imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

A DITADURA DOS CORPOS E A DESCONTINUIDADE DO SER

O corpo se vê condenado a erotizar-se para funcionar como elemento de troca nas relações pessoais e como engrenagem de um erotismo geral que sustenta o mercado e o consumo. Para esse intento os objetos e os corpos vêem-se, indistintamente integrados num processo de reciclagem contínua, como única resposta possível a um projeto de obsolescência programada.


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O consumo serve para pensar, e não apenas na direção em que aponta a racionalidade clássica. Em função disso, ao percorrer a obra de diferentes autores, é possível observar uma convergência quanto ao papel normativo e socializador do consumo, havendo divergências no entanto, quanto a positividade dessa socialização e a racionalidade associada as condutas de consumo. Para o desenvolvimento desta análise que se refere à imagem em construção na contemporaneidade, problematizando acerca da hipervalorização dos processos de mutação corporal, tentar-se-á investigar o quanto essa questão poderá ser entendida como uma ressonância da dinâmica do consumo, engendrada no capitalismo industrial, como forma de legitimar o seu campo de ação ou como um rito de personalização e de socialização, reservando outro destino ao capitalismo e nesse caso, positivando o processo de consumo. A opção de uma postura de análise que privilegia o paradoxo em toda a nossa trajetória, vem exigindo uma elasticidade do intelecto, no sentido de conseguir conviver com algumas indefinições e empates. Preferindo sempre operar com certezas temporárias no lugar de certezas tamponárias. Busca-se com isso salvaguardar o direito à dúvida, algo tão caro às produções do ocidente, que dispõem de recursos para sobreviver ao erro, mas não à dúvida.

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Nunca houve um tempo tão superficial. A sociedade elegeu o narcisimo como fonte de ilusão, dinheiro e prazer. Todos que querem entrar para o clube tê, contudo que seguir regras. Essas regras são impostas pela ditadura do corpo. O corpo é moldado pela estética vigente que exige mulheres magras e homens musculosos. A atração pelos acessórios é um vício. A luta de classes sumiu entre o que é caro e o que imita o caro. Tudo fica lindo, se você obedecer às regras. Não precisa ser muito rico, se tiver gosto pela estética pós-moderna. Até no camelô, a moça pode se arrumar para a festa. A reprodução das grifes está à venda. E, nessa fantasia cotidiana, as moças vão malhar. O corpo em questão. Nada mais interessa. Nem os moços, também. Que sejam fortes, malhados e dentro da ditadura do corpo, constroem um narciso. Narciso, aquele que se ama. Narciso vem do mito do jovem que é apaixonado por si próprio e mergulha na sua imagem refletida na água. Esse mito, tão aprofundado por Freud, voltou a ser a manchete do dia. Sejamos todos narcisos! Nada nos incomoda. Nada nos faz pensar. Não precisamos mais questionar, estudar, refletir sobre os males da sociedade, sobre a violência cotidiana. As mazelas não nos pertencem. Nosso mundo é epicurista e o resto que se dane. Está instalado o desvario.

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Baudrillard irá edificar a sua crítica à economia de consumo, dentre outras formas, negando a concepção de um ser individual, dotado de necessidades e que quando livre de ações externas, se encaminhará “naturalmente” para a satisfação das mesmas. Buscará parâmetros de análise para esse processo, sob a ótica da ideologia de consumo. Em nosso objeto de estudo, especificamente, está o corpo e a construção da imagem imposta por uma moral consumista onde a necessidade de acompanhar as suas mudanças, também será apresentada como única chance de realização para os indivíduos. Assim, o culto ao corpo, tornou-se uma aquisição do objeto-signo, ou seja, ter-se-á o corpo perfeito, não importa, o preço que se pague.

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Portanto, o culto ao corpo é consequência da sociedade de consumo, em que se está inserido, levando vantagem sobre outros objetos de consumo. A sua presença nos meios de comunicação é constante e pesada, fazendo com que, sobretudo as mulheres queiram adquirir o padrão de beleza imposto pelas revistas, internet e spas que trazem a pílula da felicidade embalada em um corpo construído pela própria mídia consumista e ditatorial.


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