imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

SE-PARAR

Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas – eis o que se deve saber alcançar.
Estar sozinho como se estava quando criança,
enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que
pareciam importantes e grandes.
O eu-poético não é apenas duração permanente
ou subsistência indefi nida mas se conquista como individualidade
quando se concentra e se volta para si mesmo.


061.jpg Solitário, o poeta vive um clima de tensão que nem ele mesmo compreende, apenas se envolve e se entrega para esta individualidade antes espalhada em muitos lugares, imagens e diferentes objetos armazenados em seu inconsciente. Daí sentir necessidade vital de expressão, como se todo este material eclodisse, viesse subitamente à consciência até como num alívio suado, ele construir este sentimento desconhecido, como na canção “Rita” (1967) onde a queixa do artista é o abandono da anima e todos os objetos que percorreram sua relação feliz junto a ela. Ele projeta na anima a razão do seu desgosto e a causa de seus tormentos, pois “a Rita matou nosso amor de vingança/nem herança deixou/não levou um tostão porque eu não tinha não/ mas causou perdas e danos/levou os meus planos/meus pobres enganos/os meus vinte anos o meu coração/e além de tudo/me deixou mudo um violão.>061.jpg

Tânatos: o poeta se vê diante do tânatos, i.e. a morte que vive nele ancestralmente e para afi rmar-se como ser vivo e simbólico ele enfrenta este misterioso caminho no qual foi colocado reticente e carente. Esta busca incessante por construir-se como um ser simbólico dentro da natureza faz do ser transcendente. Ao transcender, o ser humano é sujeito de si mesmo. É algo que brota dentro dele, talvez já preexistente, mas não satisfeito, não saboreado, ou exorcizado. A esta inspiração pode-se chamar “deus/divindade”. Contudo, o certo é que o poeta traduz o sentimento humano por uma sensibilidade quase insuportável se não puder expressá-la. A repetição impede a poesia lírica de desfazer-se; a repetição mais comum é o compasso: repetição de idênticas unidades de tempo. A satisfação do eupoético por seu reencontro através do compasso é tanto mais completa quanto a unidade e a uniformidade não dependam do tempo cronológico, nem dos próprios sons e possam pertencer ao próprio eu. Aí está o momento da criação mítica, até acompanhar o primeiro sentido da vida através da construção artística, no caso, literária e poética. Quanto mais lírica a poesia, mais evita-se uma repetição neutra de compassos, para não aproximar-se da prosa, mas em favor de um ritmo que varia de acordo com a disposição anímica. Faz algazarra a malta em meu castelo Pálidos economistas pedem calma Conduzo tua lisa mão Por uma escada espiral E no alto da torre exibo-te o varal Onde balança ao léu minh’alma (Buarque, Iracema Voou, 1998)


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