identidade cinematográfica

Se descubra em cada filme

Victor Martins

Estudante de jornalismo, curioso e com vontade de ser critico de cinema. Cinema é uma paixão que fez eu me descobrir como pessoa. Também posto textos no assimfalouvictor.

Paisagem na Neblina é um prequel de Viagem a Citera?

Theo Angelopoulos ficou conhecido pela complexidade, por cenas longas e belos planos sequência. Em "Paisagem na Neblina" e "Viagem a Citera" são apresentados aspectos similares, que ligam essas duas grandes obras. Vemos nesses dois filmes a riqueza da obra de um diretor, que foi prolifico, objetivo e inteligente, em todas as suas obras.


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“Viagem a Citera” de Theo Angelopoulos é um filme lançado em 1984. A obra conta uma história de dois adultos, Alexandros e Voula, irmãos, que encontram o seu pai. Esse homem voltou a Grécia após muitos anos vivendo na União Soviética, sendo um ativista do comunismo.

Alexandros e Voula, irmãos, estão também presentes em “Paisagem na Neblina”, filme de 1988. Dirigido também por Angelopoulos, a projeção narra a busca dos dois, dessa vez crianças, quando eles embarcam em um trem destinado a Alemanha, país que a mãe deles disse que o pai estaria.

Seria então, “Paisagem na Neblina” um prequel de “Viagem a Citera”? Vários aspectos de “Viagem” confirmam isso. Escolho por dispor abaixo alguns deles.

Em primeiro lugar, a ligação que as histórias têm é nítida, enquanto “Viagem” mostra o fim de uma busca que, o filme como obra independente confirma que duraram anos, “Paisagem” mostra o começo dessa busca, usando a crença e a necessidade de duas crianças em encontrar o pai. Além de que, os nomes dos personagens principais se mantem os mesmos nos dois filmes, fazendo que o público faça essa ligação por si só, o que faz com que as duas obras funcionem de forma separada.

As cenas longas, com movimentos de câmera acompanhando os atores, tradicionais em toda a obra de Angelopoulos, são dispostas de maneira igual em alguns momentos dos dois filmes. A cena inicial de ambas as projeções deixa isso bem claro, as duas focam em crianças, utilizando um plano sequencia com o uso circular da câmera, no caso de “Paisagem”, o objetivo é mostrar as duas crianças, indo até a estação, percebemos que o caminho já foi feito várias vezes, e que eles estão adquirindo coragem para, um dia, entrar no trem. Em “Viagem” vemos Alexandros, mais novo do que no filme posterior, correndo no bairro onde vive, corrida que teria por fim a sua casa, mas, quando ele entra em casa, há um corte, e vemos o homem Alexandros. Logo, percebemos uma passagem de tempo, que indica que a época de busca chegou ao fim.

No filme de 1988, as crianças, terminam a projeção em frente a uma arvore, e na obra de 84, a mesma arvore é mostrada, dessa vez sem nenhuma folha, o que indica o fim de uma busca. E no fim de “Paisagem na Neblina” justamente mostrando os irmãos olhando a arvore, vemos que a neblina começa a se dissipar, o que era denso, longo e distante, passa a ser mais fino, claro e próximo, e essas são as mesmas características que vemos na neblina de “Viagem a Citera”. Logo, percebemos que no longa de 88, havia uma indicação do inicio do fim. E no de 84, quando os pais de Alexandros e Voula terminam o filme indo em direção a neblina, vimos o fim da historia daquela família, que durante todo o tempo lidou com a distancia.

Distancia que é exposta pelo afastamento da câmera em “Viagem a Citera”. Esse “isolamento” da câmera, mostra que não é mais possível construir uma relação familiar saudável entre pais e filhos, a busca por isso tornou a união deles em algo onírico. Em “Paisagem na Neblina” vemos uma ligação nesse movimento, mas, usando a aproximação, a câmera está sempre próxima dos irmãos, mostrando a esperança deles em resgatar a vida familiar e em ajudar sua mãe.

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E essa esperança perdida no filme de 84, é exposta pela secura nos atos dos irmãos, e pelas suas profissões, Voula é atriz, e Alexandros é roteirista, esse sentimento pode ter nascido de duas coisas. Uma é que ambas são ocupações que exigem a criatividade em seus ambientes, logo, eles usam sua criação para tentar expor para seu público a vida familiar que nunca tiveram. E a outra é que claramente Orestes, o jovem rapaz que os ajuda na projeção de 1988, influenciou os irmãos na escolha de seus ofícios. Orestes era um ator de um teatro de variedades itinerante, e claramente demonstra para as crianças seu amor pelo o que faz.

Amor que, os irmãos não demonstram ter em nenhum momento, nem pelo pai, nem por si próprios, e isso é mostrado pelo som, sempre seco, quase nunca presente e diegético em “Viagem a Citera”, o som comunica a falta de sentimento que foi embutida nos dois pela dureza da vida que levaram. Além do que, se, em “Paisagem na Neblina”, o som veicular dominante é dos trens, no filme de 84 o veiculo que está em voga é o barco. Escutamos frequentemente os sons dos dois veículos nos dois filmes, o que pode ser considerado como a vontade dos irmãos de ir embora dali, mas, para onde? Ninguém sabe, nem eles mesmos.

Logo, a cada veiculo indo embora, nos dois filmes, quer dizer a mesma coisa, que as chances de uma vida familiar bem construída é cada vez menor. Mesmo em cenas, no filme de 84, em que se encontram a família reunida, essa sensação de vazio gerada pelo som é dominante, até mesmo ditatorial.

Devido a esses aspectos, é que o filme de 1988, “Paisagem na Neblina” pode ser considerado um prequel da obra de 1984 “Viagem a Citera”. Mas, isso é só uma teoria, e sendo um pensamento correto ou não, uma coisa é certa, a obra de Theo Angelopoulos é altamente rica, simbólica, e sempre vai levar seu público a refletir, realizando estudos de personagens e sociedades, o que torna os filmes desse diretor um documento de sua época.


Victor Martins

Estudante de jornalismo, curioso e com vontade de ser critico de cinema. Cinema é uma paixão que fez eu me descobrir como pessoa. Também posto textos no assimfalouvictor..
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