imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

FLORBELA ESPANCA: UMA ALMA EM FOGO

Florbela Espanca expressa em sua poesia, o inconsciente estruturado como uma linguagem. O discurso consciente é lacunar, ou seja, em certos pontos particularmente marcados, no lapso, no trocadilho, por exemplo, esse discurso parece dilacerar-se, perder sua lógica linear e obedecer a alguma loucura. Isto é bem percebido no sonho que aparentemente não tem nenhum sentido. O discurso, a atividade da imaginação, deixam penetrar sob uma forma velada e censurada, como no discurso poético, o verdadeiro discurso: “o inconsciente”.


Florbela%20Espanca[1].jpgA literatura é universal na sua singularidade, já que questiona, ao longo dos séculos, o mundo: qual é o sentido da existência? Desta forma, ao fechar-se dentro de si próprio, o poeta se torna o caráter mediador do próprio mundo que cria. Assim, de decepção em decepção, a literatura representa, como uma eterna interrogação, essas decepções da voz poética. Fui ao encontro de Florbela Espanca com “ Sonetos” para uma análise estrutural do seu discurso poético. Florbela, poeta portuguesa, do início do século XX, personagem principal da história que quase sempre anseia, sofre, desespera, raramente sentindo felicidade em torno do seu Eu.Florbela viveu 36 anos ( 1894/1930)e passa pelo parnasianismo ao realismo. Morreu seis meses depois da perda trágica de seu irmão. Florbela viveu intensamente a volúpia de um corpo e de uma alma em fogo.

No silêncio de cinzas do meu Ser Agita-se uma sombra de cipreste, Sombra roubada ao livro que ando a ler, A esse livro de mágoas que me deste. ( Florbela, 1982)

Logo, a atualidade da literatura é uma experiência e a virtualidade do estruturante se converte numa ausência. O estruturante dispõe de uma ordem imaginária, contemporânea e diferente da ordem real, contudo coordenado por ela, e fazendo, a partir da criação, parte desta ordem. Procuramos falar sobre a arte de Florbela Espanca do ponto de vista estrutural, onde se estatui o lugar da representação como arbitrariedade e construção da ordem simbólica. Por isto podemos opor os dois tipos de discurso: o círculo do discurso e a cadeia do significante. O círculo do discurso tem, o caráter de representação do signo linguístico dentro de sua constituição simbólica. Nesta ordem simbólica, o lugar do significado refere-se como presença estruturada. A cadeia do significante media a relação significado e realidade. É o seu caráter de oposição que articula o sentido. E o ponto abstrato onde o representado se constrói como efeito de uma ausência que, por força de não nomeação, lhe registra o sentido.

Estranho livro aquele que escreveste, Artista da saudade e do sofrer! Estranho livro aquele em que puseste Tudo o que sinto, sem poder dizer!

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A referencialidade sígnica da poeta a leva a se expressar produzindo a presença do significante e restabelecendo o sentido concreto em seu discurso. Este discurso é circular e se remete ao Outro, embora pensando em si próprio. Segundo Lacan, o inconsciente é essa parte do discurso concreto, trans-individual, que não está à disposição do sujeito para estabelecer a continuidade com seu discurso consciente. Assim sendo, o primeiro tipo de discurso segue o modelo da língua; é o lugar da palavra social. O segundo tipo é o lugar da construção da letra, do destaque da função de suporte de uma materialidade simbólica, como se faz no discurso poético. Os elementos do discurso poético são os níveis ( simbólico, real e imaginário), as cadeias do significado e do significante, os planos denotativo e conotativo e os eixos sintagmático e paradigmático, Além destes, temos, no discurso poético os mecanismos de seleção e combinação e os processos de substituição e contiguidade.

Sonho que sou Poetisa eleita Aquela que diz tudo e tudo sabe Que tem a inspiração pura e perfeita, Que reúne num verso a imensidade! ( Florbela, 1982)

Da busca de si própria vem a razão de viver e crescer interiormente nossas lembranças, sem mencionar aquelas que se acham mais profundamente gravadas em nossas mentes, são, em si próprias, inconscientes. Elas podem ser tornadas conscientes, mas não pode haver dúvida de que podem produzir todos os seus efeitos enquanto se acham numa condição inconsciente. Dentro da elaboração de uma nova linguagem, a poeta reconstrói sua pessoa, uma vez dilacerada. Aquilo que descrevemos como nosso “caráter”, acha-se baseado nos traços de memória e nossas impressões e além disto, as impressões que causaram o maior efeito em nós, as de nossa primeira infância – são precisamente aquelas que dificilmente as tornam conscientes, mas se as lembranças se tornam mais uma vez conscientes elas não exibem uma qualidade muito leve, em confronto com a percepção.

Sinto os passos da Dor, essa cadência Que é já tortura infinda, que é demência Que é já vontade doida de gritar! ( Florbela; 1982: )

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Através da associação livre de pensamento não há resistência da censura. Na linguagem dos sonhos não existem barreiras que guardem a fronteira existente entre o inconsciente e o pré-consciente.Como se apresenta em " Fanatismo":

Minh'alma, de sonhar-te anda perdida Meus olhos andam cegos de te ver! Não és sequer razão do meu viver, Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida... Passo no mundo meu Amor, a ler No misterioso livro do teu ser A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa" Quando me dizem isto, toda a graça Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros: " Ah! Podem voar mundos, morrer astros. Que tu és como Deus: Princípio e Fim!..."

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Nos sonhos alucinatórios há um impulso para trás e atinge o sistema perceptivo, no sentido da extremidade sensória. Esta regressão então é indubitavelmente uma regressão das características psicológicas do processo do sonho, mas devemos lembrar-nos de que ele não ocorre apenas nos sonhos, mas pode ser intencionalmente canalizado através do processo poético. Regressão é a ligação com um fato que já nos era conhecido e recebeu um sentido. As visões paranóicas e alucinações durante a vigília também são outro tipo de regressão. Os primeiros pensamentos retornam ao estado de sono e as mudanças de catexia que este ocasiona nas extremidades sensórias do aparelho, com a exclusão do mundo exterior.

Olhos buscando os teus por toda parte Sede de beijos, amargor de fel, Estonteante fome, áspera e cruel, Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma Junto da minha, uma lagoa calma, A dizer-me, a cantar que me não amas...

Na vigília, os pensamentos são transformados em IMAGENS ligadas a lembranças que foram suprimidas ou permaneceram inconscientes. Dentro do discurso poético a regressão é revivida em termos psíquico-literários.

Relações pois, de causa e de efeito. Mas, as pesquisas linguísticas e retóricas presentes tornam a por em causa esta definição. Por um lado, a definição de Jakobson é mais aplicável à figura chamada sinédoque: uma vela para dizer um barco é efetivamente uma substituição de dois termos unidos por relações de contiguidade. Pode-se dizer o mesmo para as relações de causa e efeito: dizer, ele vive de seu trabalho em lugar de ele vive dos frutos do seu trabalho – para as relações de conteúdo e continente; beber um copo para as relações de antecedente e consequente; de uso pela coisa, de partes do corpo e sentidos de que essas partes são a sede; etc. Se nos lembrarmos do que dissemos a propósito da metáfora, podemos dizer que a sinédoque é uma meia metáfora, uma metáfora incompleta.

No movimento metonímico, a passagem do tempo de partida (P) ao tempo de chegada © se efetua via um termo intermediário (I) que engloba P e C. Por exemplo, dizer Champagne em vez de vinho de Champagne; o nome da província engloba ao mesmo tempo, o lugar e uma de suas atividades (vinícola). Na metáfora, o termo intermediário (o elemento comum a queimar e impacientem-se) é englobado e não englobante; na metonímia, ele é englobante. Podemos figurar assim: Metáfora Metonímia P I C P I C

Os sonhos assim como o pensamento onírico, são efetuados através de um trabalho de condensação em ampla escala. Os sonhos são breves, insuficientes e lacônicos em comparação com a gama e riqueza dos pensamentos oníricos. Em geral, temos apenas uma impressão de que sonhamos muito durante toda a noite e nos esquecemos da maior parte dos sonhos. Sob este ponto de vista, o sonho que recordamos ao despertar seria apenas um remanescente fragmentário da elaboração do sonho total; e isto, se pudéssemos recordá-lo em sua totalidade, poderia ser tão extenso quanto os pensamentos oníricos. O trabalho de condensação é ocasionado por omissão, i.e., o sonho não traduz fielmente os pensamentos oníricos, mas uma versão altamente incompleta e fragmentária dos mesmos.

A metonímia é sempre um não-senso aparente (não se bebe um copo) de tal maneira que é preciso efetuar mentalmente conexões indispensáveis à compreensão da expressão metonímica. A necessidade, ou falta de ser, em sua relação com o objeto (que lhe falta, se inscreve, no significante, mas num significante parcial, portanto, metonímico, a parte pelo todo). É investida pelo desejo que tenta cobrir a falta, remetendo a um significante associado, complementar. Assim, Lacan dá conta da indestrutibilidade do desejo que procede freneticamente por incessantes remissões de um objeto a outro, de um significante a outro. O enigma que o desejo propõe a toda filosofia natural, seu frenesi a imitar o abismo para o infinito, a coalizão íntima em que envolve o prazer de saber e de dominar, com o gozo, não se prendeu a nenhum outro desregramento do instinto que não o seu engate nas raízes tendidas para o desejo de outra coisa. imagesCA9YQOA5.jpg A linha metonímica: saber – dominar –gozar. Um bom exemplo de metáfora-deslocado é o de um sonho de Freud com o verme. Segunda bifurcação: a palavra worn tem sentido duplo: designa o verme e, na representação da psicanálise, simboliza a criança-falo. Esta palavra nos conduz ao desejo profundamente inconsciente: de devorar sua mãe como se devora um livro. De resto, a associação da mãe ao livro se apóia num acontecimento particular a Freud. Seu pai lhe havia dado um dia aquilo que ele (seu pai) mais carecia: sua Bíblia. No inconsciente de Freud este gasto foi interpretado como a doação da sua mãe, feita por seu pai, em benefício da criança. Assim, de significante em significante, por ligações metonímicas, por uma “concatenação” significante chegamos à falta de ser, à necessidade primeira: fundir-se com a mãe. O objeto (o complemento maternal) estando perdido a necessidade subtrocada pelo desejo, tende à satisfação através de uma cadeia de substitutos. Um exemplo de condensação metafórica está bem dado num trocadilho de uma personagem de Heine, citado por Lacan, personagem que se gaba de suas relações com o riquíssimo Barão de Rotschild: ”eu estava sentado ao lado de Salomão Rotschild e ele me tratava de igual para igual, de maneira muito familionária” – familionária familiar – (milionária). Assim, a metáfora está ligada ao trabalho de condensação como a metonímia o está para o trabalho de deslocamento. Como no trecho a seguir:

Sonhos que tombam! Derrocada louca! São como os beijos duma linda boca! Sonhos!..Deixa-os tombar...deixa-os tombar.

Um sonho é um enigma de figuras ou rébus. Só podemos formar um julgamento adequado do rébus. Se pusermos de lado as críticas e em lugar delas, tentarmos substituir cada elemento separado por uma sílaba ou palavra que possa ser representada por aquele elemento de uma maneira ou de outra. As palavras que juntamos dessa forma não deixam mais de fazer sentido, mas podem formar uma frase poética da maior beleza e significado. Daí ser o sonho um enigma de figuras dessa espécie. O que ocorre nos sonhos, poderíamos dizer, não é o que importa nos pensamentos oníricos, mas o que neles ocorre repetidas vezes. Essa hipótese não ajuda em muito nossa compreensão da formação dos sonhos, visto que, partindo da natureza das coisas, afiguram-se claro que os dois fatores de determinação múltipla e de valor psíquico intrínseco devem necessariamente atuar no mesmo sentido. Assim, uma elaboração do sonho, ao qual a linguagem poética está intimamente relacionada, uma força psíquica é atuante; ela, por um lado despeja elementos que possuem elevado valor psíquico de sua intensidade e por outro, por meio da superdeterminação, cria a partir de elementos de baixo valor psíquico novos valores, que depois de insinuam no conteúdo do sonho. Se esse for o caso, ocorre uma transferência e deslocamento de intensidades psíquicas no processo de formação do sonho, e é como resultado deles que se verifica a diferença entre o texto do conteúdo do sonho e o dos pensamentos oníricos. Este processo é exatamente o de deslocamento do sonho. O inconsciente está estruturado como uma linguagem. O discurso consciente é lacunar, ou seja, em certos pontos particularmente marcados, no lapso, no trocadilho, por exemplo, esse discurso parece dilacerar-se, perder sua lógica linear e obedecer a alguma loucura. Isto é bem percebido no sonho que aparentemente não tem nenhum sentido. O discurso, a atividade da imaginação, deixam penetrar sob uma forma velada e censurada, como no discurso poético, o verdadeiro discurso: “o inconsciente”. O discurso consciente é algo como esses manuscritos, ou palimpsesto, nos quais um primeiro texto foi desmanchado para ser recoberto por um outro. Nesses manuscritos, o primeiro texto sempre se deixa perceber mais ou menos, nas falhas do segundo.

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas, Que poisam sobre duas violetas, Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos... E as minhas mãos, uns pálidos veludos, Traçam gestos de sonho pelo ar..

O Ego inconsciente tende a regrar, a medir pulsões instintivas que não são reconhecidas pela consciência. Ele distribui, em medida aceitável, energias instintivas percebidas como perigosas, tais como a angústia, ou proibidas bem caracterizadas pelo sentimento de culpa. Se não atinge essa normalização, seu fracasso é precisamente a formação do sintoma, ou signo enigmático de um conflito inconsciente. Na idade adulta esses sintomas podem traduzir-se em medos, condutas ou mitos incongruentes, desviados, inadaptados, porque caracterizam um bloqueio – a este nível do desenvolvimento infantil. Mas esses sintomas são mais frequentemente formações de compromissos, no sentido de que uma pulsão que forçou a carreira do inconsciente – num medo ou num rito, por exemplo – recebe, mediante múltiplas transformações, uma certa “gratificação) ou alívio de sua tensão. O discurso poético é uma forma de canalizar estar formações inconscientes.

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