imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O SILÊNCIO QUENTE

Quem consegue ficar em silêncio absoluto tem um tempo somente seu. Nos dias agitados e hiperativos que vivemos, se não mergulharmos dentro de nós mesmo e passarmos algumas horas mais contemplativos, não seremos completos. o silêncio se torna quente e se debruça sobre o universo. As imagens e recordações fluem e sem mais nem menos, do nada, nos flagramos alegres e plenamente em silêncio.


sao-luis-do-maranhao-12[1].jpgMão com mão. Pé com pé. Joelhos. A rotação das horas caladas. Em relógios inventados. Este tempo físico é único e absoluto. Quando eu aprendi a voar, ninguém me viu agoniada e eu nunca voltei para o tempo anterior. Este estado de elevação é conseguido com a vontade de libertar-se, de seguir seu movimento interno. O tão vulgarizado sexo não conseguiu se perder no ar, no espírito, nem na sua emoção animal. Passei um tempo de aprendizagem que só me daria felicidade. Felicidade. Estado pleno do ser. Voo duplo de gaivotas."The amazing sunset" by Nadaninou - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons - http://commons.wikimedia.org/wiki/File:The_amazing_sunset.jpg#/media/File:The_amazing_sunset.jpg

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Quero mudar; mudar daqui, deste dia a dia quente e morno, sem ter um tesão maior fora meus gatos. Estou cheia de ficar ganhando ideias. Preciso ficar de cuca fresca para alguma coisa sair, ser produzida. Se você vai e acredita em você tudo vai sair de acordo. Eu, por exemplo, espelho-me na minha vontade. Meu ar sério e sereno. Mire-se em mim. Eu sou o que você escolheu para ler. Lambuze-se.

Duas horas por dia. Mais tempo que uma transa boa. Mas, que papo é esse? Estou me sentindo muito solitária. Acho que o fato de viajar está esquisito, porque ficou como uma névoa de fantasia. Tô numa briga cruel- ir e terminar o que daqui não levo ou levar o que de cá existe? É tudo uma chatice. Este calor pavoroso do verão de 2015 também é um pé no saco. Você não foi à praia, nem ao samba com os democráticos. Adoro este título...Chico canta e me fez espirrar, tirou a poeira do momento e me fez voar até seus braços, suas mãos...suas mãos, meu deus, só suas. Este tempo tem que cataventar, dar um chute na nostalgia e nos involuntários momentos caretas, certinhos, preocupadinhos. Eita! quanta performance. Foram dias de horror. Muito calor, sonhos ruins e a cama rodou com meu corpo, pra frente, pra trás, sem encontrar a posição certa. Queria uma composição só pra mim. Vou morrer querendo. Próximo fim de semana vou para Maricá. Sozinha. Acho que saio numa sexta e volto domingo. Preciso começar a me acostumar. Flores, flores florzitas machitas. Um jardim pra cuidar, algumas galinhas, meus gatinhos. Aí vou pintar tudo do meu jeito.

Transformações

Duram a vida inteira. O que fazer do meu tempo vazio? Brincar com meus gatos. Escrever contos. A porta pro sucesso. A linha torta, de azar, sobe a saia e não ventila tanto quanto eu queria. Fiz vários bonecos de pano, só que ficaram feios. Eu me lembro que era uma etapa de transformação e visceralmente eu me inventei. Outra mulher amarga e triste avançou a epiderme e se incorporou. Tudo isso, não é nada, se não fosse aos poucos. Tenho tão baixa autoestima e uma estúpida agressividade que não consegui por pra fora. Adoeci. Acho que passei mais tempo doente do que não doente neste ridículo tempo em que somos colocados à luz. As noites eram mais amedrontadoras. Aí aprendi a gostar do som do silêncio. Que seria meu companheiro pela eternidade. Com a morte em vista, escrevi muito.


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