imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O Retorno

Quem nunca sentiu vontade de pular fora? Angélica tinha todo direito de ser se não estivesse tão presa ao momento em que não sentia mais nada, senão o gosto do vinho e seu retorno à sua mais extravagante viagem no tempo.


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Temia suas lembranças e as passagens para outros universos congelados pelo tempo. Mas o que Angélica realmente temia estava dentro dela, quando nos domingos frios não tinha mais vontade de viver. Não tinha mais vontade. E a hipótese de morrer era tão real como estar sentada naquela mesma cadeira da cozinha, beliscando um biscoito que era o máximo que podia fazer em horas do lobo.

Tinha muito cuidado para não macular alguma imagem que lhe viesse ao pensamento a mil. Tinha saudade de sua coragem para aventurar-se a lugares muito inusitados como viver no meio da floresta em pleno verão norte-americano. Essa conquista lhe dava a certeza de que amava o desconhecido, o avassalador mundo com um espaço maior, falas embutidas em outro encontro amoroso. E suas mãos se mexiam, suas pernas dançaram e seu riso jamais havia sido tão apaixonado ao se ver à noite caminhando sob o prateado brilho lunar. Seu amante lhe guiava e não precisavam falar porque as árvores eram maiores e se mexiam, espalhando em Angélica outra ideia da vida. Era a sua sombra, antes reprimida por tarefas e mais tarefas. Ela tinha vendido tudo, casa, móveis, carro e essa atitude foi apenas o começo de um novo ciclo: o tempo de viver.

Um tempo. Um verão. Um retorno. Saiu de casa, descobriu o universo que tanto desejava. Viveu sem nada tecnológico. Transcendeu do útero para tornar-se do seu tamanho. Não saberia explicar como à noite, as estrelas eram de verdade, assim como seu gemidos que a noite colhia.


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