imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

O ANOITECER

Uma mulher perdendo o sentido da vida em pleno verão, planeja passo a passo, sua morte,envolta em ondas fortes dentro da espuma e antes do anoitecer.


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Não suportando mais o calor, acendeu um baseado para que o ar ficasse mais leve. Respirando fundo imaginou como sua vida poderia ser diferente.Ainda dava tempo e tempo é todo minuto. Muito tempo sobrando, mas como o tempo sobra? Sobra de que? Da noite que não viveu? O que sobra do tempo é não viver o que está sendo agora. Tempos compassados. No seu vazio. Atravessados pela literatura que agora criava. Não era só por amanhã. Ela precisava costurar o pensamento. Costurar os detalhes, dar corpo ao vazio e ao medo, debruçar-se completa e pura na luz. Não suportava mais o deserto de almas, nem a sensação corrida de que estava morrendo. E as falas não ditas? Até quando engulir seco e virar de lado? Por que não tinha coragem de gritar: Tem gente aí? E a cada tarde adoecia mais aquele ar quente e seco. Parado.

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O tempo continuou a marcar as ausências e entre seus dedos finos e velhos, imaginava o anoitecer. Já não escrevia mais com firmeza e as letras eram sinuosas como um rio que vai dar no mar.

Saiu devagar da cama. Todo o corpo doía e as pernas brancas e finas ousaram pisar no asfalto. Com o calor do sol, foi ganhando forças. Não passaria mais um dia a sentir o tempo e a opressão do nada. Certamente na esquina viria o mar e logo se jogaria ns ondas bem fundas como se fosse nada. Seu corpo submergiu antes do anoitecer.


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