imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

A JORNADA DO HERÓI BUARQUIANO

O herói buarquiano é um herói particularmente
censurado e vamos encontrar várias instâncias no todo
da obra onde ele reclama baixinho, fala por metáforas,
zomba, ironiza, briga, queima navios, mas não queima
a esperança nem o valor do que acredita.


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O herói sempre perde e se redime porque ele sabe que luta, sabe que o seu eu-simbólico quer transcender as banalidade e lutar contra o mal. O que o herói quer é desestruturar o que não faz sentido, para começar uma nova estrutura que tenha significado. Para isto, o herói está presente no Pedro, pedreiro, que desde o começo espera o trem/ que já vem/ e não perde a esperança porque o trem é o símbolo do seu desejo. Para o bem de quem tem/ de quem não tem vintém/ O nosso herói buarquiano espera o dia de voltar pro Norte. Esta é sua esperança. Pedro simboliza o nordestino que emigra do nordeste para o Sul não tão promissor como pensara mas que, em momentos tão ruins, se torna uma saída para vencer a morte. A outra esperança de Pedro é no fundo/ espera alguma coisa mais linda que o mundo/ maior do que o mar. Esta terceira esperança heróica é a divindade interna que ele sente expressar-se em seu sentimento de liberdade e de vitória sobre os males que lhe desesperam todo o dia.

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Pedro se constrói e des-contrói através da evolução dos poemas. Ao denunciar a fome, tortura, dor, injustiça, separações, exílio, censura, calar-se, o herói está questionando ao mesmo tempo qual é o caminho a seguir, o que é que lhe anima e lhe faz crer, quem ele deve afastar de si para que invente seu próprio trajeto, seja dono de sua idéia, morra do seu próprio pecado, enfi m dê forma e vida ao sujeito eu e à sua história que só a ele pertence e só poderá merecer-se se deixar fluir seu inconsciente. O Pai do herói deixou-o sozinho. Esta terra não tem pai e quando tem está constelado na figura do Mal que assusta, afugenta e mata. É uma desordem repressora porque é arbitrária, não dá espaço para o ser crescer em liberdade, amor e, como expresso em várias letras, há o desconhecimento deste amor.

Daí, a busca incessante, daí a volta ao passado como um ponto nostálgico onde o herói havia sido feliz. A ditadura opressora o leva a lutar com mais força contra o mal que o afl ige. Pedro é o construtor que cai/ morre/ atrapalha o tráfego em pleno sábado. O autor nos mostra a perplexidade da vida. As polaridades da letra de “Construção” são sábias em sua rima, porque as palavras se contrapõem durante a queda/ em um ritmo de queda e de morte. Tudo é último/ único. O construtor é príncipe/ Ele sobe na construção como se fosse sólido (ele ou a construção?) Será a vida uma construção? É sólida? Chico Buarque passa tão perto esta idéia de vida, morte e renascimento que nos deixa gravado o perigo da queda, ou seja, assim como o herói, nós também somos vulneráveis a quedas mortais. Nós também somos heróis que desde o nascimento lutamos para sermos interior e protegermo-nos da maldade. Mais ainda, subiu a construção como se fosse máquina/ Ergueu no patamar quatro paredes sólidas/ Tijolo com tijolo num desenho mágico/ seus olhos embotados de cimento e lágrima/ nos faz ver o belo, a aesthesis da obra.

Há uma lógica dos signos que se mostra aparentemente edifi cada pela superposição da palavra, como se estes signos escolhidos fossem os tijolos da construção. Para a nossa surpresa a letra não se desmorona. Ela se mantém tão fi rme como a alma do operário que fl utuou no ar como se fosse um príncipe/ e se acabou no chão como um pacote bêbado. A oposição dos signos em cadeia sintagmática nos orienta para uma leitura tensa e amarrada que não nos permite escapar: emociona. Tanto em “Construção”, como em “Deus lhe Pague”, o autor redime o herói, o faz mais belo, mais envolvente/ por esse pão pra comer/ por esse chão pra dormir/ a certidão pra nascer/ e a concessão pra sorrir/ por me deixar respirar/ por me deixar existir/ deus lhe pague. Que Deus? Nosso Self nos perdoará. Nós só poderemos nos redimir de tanto ódio, fúria e desespero se acreditarmos que o herói tropeçou no céu como se fosse um bêbado. Esta é a imagem mais sublime onde o autor une céu e terra, junta os pedaços e confunde os campos semânticos com o propósito de tocar fundo em nossas almas acimentadas.

É inevitável a queda “na contramão como se fosse um pássaro/ atrapalhando o sábado, porque a queda do herói está sendo na contramão do tempo e logo no sábado, dia de Saturno, deus do Tempo. Signifi ca uma ressurreição. É a tentativa de uma nova vida. É a morte simbólica pela qual passamos todos os dias. O herói de “Construção” resume sua vida no ritmo do nada. Dançou e gargalhou como se ouvisse música. Beijou sua mulher como se fosse a única/ e a cada fi lho como se fosse o pródigo/ O herói está vivo, mesmo depois da queda. Ele é símbolo da luta pela vida. E este símbolo não morre enquanto houver vida in nillo tempore. O herói segue com outros humores sua trajetória e se apresenta em “Partido Alto” (1972) rindo da sua trajetória, cantando, seu destino de modo jocoso, admirável diálogo com seu deus/ que deu/ que é seu self. Deus é um cara gozador/ adora brincadeira/ pois pra me jogar no mundo/ tinha um mundo inteiro/ mas achou engraçado me botar cabreiro/ na barriga da miséria/ eu nasci (brasileiro)/ eu sou do Rio de Janeiro. “Deus é revelável pelo homem”, ou “a consciência do homem se transforma e se amplia pela discussão com Deus” (...) Os conteúdos arquetípicos que surgem do inconsciente têm um valor emocional, uma numinosidade que não deve ser perdida, mas que deve ser constantemente trazido de novo à memória. Só então a realidade da psique revela a sua profundidade. O percurso do herói dentro do discurso buarquiano pode ser compreendido em três momentos que se entrelaçam: a nostalgia de um universo antigo, lírico e provinciano, a violência do cotidiano da metrópole e a grande esperança de um futuro com justiça e paz. No primeiro momento o herói se manifesta nostálgico. Junto à minha rua havia um bosque/ que um muro alto proibia/ lá todo balão caía/ Toda maçã nascia/ e o dono do bosque nem via/ Do lado de lá tanta aventura/ E eu a espreitar na noite escura/ a dedilhar esta modinha/ A felicidade/ morava tão vizinha que de tolo/ Até pensei que fosse minha. A constelação do arquétipo do herói sempre se dá, quando em seu desenvolvimento o ser humano arrisca- se, sai do conhecido, da manutenção do estabelecido e da homeostase relacional. O herói traz em si a realização dos desejos e idealizações do ser humano. O segundo momento retrata a violência da cidade com seus inúmeros obstáculos socioeconômicos.

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Encontramos “O Meu Guri” (1981) em que o eu-poético descreve o herói que experimenta o sofrimento da criança abandonada e desamparada, que sobrevive à fome, à falta de pai, de teto, de família: Quando seu moço nasceu meu rebento Não era o momento dele rebentar Já foi nascendo com cara de fome E eu não tinha nem nome pra lhe dar Como fui levando, não sei lhe explicar Fui assim levando ele a me levar E na sua meninice ele um dia me disse Que chegava lá Olha aí Olha aí Olha aí, o meu guri olha aí

Mais adiante, o herói tem a consciência de sua missão predestinada e segue apesar das adversidades que se revelam no próprio medo e desânimo e o fazem submergir às profundezas da psique que sofre: A Minha tristeza não é feita de angústias/ a minha surpresa/ A minha surpresa é só feita de fatos/ de sangue nos olhos e lama nos sapatos/ Minha fortaleza/ minha fortaleza é de um silêncio infame/ Bastando a si mesma, retendo o derrame/ A minha represa. Mas a vitória só pode ser definitiva para o herói depois de superar seu próprio perigo, depois de aniquilar o monstro em si mesmo. (Diel, 1991: 182) No terceiro momento, o herói enfrenta o monstro dentro de si mesmo, quer morrer do seu próprio pecado, mas realizar seu ideal, ter sua identidade, poder falar sua verdade, ser sujeito de sua vida. É então, que pede como Cristo, citando o Novo Testamento “Pai, afasta de mim este cálice/ de vinho tinto de sangue/ Como beber dessa bebida amarga/ tragar a dor/ engolir a labuta/ Mesmo calada a boca resta o peito/ Silêncio na cidade não se escuta/

De que me vale ser filho da santa Melhor seria ser fi lho da outra Outra realidade menos morta Tanta mentira, tanta força bruta. Como é difícil acordar calado Se na calada da noite eu me dano Quero lançar um grito desumano Que é uma maneira de ser escutado Esse silêncio todo me atordoa Atordoado eu permaneço atento Na arquibancada pra a qualquer momento Ver emergir o monstro da lagoa O símbolo “monstro devastando um país” é freqüente, tipifi cando o reinado nefasto de um rei pervertido, tirânico e fraco. É esta situação que coloca um país em desordem, jogando-o na perversão monstruosa. (Diel, 1991:86) O herói nasce de uma gestação e gravidez carregadas. Seu nascimento tem de se realizar em lugar secreto, ou ele deve ser morto ou exposto. “Quando eu nasci veio um anjo safado/ um chato de um Querubim/ que decretou que eu estava predestinado/ a ser todo ruim/ já de partida/ minha mula empacou/ mas vou até o fim/ O herói geralmente experimenta o sofrimento desde criança abandonada cuja natureza a princípio não é reconhecida. Tem mestres excelentes que o auxiliam em suas habilidades e conhecimentos. Adquire suas armas pessoais, quase sempre de procedência especial. A ocorrência universal e a semelhança dos motivos míticos do herói remontam ao fato de que o herói substitui o ser humano exemplar, que se esforça por uma renovação social, pelo domínio criativo da vida e pela ampliação da consciência. (Müller, 1990: 17) E do amor gritou-se o escândalo Do medo criou-se o trágico No rosto pintou-se o pálido E não rolou uma lágrima Nem uma lástima Pra socorrer. (...) Pois transbordando de fl ores A calma dos lagos zangou-se A rosa-dos-ventos danou-se O leito dos rios fartou-se E inundou de água doce A amargura do mar. Numa enchente amazônica Numa explosão atlântica E a multidão vendo em pânico E a multidão vendo atônita Ainda que tarde O seu despertar. (p. 90)

Outras características da resistência do herói estão simbolizadas quando o autor canta o amor e o carnaval para através do discurso amoroso e do deslocamento de sentidos falar do silêncio como resistência. Vai passar/ nesta avenida/ um samba popular/ cada paralelepípedo/ Da velha cidade/ Essa noite vai/ se arrepiar/ Ao lembrar/ que aqui passaram sambas imortais/ Que aqui sangraram pelos nossos pés/ Que sambaram os nossos ancestrais. Chico Buarque compõe a relação com os símbolos através da elaboração de diferentes formas de espetáculo musical, como em “Ópera do Malandro” (1976), refere-se a fatos históricos do passado reinterpretados e metaforizados, canta lendas nacionais (Cobra de Vidro) contos infantis (João e Maria), canta em outras línguas: em espanhol (Cuba), em italiano e francês (exílio) em português de Portugal (Revolução de Abril de 1975) (Orlandi, 1987: 123)

O que nos atrai é o drama do herói como um exemplo simbólico de percursos que se repetem constantemente dentro de uma peregrinação e de uma procura ininterrupta, na qual não há uma meta defi nitiva e faz parte do processo de individuação e da vida criativa. Eu queria estar na festa pá Com a tua gente E colher pessoalmente Uma fl or do teu jardim

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Sei que há léguas a nos separar Tanto mar, tanto mar Sei também quanto é preciso, pá Navegar, navegar Agora eu era o herói A canção escolhida como tema deste mergulho na palavra lírica de Chico Buarque se deve ao seu caráter mítico: é no conto de fadas, João e Maria, em que o autor fundamenta sua poesia-conto. Ao lembrar de João e Maria temos a chave do enigma. João e Maria eram órfãos de mãe. O pai, aconselhado pela madrasta, os expulsa de casa porque não há mais comida. As crianças caminham sozinhas na fl oresta até fi carem presos por uma bruxa que os engorda para a matança. Contudo, tanto João quanto Maria ao se verem em perigo armam uma situação imaginada e jogam a bruxa no caldeirão. Como voltam à casa? (país, cidade) pelo caminho que João deixou marcado com pedrinhas que escondeu nos bolsos, porque na primeira tentativa de fuga havia deixado migalhas que os pombos comeram. Ao voltarem, o pai arruinado e arrependido os recebe, pede perdão e são eles os heróis do conto. Ora, o que este conto tão simbolizado pelo heroísmo e pela coragem tem a ver com a letra de Chico Buarque?

Primeiramente, a conexão ilógica do tempo verbal nos remete a qualquer tempo, uma vez que nosso tempo psicológico não obedece as regras gramaticais – Agora eu era herói entrelaça o agora, o imperfeito “era” porque nunca foi, ou seja, nunca acabou nem se esgota. Por outro lado, todo conto de fada começa com a frase Era uma vez... este referencial literário fi ca mais enfatizado com o advérbio de tempo: agora. Agora eu era. Dá logo a impressão de que esta ação não terminou, uma vez que ao contá-la e recontá-la temos sempre uma nova identifi cação, seja como um sonho, um mito, uma realidade difícil de conquistar, um futuro já vivido na imaginação e que pede para ser vivido aqui onde o herói se aventura, ama, brinca, representa consolo e esperança, nas quais nos agarramos em todos os momentos mais difíceis. Ao mesmo tempo João e Maria servem de modelo, porque revelam-se com virtudes e valores que nós tanto idealizamos e desejamos. Agora eu era o herói E meu cavalo só falava inglês A noiva do cowboy Era você Além das outras três Eu enfrentava os batalhões Os alemães e seus canhões Guardava o meu bodoque E ensaiava um rock Para as matinês cowboy-cavalo-wallpaper[1].jpg

Agora eu era o rei Era o bedel e era também juiz E pela minha lei A gente era obrigada a ser feliz E você era a princesa Que eu fi z coroar E era tão linda de se admirar Que andava nua pelo meu país Não, não fuja não Finja que agora eu era o seu brinquedo Eu era o seu pião O seu bicho preferido Vem me dê a mão A gente agora já não tinha medo No tempo da maldade Acho que a gente nem tinha nascido Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim pra lá deste quintal Era uma noite que não tem mais fi m Pois você sumiu no mundo sem me avisar E agora eu era um louco a perguntar O que é que a vida vai fazer de mim

O principal caminho para que restauremos fi guras heróicas que nos possibilitem a libertação de nossos dramas pessoais, confl itos paralisantes, e que nos impulsionem a descobrir o que é desconhecido em nós, é nos voltarmos para o nosso mundo interior, pois aí encontraremos estes heróis. Na expressão simbólica do herói está o caminho para a transformação e a vivência da morte e do renascimento. O arquétipo do herói sempre desce às profundezas escuras, aos infernos, aos reinos dos mortos para de lá retornar com novos valores em sua vida. Agora eu era o herói E meu cavalo só falava inglês A noiva do cowboy Era você Além das outras três Eu enfrentava os batalhões Os alemães e seus canhões Guardava o meu bodoque E ensaiava um rock Para as matinês “O cavalo representa os desejos impetuosos porque é o animal que serve de montaria ao homem, do mesmo modo que os desejos exaltáveis, servem de suporte biológico, fundamento da animalidade do ser espiritualizado encarnado pelo homem. Assim como doma e dirige o cavalo, o homem deve poder domar seus desejos”. (Diel, 991: 88)

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Esse herói humano se veste de cowboy, enfrenta os alemães e seus canhões e ensaia o rock para as matinês. Ora, como nos mitos, o ponto culminante do conto é quando o herói perde sua amada “pois você fugiu no mundo sem me avisar” e segue sozinho, pois esta é sua missão. Esta condição de herói é predestinada por uma infância miraculosa que leva o princípio divino imanente a tornar-se carne no mundo, perder-se na vida para só então, representar, com a solução das lutas, o trabalho de realização do destino. “O que é que a vida vai fazer de mim?” Assim o herói se prepara para cumprir sua jornada que se compõe dos estágios de separação, iniciação e retorno e reintegração à sociedade. Quando o herói realiza a façanha de regenerar o mundo, ele será o herói do mito, o herói universal. A luta do herói não cessa e este arquétipo simboliza o fascínio que o atrai a continuar envolto na inconsciência em oposição ao chamado para iluminar e ampliar o campo de consciência. É o arquétipo do herói guerreiro que melhor defi ne nossa cultura, onde o bem triunfará contra o mal se lutarmos corajosamente por um mundo melhor, reafi rmando nossa força enquanto poder físico, psicológico, intelectual e espiritual.


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