imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

RETORNO À ITACA

Como voltar à Cuba que apesar da repressão comunista traz à memória de Amadeo a amizade antiga de um tempo de ideais e fé, solidariedade, segredos e luta? Retorno à Ítaca, do diretor Cantel Laurent nos faz pensar sobre a angústia de um desejo sem suporte, de um sonho sustentado apenas pela memória afetiva do passado e da juventude perdida.


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Quando falamos de Cuba, logo pensamos na Revolução Comunista de 1959 e a tomada do poder por Fidel Castro, Che e seus companheiros Há mais de 50 anos Cuba passou por dificuldades políticas e econômicas, principalmente desde a dissolução da União Soviética.Entre ser a pérola do Caribe e a ilha mais cobiçada e odiada, Cuba se tornou um fetiche para o mundo. Falar do filme, já é um passo para mexer com o que está preso no coração de cinco amigos que se re-encontram após 16 anos, comemorando a volta de Amadeo ( o amado)àquele lugar onde os olhares equidistantes de aproximam com a força emocional de quem vive uma saudade, sabe dos mesmos sofrimentos, troca experiências e discutem suas posições durante os anos adultos.

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Cada amigo seguiu vivendo suas vidas com paixão e medo. O pintor se tornou alcólatra porque suas pinturas foram censuradas pelo governo fidelista. O escritor, Amadeo, não consegue mais escrever pelo bloqueio emocional sofrido desde de sua expatriação. A oftalmologista, como todos os médicos cubanos, não pode viver do seu salário e recebe "regalos" de seus pacientes, com dois filhos exilados nos Estados Unidos. O engenheiro vive de consertos de peças arcaicas que não foram substituídas por falta de matéria prima. Finalmente,o seguidor do regime que recebe dinheiro do governo para delatar quem está agindo fora da ordem. Eles bebem numa laje simples, jantam e se confrontam com a nova geração, através de um diálogo chocante onde o jovem rapaz afirma seu desejo de morar nos Estados Unidos, agora livre diplomaticamente, mas sem dinheiro pra a passagem. A cena une todos no jantar onde novo e velho não mais se reconhecem. A angústia de um país cujos pés sujos não podem ser exibidos, cujas feridas imensas ainda estão expostas nos olhos daqueles cinco sobreviventes que simbolizam a amizade bem semeada que não se perderá enquanto vivos, a amizade que nos é universal dentro de uma linguagem verdadeira, franca, sentimental e dura de roer.

Ave Hanna...aves sobrevoam o caminho e nos deparamos com um por do sol tão vermelho que paralisa a retina. Sento-me e sinto-me travessa e desligada no muro da avenida que chamam malecon. Malecon...mal de que? Males, mares caribenhos. Morro eu no Caribe.caliente...

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