imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

REENCONTRO DE INFÂNCIA

Em reencontro com somente a infância como carinho. Como você explicaria um encontro depois de 50 anos? Como pintar o sete na solta presença de duas amigas que da vida iriam rir muito. Suas vidas e o tempo que as preservou pelo amor aos pais e mães inteiras imagens.


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No pensamento, ansiedade, no corpo, uma fantasia de que aquela seria uma viagem especial. Ninguém lhe tirava da cabeça que voltar a Salvador, seria a mesma coisa que voltar ao útero. Algo de inconsciente, lhe deixava abobalhada. Não se descreve o desejo. Ele entra em você delirante criatura. Foi a noite mal dormida que me traz estes daydreams. Mas não busco sentido. Busco a luz .Aquela luz da fantasia a qual só os loucos percebem. Um diamante nas ideias.

Livia, ia viajar para sua cidade natal e era também seu aniversário. todos dizem que o que escrevemos é autobiográfico, mas não é, pois o eu que escreve é o fantasma de Lívia . Apenas traduzo a ideia. Digo através. Que coisa linda poder ler através. E assim como eu leio em seus olhos todo o brilho de minha infância. E quem poderia saber o que aquelas duas almas infantis iriam se afinar assim num segundo encontro, após 50anos? Quem lhe asseguraria, que não desmaiaria no abraço? Todas as fantasias faziam seu corpo dançar um bolero no compasso. Rápido e quente.

Livia não se lembrava de Iris. É algo fenomenológico, as pessoas irem loucamente de encontro com seu inconsciente que berra de alegria. Não dá pra segurar. Quando é assim, a gente solta o ar, abraça o vento e se torna invisível. Neste quadro de êxtase, Livia toma docemente um copo de vino e deixa a água molhar seu corpo inteiro. A passagem se faria com dificuldade, mas era sua vida que tinha começado em Salvador. Viu a casa onde nasceu. Mexeu nos brinquedos e pisou no pátio junto aos brinquedos.

O reencontro mexeu com o ritmo da Livia que pensou no agora e para não encher a cabeça de historinhas, mexeu seu corpo pelas ruas de Salvador e foi à praia todos os dias para receber as bençãos de Iemanjá. Encontraram-se em um bar no dia seguinte e o sol estava de um tom mais dourado do que prateado. Livia viu todas as cores e se reviu naquele oceano de paixão, saudade e excitação.

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é fita de seda. são seus sentidos soltos e suaves., São seus suspiros. Toda manhã queria ver Iris e quando não chegava a hora, ela se afligia. este mundo nosso de olhar solto sobre o vento. nossa alegria estava embutida, dentro de uma ferida narcísica que ambas carregaram por toda uma eternide.

A ferida não foi escolha. As feridas, aliás, acontecem de fora para dentro e também a dentro para dentro. Naquele delírio de quem está falando duas linguagens, Livia ia fatidicamente ao banheiro. Tamanha abertura, ia ficar sempre mijando o tempo.

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