imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

UM OLHAR NESTE INSTANTE


Um olhar sobre si é sempre contínuo. A dor faz parte da vida. Sem dor não há vida e o olhar neste instante é uma reflexão sobre a busca por si mesma, apesar de perdas e pernas.


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Os dias se somavam dentro de um moto contínuo. Às vezes Aurora ainda tinha vontade de um amante. Tudo muito diluído em aceitações próprias. Queria que seu mundo fosse mais pleno, deixando de vez toda a mesquinhez. Por mais que relutasse contra certos pensamentos, tinha clareza de sua quase velhice somada à expectativa inconsciente da morte. Dormia e sonhava muito. Dias e noites vazios. A saudade da juventude ia e vinha. No dissabor das horas, no frio das paixões enterradas. Agora não tinha vontade de se lançar a nada nem de ver ninguém. Soube muito cedo do fim das relações, dos sonhos sonhados, da solidão de pedra. Ela era Aurora, mas devia ser Crepúsculo. Estava farta de tudo na vida e por um ponto apenas poderia fechar essa vida. Era fácil. Disso ela sabia. Da morte, do mistério que desvendaria do outro lado da vida. Lá não teria calor, nem tédio, nem olhos lacrimejantes, nem pequenas raivas. Já era a hora de sair da terra. Tudo igual, tudo repetitivo. Pessoas que já morriam pois a idade de morrer é essa.

O tempo estava frio e as recordações de Aurora lhe prendiam à cama como um ser viajante. Já tinha há muito desistido de sair do quarto. Haviam motivos que não interessam mais, nesta última fase. De que adiantaria seus esforços juvenis para ir ao cinema? O tempo invernal lhe acolhera com tanta ternura que ela ia se adaptando às meias soquetes e ao chinelo de dedo. Aurora era exclusiva em suas atitudes. Não queria o que não queria. Seu questionamento, contudo, só morreria com ela. Sem questionar, não se vive, não se cria, não se pensa. Aí começava tudo de novo. O médico, os plantões duros de suportar. Principalmente, quando chegavam casos graves e mesmo impossíveis de descrever, pois a dor não é representável. Às vezes, dormia sentada na cadeira de madeira. Cochilava muito até um grito iluminar a madrugada fria. Era um grito vermelho. Sempre os gritos são vermelhos. imagesCA3GUP91.jpg

Assim já vinte anos se passaram. Ela era tão maternal com aquela gente adormecida da mente. Era Aurora. Muito emotiva com as suas mãos diáfanas. Não esperava poder ser tão útil, com sua crítica e sua timidez juntas. Ela entrelaçava sonhos e picotava solidões. Pensamento solto. Todos os sábados eram frios, mesmo no verão. Aurora não sabia se sábado ou domingo eram dias sabidamente iguais, aos quais a sociedade nomeou e ordenou o lazer. E, você tem que escolher? Aurora se questionava. Até o silêncio se fazia falante e isso era pesado para uma mente tão viajante. Já não se importava com as nuvens dentro do quarto. Eram suas nuvens. Com alguma hipótese de vida azul. Só porque os homens eram despidos de moral, costumavam passar a mão na sua bunda. O caso foi levado ao diretor e por lá ficou. Então, Aurora sabia que de vez em quando uma mão lhe acariciava quando mexia com os lençóis. Fica silenciosa. Fingia não sentir nada e saia de fininho. Depois, no corredor, dava uma tremenda gozada. Como lidar com doentes, senão deixá-los menos doentes?

Não acreditando nas mãos masculinas, Aurora, volta e meia dava uma escapulida para as ruas. Meio tonta, ao sabor do cimento. Com uns trocados, entrava num bar, sentava, pedia uma gelada e fica se entretendo com os olhos. Essa era sua diversão, quando queria morrer, quando devia morrer a qualquer instante e seu corpo saia em movimento, como num baião. Saía de si. No bar, sempre tinha uma conversa e a fala abre uma cadeia de reações que a levavam a outros universos. Ali, ela se via na luz da imaginação, a criar seus sonhos e a calar sua solidão imposta. Aurora por vezes, era tão distraída pelas vozes que se esquecia das horas, da enfermaria, das dores, das mortes. Ficava lá até amanhecer o dia. Podia-se ver pelos olhos de Aurora o que se passava naquela alma. Um tremendo lugar comum, essa história de olhos e alma. Mas é isso mesmo. Olhos contam as histórias da alma. É um ponto de vista. A vista fica clara e Aurora desfaz todas as prisões e pseudos encontros, numa mesa de bar. Sem quase nada mais do que um instante mergulhada na luz. Cheiros de pessoas, vozes desencontradas, olhares furtivos, amores incompletos. Vida.

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Aos poucos, Aurora tornou-se conhecida do bar. Lá ela conversava com todos, sentia-se reconfortada por uns beijos e recompensada pela música que rolava aos sábados. Era pouco, mas já dava para esquentar aquele coração. Aurora passou a ter diferentes amigos. Mas nunca os permitia ir ao seu local de trabalho. A vida é muito complicada para se misturar pessoas e pessoas. Cada um tinha um coração. Cada um deveria permanecer como era. No seu tempo. Cada amigo era uma flor e cada paciente era um presente, uma dádiva. Assim, a vida escorregava as estações com carinho. Até o dia que ela conheceu Mario. Este encontro iria modificar sua atitude controlada. Não diria que foi pouco o que Mario lhe deu, porque foi o paraíso. Enrolada num xale cor de vinho, Aurora viu entrar no bar, um homem esguio, com olhos inteligentes e corpo flexível. Ele foi logo pedindo um chope e com um cigarro aceso, começou a falar com o rapaz do balcão. Era um tipo atraente. Há poucos metros de sua mesa, era inevitável não percebê-lo. E seus olhos foram se aproximando tanto que os dois riram na mesma proporção das retinas. Daí para a cama foi um passo de valsa. Na intimidade de um quarto de hotel, foram se conhecendo muito. O namoro durou quase sete anos, com risos, esperanças ditas e vividas, planos nunca realizados, mas planos. Eternidade. Mario faleceu de repente, de enfarto e sempre viveu nas noites e nas manhãs de sol, com seus braços de trabalhador e suas mãos de desenhista. Era um artista. Desses que você não encontra em qualquer esquina. Um homem raro. Um rei. Mario reinava sobre as pessoas, tinha esse dom conhecido como tolerância. Com Mario, Aurora se sentiu mais forte, e seus momentos mágicos eram uma fonte inesgotável de delícias.

tse2012C3shadowbands_StephenMudge900[1].jpg Não poderia jamais esquecer a segurança que Mario lhe deu de volta. Ele lhe amava pra valer, sem vírgulas, com intervalos compassados e nítidos como o brilho da lua. A vida trouxe para Aurora o carinho esmorecido, esquecido num canto da memória depois de tantas perdas e pernas.


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