imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

INVENÇÃO DE ORFEU-JORGE DE LIMA

A Invenção de Orfeu reflete a busca de uma linguagem própria e, a redescoberta da “persona”, a face perdida, dentro do tempo interior. Jorge de Lima, escritor brasileiro surrealista, recria Orfeu, questionando todo um processo de formação lingüístico. Regressa às raízes da infância, buscando nela todas as raízes de sua própria face pública, do seu verdadeiro “eu”. Há um período de tateios. A obra vai sendo aos poucos construída, através do desejo íntimo de ser


sao-luis-do-maranhao-12[1].jpg Pode-se encontrar na literatura um valor assertivo, quer na repleção, harmonizando-se com os valores conservadores da sociedade, quer na tensão, fazendo dela o instrumento de um combate de libertação. Ao inverso, pode-se conceder à literatura um valor essencialmente interrogativo. A literatura torna-se então, o signo e talvez o único signo possível dessa capacidade histórica na qual vivemos subjetivamente, admiravelmente servido por aquele sistema decepcionante que constitui o discurso literário. O escritor pode então, ao mesmo tempo engajar profundamente na obra na realidade objetiva, por meio de sua realidade vivencial, e interrogar essa mesma realidade. Mas suspende esse engajamento precisamente ali onde as doutrinas, partidos, grupos humanos e as culturas lhe sopram uma resposta. Qual o sentido do mundo, é a questão que se põe à literatura. Este não aponta apenas o mundo, apresenta-o ,depois busca um sentido para ele. Nessa procura a literatura atinge a verdade, e, ao mesmo tempo, revela a própria importância de responder às perguntas que o homem se fez sobre suas infelicidades, e o poder de fazer perguntas reais. Não é a literatura que vai libertar o mundo. Entretanto, nesse estado reduzido em que a história nos coloca hoje, existem várias maneiras de fazer literatura.

Invenção de Orfeu é um poema épico existencial escrito por Jorge de Lima em 1952, e através dele, o autor tenta reproduzir sua infância. Todas as fases de sua juventude estão presentes. Ao lado do tema da Infância, deparam-se-nos outros temas no discursos poético: o pecado, a queda, a carne, a Bem-Amada. A principal característica de Invenção de Orfeu, enquanto originalidade épica, é o contraste na narrativa, ou seja, o modo como ela é constituída por meio de oposições.

Na epopéia tradicional, temos o poeta narrador, a narração e as personagens. No poema épico de Jorge de Lima o que vamos encontrar, é o autor = a personagem = narração, confundindo-se dentro do enunciado. Logo, em qualquer poema épico tradicional, tomando seja a Ilíada, Eneida ou os Lusíadas, por exemplo, haverá sempre a presença do narrador e a narrativa do acontecimento, completamente distintos um do outro. Lima. Ao inventar Orfeu, evoca estas epopéias, para criar e superar, dentro dos moldes literários existentes, um destino diferente daqueles que as epopéias tradicionais lhe tinham legado. Contudo, sua epopéia é lírica. Nela, o narrador é o sujeito e o próprio objeto da narração. A epopéia se interioriza. A personagem épica monopoliza a narração. Também, enquanto forma, encontramos um contraste com a tradicional uniformidade de metro. Deparam-se-nos variações métricas nos versos.Outra característica inovadora é a própria variação do mito de Orfeu. Seu Orfeu, será novo. Tradicionalmente, na mitologia grega, Orfeu, o maior músico da antigüidade, tomou parte na expedição dos Argonautas. Quando tocava, até os animas selvagens se encantavam. Eurídice, sua esposa, mordida por uma serpente no dia do casamento, morreu, e Orfeu, desceu aos Infernos, para buscá-la. Ao inventar Orfeu, Lima reverte o seu papel tradicional, ou seja, em vez da descida aos Infernos, ele o faz subir do Inferno, ou escuridão, para o nível da VIDA, o solo. Por outro lado, enquanto Orfeu procura Eurídice, Jorge de Lima procura a MULHER. Esta analogia e este contraste vão definir Invenção de Orfeu, por diversos processos metalingüísticos. images[2].jpg Porém se não surgir o que sonhamos e os ninhos imortais forem vazios, há de haver pelos menos por ali os pássaros que nós idealizamos. (Canto I) XXVII


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