imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

EFÊMEROS, MAS NÃO ENFERMOS

Não tinha mais ideia do que era viver e todos os dias se sentia mais enferma dentro de si. Será que a saída é pela janela, ou a janela se abre para o tempo de ser?


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Em tom de quem não quer nada, ela , a menina da janela, trocou uma ideia com Michel, seu vizinho, acerca do tempo, da vida e da sua vontade de morrer.ela não tinha mais vontade de viver. Vivian, seu nome. As pegadas dos animais à noite lhe deixavam um tanto nervosa. Não sabia se a energia felina lhe deixava assim, ávida por vida, seca e fria, como a cama. Resolveu filosofar sobre esta dura pergunta: por que não morro logo?

Michel, perguntou se queria ir para o apartamento dele, já que pelo menos lá, ela se sentiria menos volúvel ao peso de viver. Vivian tinha um sorriso de mulher sem véu e já não era mais tão jovem. Já nos 48 anos, era sabido que toda a cultura ia passar a considerar suas primeira rugas. Não era por menos, que sentia os seios entumecidos e pedintes. Cada sombra de sua pessoa, era um sinal de que todo seu cruso de filosofia estava certíssimo: somos efêmeros. Estamos aqui de passagem dentro de nossa fragilidade atemporal. Finitos. The end. Como em Casablanca, tem momentos na vida, que não escolhemos a paixão. e ela tinha raiva daquele final. Já que era para ser tudo passageiro que ficasse com o pianista apaixonado. Fake! todo mundo se torna muito fake com o tempo e aas infelicidades cotidianas. ela teria dado outro fim à Casablanca. Mas, quem é ela pra meter o bedelho, num clássico do cinema. Era doida por filmes. Era doida por uma garrafa de vinho tinto, mas que não fosse nacional.

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De gole em gole, foi descobrindo-se e seu riso, antes encolhido e seco, ficou largo. Michel lhe beijou sete vezes e transaram a noite toda. Efêmeros, mas não enfermos, pensou em voz alta. Ele olhou para Vivan e lhe abraçou bem forte, como seu primeiro namorado. Nada mais emocionante do que sentir aquele calor apaixonado. Nem Platão saberia dizer. Ou saberia? E Kant com sua temporalidade? Não poderia continuar seguindo a voz da existência. Ela tinha que destruir todos os paradigmas que lhe tornaram tão razão e menos afeto. O dia parecia chuvoso. Tomou um gole de café e voltou para o calor de Michel. Efêmeros, mas não enfermos.


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