caso ela não tivesse contado o que pensou naquele momento, Bill nunca se conheceria, e não se conhecendo, nunca evoluiria como pai, como marido, como amante e como pessoa.

Levando tudo isso em consideração, percebemos como o desenvolvimento da história, concebido como foi, é importante, pois precisamos de tempo para conhecer os personagens, e nos adaptar para o universo ali apresentado, e dessa forma, poderemos realizar as leituras que Kubrick tanto desejava.

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Infelizmente, no momento de seu lançamento, que foi póstumo, o recebimento da obra pelo publico não foi bom, e imagino que caso vivo, Kubrick ficaria um tanto quanto entristecido, já que durante toda a sua carreira ele sempre quis fazer uma adaptação do livro “Um Breve Romance de Sonho”, que era um livro que ele gostava.

Logo, Kubrick nos deu uma obra que, como o próprio filme deixa bem claro, necessita de tempo para ser compreendida com a exatidão desejada pelo diretor, mas que, felizmente, caso fosse feita de forma diferente não seria o que é. Sendo assim, aproveitem o tempo para ver esse filme, que foi um dos melhores e mais interessantes que foram lançados no ano de 1999.


Victor Martins

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