imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

9 E 1/2 SEMANAS DE AMOR: O DESEJO E O PODER

9½ Weeks (Nove e meia semanas de amor no Brasil) foi realizado por Adrian Lyne com Mickey Rourke e Kim Basinger nos principais papéis, um filme realizado em 1984 mas só lançado em 1986. A bela e sexy Elizabeth (Kim Bassinger) trabalha em uma galeria de arte e vê sua vida mudar quando conhece o misterioso John (Mickey Rourke), com quem acaba rapidamente se envolvendo. O casal inicia então a prática de jogos sexuais, que gradativamente vão se tornando mais perigosos e acabam se tornando uma relação sado masoquista, efêmera e erótica.


vlcsnap2011051809h02m59[1].png O roteiro de Adrian Lyne baseia-se no livro de Elizabeth McNeill escrito em 1978. Um filme com formato de videoclipe, nos leva direto para a súbita paixão entre John ( Michey /Rourque )homem rico e sedutor e Elizabeth( Kim Bassinger)mulher culta e bela.As cenas são uma sequência de erotismo e sensualidade que se misturam em um excitante e sádico jogo sexual. O pós-moderno reconhece uma forma de controle dos comportamentos, por meio da supremacia dos objetos, das imagens e das informações, sempre embaladas em ideais hedonistas e sugere como um ganho nesse processo, a diversificação jamais vista dos modos de vida, numa alternância de crenças e papéis, ao presenciar-se uma nova fase do individualismo ocidental. O filme valoriza o prazer ao máximo associado à riqueza material.Nove e 1/2 Semanas de Amor dá início a uma fase em que o cinema vai mostrar o erotismo de uma forma vulgar, sem vergonha, sem uma totalidade. Tudo é fragmentado, desde as cenas que não exatamente transmitem uma continuidade, até a fala dos personagens e suas ações sem barreiras.

O sádico tem prazer na idéia do domínio, em impor e ver o sofrimento físico ou moral da outra pessoa. O masoquista obtém prazer em ser humilhado, pelo recebimento do sofrimento físico ou moral. Sadomasoquismo vem da junção dos nomes Marquês de Sade e Leopold van Sacher- Masoch. Escritor do século XVIII, Sade dedicou a uma extensa obra literária sobre atos sexuais brutais, o que deu origem a expressão ‘sadismo’. Já a expressão ‘masoquismo’ é derivado do nome Sacher-Masoch, também escritor, que fez da perversão a base dos seus textos.

O projeto da conquista da autonomia individual, mais do que qualquer outro fenômeno, foi favorecido pela institucionalização do efêmero, diversificando o leque dos objetos e dos serviços, pela multiplicação das escolhas individuais. O casal quer viver o sexo com transgressões e acolhem novidades, a afirmar preferências subjetivas. Mesmo levando-se em conta a vida em sociedade,eles estão buscando a felicidade no erotismo, longe das instâncias burocráticas.

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Devido a esta fragmentação, o filme pós-moderno assemelha-se a um video clip. Sem uma historicidade marcante, o pós moderno tem que lidar com a questão de uma temporalidade, digamos assim, “meio órfã”, E por ser órfã, carece , por vezes, de significados. Sem significados, os significantes, tal como apregoam os pós-estruturalistas, muito semelhantes aos pós-modernos, passaram a andar sozinhos, sem nenhum ponto de referência. Sem nenhum referente. Por isso, também, a fragmentação. Uma ordem de produção tem uma aparência, e o é, “fragmentada.”. Talvez possamos mesmo dizer que a fragmentação seja a sua “essência”. Os protagonistas são belos, ricos e solitários. Nem Elizabeth nem John estão felizes em suas vidas. Ambos são pessoas fragmentadas que buscam na satisfação sexual e no fetiche uma forma de gozarem. Há , em uma fala de John a afirmação de que os homens de negócio são infelizes porque só trabalham para ficarem ricos e gastarem tudo com objetos de luxo. 011-kim-basinger-theredlist[1].jpg

Elizabeth torna-se o fetiche de John e ele quer literalmente consumi-la em toda a tornando submissa às ordens de John, que dentro do sadismo, procura erotizar cada encontro com surpresas que se tornam perigosas. Mas que viciam o lado masoquista da heroína. " Eu faço sua comida. Eu cozinho. Tiro seu vestido todas as noites e o coloco de manhã. Só quero que você esteja aqui todas as noites. É o contrato. É o controle sobre uma mulher que se entrega e se desconstrói em noites de sexo aventureiro. As cenas picantes como a comida na cozinha, o gelo descendo pelo corpo de Elizabeth e o sexo explícito nas ruas escuras de Nova York, vão se tornando patológicas, como a cena em que ele ordena que ela fique de quatro e busque um dinheiro no chão, até, culminar na presença de uma terceira pessoa, do sexo feminino excitar Elizabeth com suas mãos para depois ela ter que olhar John transando com esta mulher. Elizabeth cai em si, foge, se descompõe até sentir que o prazer se tornara algo sujo, vulnerável e agressivo. 9-and-a-Half-Weeks-576[1].jpg

Completamente fora de si, ainda entra em um show de sexo, é seguida por ele e descobre sua dependência. Sem mais do que essa consciência de si, ela acorda para sua vida e diz adeus ao amante. Tudo escuro, no meio da multidão, a face da solidão da metrópole no rosto de uma mulher que buscará seu caminho, longe do jogo sádico do poder.


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