imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

A PAIXÃO NÃO É TORMENTO. É PAIXÃO

A paixão chega sem avisar. Invade, mexe, tira. A paixão nos leva ao mar. Paixão não é tormento. É paixão enlouquecida, livre de juizo. A paixão do gozo. A paixão do riso.


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Naquela manhã quente, ela foi à praia como quem não quer nada. Diferente das demais jovens que conhecia, ousava isolar-se nas pedras escorregadias a buscar ostras. Seu sentimento de viver era meticuloso. Não combinava com o azul do cosmos, não se agregava a nada nem a ninguém. De vez em quando, um barco. De vez, ela se levaria do barco ao outro lado do horizonte. Não havia o outro lado. Havia a ilusão do outro lado. Ela morria de rir, com vontade de escorregar do limbo para ser a mulher. Aconteceu. O barco sumiu em uma manhã cinzenta. Tudo se tornou mais pesado sem a imagem do barco. Sem seu delírio, prendeu-se a um galho perdido e nervosamente o quebrou. Cada pedaço de árvore, solto ao vento da agonia. A lamentável dor daquela dia, lhe trouxe uma voz masculina que perguntava docemente. Que horas são? Desequilibrada na pedra, só viu os pés.

Demorou uma vida, até conseguir virar-se e olhar aquele homem tão estranho quanto a cor da pele e o corpo magro, forte, jovem. Este homem, deu-lhe a mão para que se levantasse sem esforço. Olharam-se por algum tempo incomum. Estranharam-se. Eram 11 horas. Satisfeito, ele agradeceu. Mas, ficou lá, parado, olhando cada parte de seu corpo. Foram caminhando pela areia fina em silêncio. Não se contiveram na conversa.

02_pensieri_nel_vento1[1].jpg Ele era um habitante da ilha. Ela era um habitante do planeta terra. Somente entre pausas e pés, sentiu desejo de beijar-lhe. Sem nomes, nem identidades traçadas. Era o momento. Aquele sol que se escondia e brilhava, faziam do homem bonito, uma paixão indefinida. Não importava. ele lhe segurou a mão, deixou-a no espaço. Perdendo o chão, foi direto para o paraíso de sua boca.Caminho curto para o paraíso. Couples_in_love_Sunrises_435288[1].jpg

O mundo girou, mexendo os corpos enlouquecidos. Os quadris, as pernas, os pés se cruzaram numa dança esquisita. Bunda, braços, boca. Sentidos que morrem e nascem da paixão. Sem explicação. Sem palavras. Sem medo. A paixão do momento, não parou aí. Viveram tudo. A entrega de corpo e alma. A carícia dos que se permitem amar de novo. a paixão não pede licença. Ela avança o sinal e traz flores violetas. A paixão não quer saber, nem entender, nem controlar. a paixão não é tormento. É paixão, gloriosa em sua louca invasão de mãos que se estendem suavemente e se falam emn silêncio. Paixão escondida, paixão espremida no gozo. Até a água salgada do mar, aprofundar-se nas entranhas e permitir a total ausência de juizo. Paixão demorada. Paixão bem humorada. O horizonte foi testemunha dos risos soltos e disse a areia que ela era feliz.


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