imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

entre nós, a sombra

Ao andar e ver partes da cidade, eu sempre mudei o nome, o rosto, a língua.. Ninguém me via, pensava eu, sempre andando...Então me é igual.. Eu ando. As caras atravessam em fileira por um caminho que nem eu mesma soube traçar. Este re-encontro de mim comigo mesma se dá pela ousadia..


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Enquanto não faço nada, penso em criar. O ocupar-se em si é fazer algo para fora. Escrevo vivendo a situação inusitada e solitária dos amantes. Há sempre uma porta para se abrir, na mágica. O corpo dormente, sem vida, é um corpo doente. É sempre do momento da energia que o espiritual acorda. Tenho feito uma poesia que não é de pó, nem de dia. É uma poesia de iras passadas, eu diria, Poesia prosa Agonia. Encontro-me em pleno tesão quando os outros me dizem que já passaram dessa fase. Eu não passei. Eu quero mais. Ouso viver. Quero contudo, um sentido mais pleno, menos seco, menos dolorido. É deste encontro consigo mesmo, que nasce o outro. As horas vagam vazias entre a ideia e o medo. Não sei de que lado começo.. Rio dos meus pensamentos e me silencio. Não há ninguém, aqui agora. Agora é o nada. Agora eu es-curo. Penso a luz. .Penso a ternura Sinto que estou longe desta luz. Você não me deixou saída. É como se tivesse me matado também. Eu voei, tempo e espaço sem limites. Completely off limits só assim te matei, substância imunda e grotesca. Lembrança má. O olho cansado se abre e busca. Mesmo sem ver o que busca exatamente. Mas, busca. O etéreo do ar, o oxigênio, no silêncio total de almas. Não há muito ânimo. Aqui tudo é seco agora. Um dia, suava por você Daqui a pouco teria seu carinho, suas mãos. Isso me fazia caminhar sem questionar nada. É tolo. É feio, o que você fez com todos, é horror. Já que não posso falar-te, te digo que não venhas mais me visitar pelas manhãs, pois isto me irrita muito. Suma de vez. Brinco com o sossego. Acho que consegui finalmente um passo adiante da morte. Não tenho me preocupado muito com este estado. Mas me parece que está longo. Será que dá para confiar? 60 ecoam na orelha. 60, não são 50..e a morte apenas está mais perto. Enjoy life. Be fairly good to yourself.

A queda

Fui caindo aos poucos. Você ajudou a empurrar. Foi duro comigo. Inflexível e mesmo neutro. Às vezes, tenho a impressão que a marca foi essa: eu tentei voltar com você e continuarmos juntos. Depois concedi espaço à amizade. Tardes infindas de calor e você zombando de mim. Atrás da vida, os livros te entretendo. Não a mim. Sei que os sinais são de outro tempo e você nem cogita em me namorar. Você veio pela comida, pelo que é de graça para não desesperar sem calmantes. Somente por isso. É sempre tudo tão óbvio, tão duro. Parece castigo. E assim eu percebo a agonia que não me pertence mais e a estúpida vontade de falar mais alto, de andar mais calma, de ter prazer com a vida sem envelhecer depressa e sem tempo para mim. Dias de sol e céu azul. Simples vista e lugar comum. Sol é tão corriqueiro nas imagens, sinônimo de alegria, vivacidade usado e abusado. O sol aquece. Carteirinha, carro/ feliz por saber-me inteira sem pedir nada a ninguém Não sei se foi você, ou eu projeto a minha doçura e não vejo a minha doçura? Estou cheia de ser usada. É como se tudo fosse resumidamente o outro. Quero o vestido que não me dei. Quero o néctar. Quero respirar (não esperam) não sei quem espera. esperanza porque eu ouço? Esperanza ouço no todo desigual...é o que vejo nos olhos destas pessoas, é o que eu salto de mim e me flagro cheia de esperanza..falta um vestido. Que carteirinha! No Largo do Machado.

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Estou sozinha dentro do vapor do verão. Sopraram-me você, homem bicho e eu tenho ido na sua carona. Pleno, suave e parece um urso. Eu sou uma menina em suas mãos. Brincar de sexo é um bálsamo para mim....Lá vem ele com sua camisa branca e seu olhar magnético. O que considero expressar-me ressalta a dificuldade de lhe dizer exatamente o que quero. Quero lhe contar o quanto tenho medo de não vê-lo mais, o quanto sou frágil, sentimental, macumbeira e dispersa.. Mas ao ouvir sua voz, eu calo. Ao sabor do vento, me encontro completamente no deserto de almas. Não queria virar as costas, mas você me obrigou a não sair, a te esperar por dias a fio e não reclamar. Sempre que Tim chega em casa, a porta abre sem muito ruído. Talvez só o de sua respiração e depois aí me dizem que ele é estranho.. Eu sou estranha até a mim mesma porque atravesso uma solidão infinita e sempre sobrevivi a esta solidão, a este momento. E aquele dia em que você passou o dia me buscando e por pouco não nos desintegramos no cosmos? Ele não sabia ainda de nós. Ninguém sabia de minha paixão. Ninguém sabia de minha mais cristalina e exata solidão. Ao andar e ver partes da cidade, eu sempre mudei o nome, o rosto, a língua.. Ninguém me via, pensava eu, sempre andando...Então me é igual.. Eu ando. As caras atravessam em fileira por um caminho que nem eu mesma soube traçar. Este re-encontro de mim comigo mesma se dá pela ousadia..

Não quero mais sentir que o ar não corresponde aos meus pulmões. Quero tão somente senti-lo atravessando. As mãos tímidas. Estou com o estômago meio vazio. Mas, ao mesmo tempo, acho que busco razões para anular o amor que estou sentindo e muito por ele. Eu não quero perder este sentimento. Aí parece que meu estômago se tornou um poço de feelings de hoje com Cuba. E não adianta forçar. Só sei que ainda cederia ao outro homem e este homem é quem me ama. Há remédio? Não. O único jeito para sair dessa é curtir o domingo. E todas as vezes que estou, você já entrou na minha palavra e no meu romance. Não quero intromissões nem palpite. Ficaria feliz se mais do que tudo fosse eu a única na sua vida e ocupar todo o seu corpo, como uma serpente rosada.. Ou quem sabe, uma pantera, conforme você disse tão bem. E mesmo que eu pudesse não sei mais sofrer tanto. Aí não quero nem pensar em dor. Daí o sal é bom, o sal e água salgada com suas vibrações dentro do meu estômigado-coração. Mudo de lugar e vejo-me com aquele mesmo vestido rosa- eu já sem medo do mundo. Ligada mesmo na sua veia, no seu cheiro de macho. A maioria dos sintomas nós produzimos. Se eu quiser mesmo, preciso me soltar para o amor encontrar seu cantinho dentro de mim. Não é pensando sobre. O que há já está. E logo quando eu te vir de novo, saberei que valeu a pena te esperar... Que valeu a pena esquecer-se de trabalhar por horas e não querer sair do meu daydream. It´s just the very thought of you, my love.... E se eu morrer e minhas cinzas desaparecerem eu saberei que um dia amei muito e que não foi nada em vão porque alguém me amou muito e me fez ser generosa, ser inteira, ser sincera, mesmo que os outros não tenham sido tanto assim, ou nada assim..


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