imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

ANIMA E ANIMUS- ARQUÉTIPOS NA POESIA DE CHICO BUARQUE

A formulação dos arquétipos é
descrita como um conceito empírico, como o átomo.
Este é um conceito baseado não apenas em evidência
médica como em observações de fenômenos míticos,
religiosos e literários. Assim, arquétipos são considerados
imagens primordiais, produtos espontâneos da
psique que não refl etem nenhum processo físico mas
estão nele refletidos.


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O conceito de arquétipo funciona como um nódulo de concentração da energia psíquica. Quando esta energia se atualiza, toma forma, então temos a imagem arquetípica. A formação de imagens interiores se prova através dos sonhos onde surgem personagens desconhecidos e conhecidos para desempenhar comédias e dramas em cenários fantásticos. A noção de arquétipo, postulando a existência de uma base psíquica comum a todos os homens, permite compreender por que em lugares e épocas diferentes aparecem temas idênticos transmitidos com diferentes roupagens nos contos de fada, na poesia, nos mitos, na filosofi a, dogmas e religiões (Silveira, 1986: 78). O conceito de arquétipo como um meio de expressão do inconsciente coletivo é um nível mais profundo que se manifesta em imagens universais arcaicas expressas em sonhos, crenças religiosas, mitos e contos de fadas. Os arquétipos, enquanto experiência psíquica não fi ltrada, aparecem em formas mais primitivas e naives. Às vezes, numa forma consideravelmente mais complexa devido à operação da elaboração consciente. De acordo com Jacobi (1857: 40), a noção de arquétipo, expresso em imagens que Jung designava inicialmente como motivos de modelos psíquicos, com o correr do tempo se estendeu a todos os tipos de modelos, confi gurações, decorrências etc., isto é, também aos processos dinâmicos e não apenas às imagens estáticas. No seu artigo de 1946 “O Espírito da Psicologia”, Jung assinalou com severidade a necessidade de diferenciar o “arquétipo em si”, isto é, do não perceptível a apenas potencialmente existente, do arquétipo perceptível, atualizado e “apresentado”.

Daí ser importante distinguir sempre o arquétipo da imaginação arquetípica, isto é, da imagem arquetípica. Enquanto o arquétipo ainda jaz no inconsciente coletivo como um “ponto de nó”, ele não pertence à esfera do indivíduo, mas à esfera psicóide ou semelhante à psique.

As imagens arquetípicas expressas em dogmas são completamente elaboradas em estruturas formalizadas que, enquanto expressam o inconsciente de modo cíclico, impedem uma confrontação direta com o mesmo. Desde que a Reforma Protestante rejeitou quase todas as estruturas simbólicas cuidadosamente construídas, o ser humano tem se sentido mais isolado e solitário sem seus deuses. Nesta perda, ele busca reviver seus símbolos externalizados e voltar-se à sua imagesCASZJBC1.jpgfonte, o inconsciente. A procura no inconsciente envolve o confronto com a sombra, a natureza escondida do homem. A anima/animus, um gênero oposto escondido em cada indivíduo é o arquétipo do signifi cado. Esses arquétipos são suscetíveis de personifi cação. Os arquétipos de transformação que expressam o processo de individuação são manifestos. Como os arquétipos penetram a consciência, eles influenciam a experiência percebida de pessoas normais e neuróticas. Um arquétipo é sempre muito poderoso e pode totalmente possuir o indivíduo e causar psicose. Mas, ao tornarem-se conscientes, são sintetizados com o consciente por reconhecimento e aceitação. É observável que, desde que o ser humano moderno tem uma habilidade altamente desenvolvida para dissociar e para diminuir esta dissociação, procura se reconciliar com os aspectos da personalidade que foram negligenciados.

A contribuição de Jung é considerada como uma demonstração de que os arquétipos estão disseminados não pela tradição, língua ou migração, mas podem aparecer espontaneamente sem qualquer infl uência externa. Por outro lado, o não dogmático da ideologia de Jung impede que a teoria se converta em um sistema cerrado e permite um constante e decisivo desenvolvimento, além de uma diferenciação progressiva.

Os termos e recursos estilísticos são experimentais e sempre se referem a imagens que recorrem a uma linguagem metafórica com seus signifi cados, conceitos e abstrações. De qualquer modo, a obra poético-musical de Chico Buarque é complexa em suas inúmeras características, seja o conto, o mito, o feminino em suas diferentes dimensões. As polaridades estão presentes e atravessam todos os conceitos estabelecidos, cabendo a nós o trabalho de sentir e interpretá-las, seja nos opostos vida x morte, ódio x amor, mulher x homem, oprimido x opressor, luz x escuridão. Neste processo de comunicação, tudo tem um signifi cado, ainda que remoto e o símbolo que carrega consigo é um enigma a ser decifrado. Contudo, sendo nós mesmos os mensageiros deste conteúdo, revelamos, ou não, este universo psíquico conhecido como o inconsciente pessoal. O inconsciente pessoal compõe-se de conteúdos acumulados pela experiência individual, e o inconsciente coletivo é o substrato psíquico onde se encontram as disposições latentes de herança comum a todos os seres humanos, independente de cultura, raça e época. A nossa vida é a mesma que era desde a eternidade. Pelos nossos conceitos, ela não é, em todo caso, nada de perecível, porque os mesmos processos fi siológicos, peculiares ao homem há milênios, ainda continuam e dão ao sentimento interno uma profunda intuição da “eterna” continuidade do vivo. O nosso eu como essência do nosso sistema vivo, não apenas contém o sedimento e a soma de toda vida vivida, mas é também o ponto de partida, a matriz grávida de toda a vida futura, cujo pressentimento é dado ao sentimento interno com a mesma clareza como aspecto histórico. Destes fundamentos psicológicos surge, legitimamente, a idéia da imortalidade. (Jung, 1946: 28) O arquétipo une em si todas as possibilidades do que já foi e do que virá. Daí ter a característica da bipolaridade. Quando unimos esta concepção à do signo lingüístico, verifi camos que o signo também é bipolar, ou seja, se constitui de signifi cante e signifi cado que podem ser estruturados de novas formas e/ou reaparecem de forma antigas e já elaboradas. O símbolo é, também, um arquétipo, mas precisa estar determinado por um arquétipo “em si”, ou seja, precisa ser esboçado como arquetípico. A alma cria símbolos cuja base é o arquétipo inconsciente e cuja fi gura visível resulta das imagens adquiridas pelo consciente. Em outras palavras, os arquétipos têm certa autonomia e energia que atraem para si os conteúdos do consciente que lhe são convenientes (Jung, 1946:391).

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A Dinâmica da Anima- Há uma imagem coletiva da mulher no inconsciente do homem, com o auxílio da qual ele pode compreender a natureza da mulher. Esta imagem herdada é a terceira fonte importante da feminilidade da alma (Jung, 1916: 66). O homem que não atravessa o inferno de suas paixões, também não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba. (Jung, 1916: 85) A valorização das fantasias não signifi ca negação de realidade. Deste modo, a busca do discurso poético e seu constante questionamento sobre a essência da vida encontra na poesia o lugar onde se circunscreve simbolicamente, não implicando ausência nem tampouco a desvalorização do outro. Pelo contrário, o poeta é aquele ser que se despreende de um discurso pseudo coerente e codifi cado, para alcançar o mais íntimo e singular signifi cante arquivado e ou reprimido em algum lugar do seu inconsciente. Daí ser possível fazer uma convergência entre a poesia e a psicologia analítica no que diz respeito ao que nos é velado e revelado: mesmo miseráveis os poetas/ os seus versos serão bons/ mesmo porque as notas eram surdas/ quando um Deus sonso e ladrão/ fez das tripas a primeira lira/ que animou todos os sons. A formulação dos arquétipos é descrita como um conceito empírico, como o átomo. Este é um conceito baseado não apenas em evidência médica como em observações de fenômenos míticos, religiosos e literários. Assim, arquétipos são considerados imagens primordiais, produtos espontâneos da psique que não refl etem nenhum processo físico mas estão nele refl etidos. Vale lembrar que as teorias materialistas explicariam a psique como um epifenômeno de estados psíquicos no cérebro. Não há provas para tal hipótese. É, pois, mais razoável considerar a produção psíquica como um fator gerador do que gerado. A anima é o aspecto feminino da dualidade arquetípica macho/fêmea, cujas projeções no mundo externo podem ser traçadas pelo mito, pela fi losofi a e pela religião. Essa dualidade é representada por símbolos míticos que expressam os imagos dos pais. O poder singular da anima é devido a uma intensa repressão do material inconsciente com respeito aos pais. As imagens arquetípicas são descritas como preexistentes disponíveis e ativas desde o momento do nascimento como possibilidades de idéias que são conseqüentemente elaboradas pelo indivíduo. A imago da anima é vista como muito ativa na infância, projetando qualidades sobre-humanas na mãe antes de afundar no inconsciente sob a infl uência da realidade externa. O conceito de anima é considerado crítico para a compreensão da psicologia masculina.

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Animus – é a representação masculina na mulher que, primeiramente, se identifi ca com o pai e passa a dirigir suas ações para o Logos, i.e., a razão, a lei e a capacidade de discernimento e de opinião. O animus constitui os meios de a mulher defender-se e criar seu padrão de comportamento através do conhecimento. Contudo, sua base afetiva se funda em uma necessidade instintiva de proteção, que faz com que a mulher projete seu animus nos homens que conhece ao longo do caminho, nos diferentes papéis de herói, irmão, fi - lho e fi guras semelhantes às do pai. Ele era mil/ tu és nenhum Na guerra és vil Na cama És mocho Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se o fogo dele Guardado em mim Te incendeia um pouco. (p. 107)

Uma convergência entre a poesia e a psicologia analítica no que diz respeito ao que nos é velado e revelado: mesmo miseráveis os poetas/ os seus versos serão bons/ mesmo porque as notas eram surdas/ quando um Deus sonso e ladrão/ fez das tripas a primeira lira/ que animou todos os sons. A formulação dos arquétipos é descrita como um conceito empírico, como o átomo. Este é um conceito baseado não apenas em evidência médica como em observações de fenômenos míticos, religiosos e literários. Assim, arquétipos são considerados imagens primordiais, produtos espontâneos da psique que não refl etem nenhum processo físico mas estão nele refl etidos. Vale lembrar que as teorias materialistas explicariam a psique como um epifenômeno de estados psíquicos no cérebro. Não há provas para tal hipótese. É, pois, mais razoável considerar a produção psíquica como um fator gerador do que gerado.

Anima_Animus_Shrine[1].jpg A anima é o aspecto feminino da dualidade arquetípica macho/fêmea, cujas projeções no mundo externo podem ser traçadas pelo mito, pela fi losofi a e pela religião. Essa dualidade é representada por símbolos míticos que expressam os imagos dos pais. O poder singular da anima é devido a uma intensa repressão do material inconsciente com respeito aos pais. As imagens arquetípicas são descritas como preexistentes disponíveis e ativas desde o momento do nascimento como possibilidades de idéias que são subseqüentemente elaboradas pelo indivíduo. A imago da anima é vista como muito ativa na infância, projetando qualidades sobre-humanas na mãe antes de afundar no inconsciente sob a infl uência da realidade externa. O conceito de anima é considerado crítico para a compreensão da psicologia masculina. Neste diálogo, em “Noite de Mascarados”, onde homem e mulher se encontram no carnaval, percebese o caráter emotivo da anima no que diz respeito ao amor. O poeta pergunta: Quem é você? O animus responde: Adivinhe se gosta de mim A canção segue contando em forma de conto mítico: Hoje os dois mascarados Procuram os seus namorados / Perguntando assim; Este encontro dos opostos é vivenciado na polaridade masculino-feminino onde o autor expressa o relacionamento psíquico de Eros e o interesse objetivo de Logos. Quem é você, diga logo/Que eu quero saber o seu jogo Que eu quero morrer no seu bloco Que eu quero me arder no seu fogo. Eu sou seresteiro Poeta e cantor O meu tempo inteiro Só zombo do amor Eu tenho um pandeiro Só quero violão Eu nado em dinheiro Não tenho um tostão Fui porta-estandarte Não sei mais dançar Eu, modéstia à parte nasci pra sambar Eu sou tão menina Meu tempo passou Eu sou Colombina Eu sou Pierrot Mas é carnaval Não me diga mais quem é você Amanhã tudo volta ao normal Deixa a festa acabar Deixa o barco correr Deixa o dia raiar Que hoje eu sou Da maneira que você me quer O que você pedir eu lhe dou Seja você quem for Seja o que Deus quiser (p. 46)

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É interessante notar-se que, como em todos contos de fadas tradicionais, o carnaval é uma fantasia criativa, onde tudo é possível, onde o prazer e a ilusão são co-autores de um cenário erótico e onírico. Assim, nessa canção, como em outras canções, o herói consegue “se casar” ou namorar com a heroína e lhe diz: Que hoje eu sou/ Da maneira que você me quer/ Seja você quem for/ Seja o que Deus quiser. Neste momento de encanto e total entrega não estão sujeitos a qualquer regulamento normativo, apenas evocam seus desejos inconscientes que lhes animam. Em “Sem Fantasia” (1967), há mais uma vez a polarização da anima x animus e a evidência de um envolvimento amoroso em que cada arquétipo se manifesta, confi gurando dois momentos de intensa expressividade poética: Vem, meu menino vadio Vem, sem mentir pra você Vem, mas vem sem fantasia Que da noite pro dia Você não vai crescer Vem que eu te quero fraco Vem que eu te quero tolo Vem que eu te quero todo meu Ah! Eu quero te dizer Que o instante de te ver livro_heroi_outubro.indd 70 18/10/2010 14:43:28 71 Custou tanto penar Não vou me arrepender Só vim te convencer Que eu vim pra não morrer De tanto te esperar Eu quero te contar Das chuvas que apanhei Das noites que varei No escuro a te buscar Eu quero te mostrar As marcas que ganhei Nas lutas contra o rei Nas discussões com Deus E agora que cheguei Eu quero a recompensa Eu quero a prenda imensa Dos carinhos teus. (p. 51)

A força compulsiva da anima é projetada na fi - gura da mulher maternal que acolhe, chama, convida “por favor não evites/ meu amor/ meus convites/ minha dor/ meus apelos”. A natureza feminina transborda em carinhos, enquanto o animus surge como um juízo e a busca incessante nas lutas contra o rei/ nas discussões com Deus. Tanto o animus como a anima são mediadores entre o consciente e o inconsciente; quando se personifi cam em fantasias e visões, oferecem oportunidade de compreender qualquer coisa que estava até então inconsciente (Fordham, 1978: 54).

Parece que dizes/ Te amo, Maria/ na fotografi a/ estamos felizes/ Te ligo afobado/ E deixo confi ssões/ No gravador/ Vai ser engraçado/ Se tens um novo amor/ Parece Dezembro de um ano dourado/ parece bolero/ te quero, te quero/ dizer que não quero/ Teus beijos nunca mais (p. 234). A fotografi a, tirada nos “anos dourados”, passado, desencadeia, o surgimento da anima que surge como a companheira-esposa, cerca de trinta anos depois, no presente, lembranças que se alternam românticas, com a valorização do amor enquanto sentimento que se renova pela fotografi a antes guardada na lembrança, torna viva a ação do tempo e a comparação entre presente e passado: Meus olhos molhados/ insanos dezembros/ mas quando eu me lembro/ São anos dourados (Fontes, 1999: 60). A anima encarna valores espirituais pelo que a sua imagem é projetada não só em deusas pagãs mas até na própria Virgem; surge repetidas vezes no mito da deusa, musa inspiradora e/ou Medium como na canção “Beatriz” (1982). “Olha, será que ela é moça Será que ela é triste Será que é o contrário E que nem é direito ninguém recusar E que me faz sentido, me faz suplicar, O que não tem medida, nem nunca terá O que não tem remédio, nem nunca terá O que não tem receita. O mundo da anima representa o elemento Yin abismal, a fonte aborígene da psique, o mundo das “Mães” de Goethe, que já existia no homem anteriormente à experiência de si próprio como um eu, um ego (Whitmont, 1991: 168). A anima representa o eterno feminino – em qualquer um e em todos os seus quatro aspectos possíveis e suas variantes e combinações como Mãe, Hetaira, Amazona e Medium. Também aparece como a deusa da natureza, Dea Natura, e a Grande Deusa da Lua e da Terra que é a mãe, como em “Angélica” (1977) “quem é essa mulher/ que canta sempre este estribilho/ só queria embalar meu fi lho/ que mora na escuridão do mar”

Há diferentes representações da anima que permeiam toda a obra buarquiana em aspectos diferentes da pessoa. Daí a anima surgir em inumeráveis imagens de fi guras femininas encantadoras, assustadoras, amigáveis, úteis ou perigosas.


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