imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

prato do dia

Ao passar por uma crise de mudança, Lilith em meio a um redemoinho de movimentos, toma consciência de sua realidade solitária e estéril.A força inconsciente quando vem à tona derruba nossos medos, previsões e prisões cotidianas. É preciso estar atento a si mesmo para saber sair de qualquer situação da vida que lhe esteja sufocando, espremendo, matando em silêncio sem que se tenha consciência de que há sempre uma saída para a vida.


Uma e meia da tarde e Lilith se sentiu presa pelo desespero das horas. Tudo parecia ter paralisado em sua mente e passou a contar cada minuto como se pudesse controlar o tempo.

De repente já não ajustava seu corpo à cadeira rotativa e sua mente fugia para tempos remotos onde ainda era inteira, e não fragmentos de uma mulher.

As memórias vinham voando, delirantes, como em um gozo voador. Não se permitiu mais reprimir sua consciência e as luzes se espalhavam no ambiente seco e vazio.

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As adversidades existem e Lilith as conhecia tão bem como o prato do dia. Já havia experimentado viver de esmolas, escutar e calar, sorrir e dizer obrigada a pulso. Sua vida a cada fim de ano passava à sua revelia.

Mas, qual seria o prato do dia? Ao entrar no velho restaurante os cheiros eram os mesmos, uma gordura que grudava nas narinas, a voz dos garçons, o barulho das cadeiras entre vozes dissonantes das pessoas. Conhecia aquele pedaço do dia de olhos fechados. O prato do dia já devia estar morno e o nome era indigesto: Carne Assada com Coradas. Sentiu um repulsa violenta e apesar de seu20150426_075210.jpg ticket refeição ser R$20,00 rasgou em picadinhos. Eram quinze anos de prato do dia. Eram pois, mais de sete mil pratos do dia e quase oito e trinta mil dias de sua pouca vida. Sua mente passou a voar em uma velocidade atípica que lhe conduziu ao escritório vazio. Lilith juntou alguns pertences na bolsa e numa fração de segundos deixou uma mensagem de demissão: LICENÇA PARA VIVER


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