imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

LUZ PRÓPRIA- RESGATE

Urgente—o momento urge movimento. Se eu não for, você vem? Acho que o sonho da gente deve ser aqui no Brasil. A gente até já sabe que é diferente. Aliás, a gente sabe um bocado de coisas. Aprendemos mais cedo que os outros.


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Há raciocínios frustrados, planos sem perspectiva. Morte apática e somática de desejo. Eu recebi um cartão de Sérgio. Está passeando em Londres. Abri as portas, pulei a janela rasguei um montinho de papéis velhos, queimei símbolos. Matei um polícia com a minha euforia. Sérgio me mandou um cartão. Desapontei minha família. Desobedeci a quase todos meus professores- sem medo-sem-erro-sem dúvida. Sérgio quer que eu vá ao seu encontro. Deve estar brincando. Com que dinheiro? E Heloísa sem vontade de conhecer esta Europa decadente, feita para robots e undergrounds imundos dos dias sem tempo.

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A pessoa atrás do vidro. A pessoa atrás do riso a pessoa atrás da pessoa. Heloísa. A pessoa em frente. A pessoa morta sem saber. Outros momentos. Recebi de Sérgio..um cartão. Virão outras horas, e se vierem trarão o mesmo marasmo, a mesma vontade de não ser um envelope verde-amarelo. Respondo. Sem vírgulas, sem hiatos, sem gatos nem ratos. Sem queda. Responderei. Sem barulho. Sem diplomas, sem seminários. Sem dar tratos à bola. Tropeço em mim. Passei. Desta vez sem dormência nas mãos, nem suor. Ihhhhh o cigarro ficou aceso no banheiro. Na cinza dos dias, sem teoria nem estrutura dos dias sem tempo. Os dias dados aos outros com a simplicidade de ser sorriso no meio da balbúrdia. Vitória do dicionário aos tropeções. Mário; “ Está fundado o desvario”. Éluard na bolsa e a liberdade no sorriso. Sérgio-escrevo te nome. Acho que um dia, o papel ficará mais fortemente marcado e o risco de assumir nossos papéis nos chamará feito feitiço para que sejamos como somos, porém mais felizes, menos coitados, maltratados, mal-amados. Estou desarmada. A tarde está fria rei-rainha. Como uma bisnaga quentinha com mortadela. O chá está cheiroso. Sérgio me mandou um cartão e prometeu que íamos viajar pela África como eu sempre quis.

Heloísa anda apaixonada de novo. Seu olhar é lindo. Não quer me contar quem é a figura. Ela e eu. Se não nos abrirmos cortaremos este fluxo vital que nos une pelos mais diversos aromas, pelas ruas até os quatro cantos da praça. Lobos solitários-solidários. Preciso trabalhar as primeiras luzes...sinto o rosto enrubescer o estado de excitação. Acendo-me até incendiar. Quero fogo, fogo de vida. Pelas esquinas, nós somos o perigo feliz, gostoso, saboroso, orgástico, que o horror teme ver. Começo a pensar em ficar triste e volto a sorrir. Feito louca me dispo pela casa. Pela casa entro e saio de mim. Sou um riso de bolso vazio, um riso de desgraça. Uma antítese sorridente porque acredito num sonho e arrisco-me. Ouço no túnel meus primeiros ruídos. Adormeço. Troquei de quarto com Helô. Ela precisa de uma cama maior para os dias em que quiser dormir com seu novo homem. Sem normas ou formas, trocamo-nos. Aproveitei o intervalo para reconquistar com mãos firmes e suaves, minhas próprias mãos. Desmentidamente redescobri meu tesouro natural. Só mesmo tomando riscos é que podemos nos reencontrar. Eles puseram um disco amoroso, tiraram a roupa e vestiram a herança que lhes foi legada. Passei... o jogo não mais existe, nunca fez bem, fiquei pensando porque joguei, se nunca foi este o meu forte, as peças de xadrez e vovô me orientando, as peças sobre a mesa, as hora da janta- venham, a comida vai esfriar. Detesto quando vocês não vêm para a mesa quando eu chamo. Lavaram as mãos? Não quero sopa. Passa a salada? Vocês querem se comportar? Coma. Veja o que fizeram com minha música. Veja o que fizeram com meu cérebro. Os dias têm se misturado com resistência estoica, prefiro assim...sem jogar, sou e somos, fui e fomos, não sei se serei-seremos. Serenos ais. Livre escrevo afastada da chuva fria. É tudo muito parecido: as casas, os casais, os bares, os lares...é tudo muito parecido para ser excitante. Reclamo por vida.

Chega de repetições. Brasil, il, il, il..ou bem se vive com perspectiva, minha filha, ou o quadro é um espelho vivo de miséria e de espanto. O povo é o povo em qualquer lugar da terra e os sistemas em tanto alteraram as pessoas, que o silêncio muito profundo é como um mistério que a gente tem medo de quebrar. Talvez fosse apenas um plano mirabólico, sonhar com uma vida regular, metódica e até quem sabe aquela que me incomoda. É quando o coração em contra às emoções primeiras. A chave da linguagem. Consenti na mudança de quarto, limpei a casa, fiz jantar e perdi a fome. De repente senti outra agulhada forte no peito. Eu e Heloísa. Andei procurando soluções para tudo e esqueci de mim. Cheia de cacoetes disfarçados, farta dos mesmos pensamentos. Basta! Viajarei. Solta no espaço cósmico e por vezes cômico. Se não te moves, como nos reveremos? Paralisada como estás, só mesmo no cemitério, uff. Senti ódio do sol que mexe com tudo...Fecho a casa. Despeço-me de Helô. Ela que continue neste vai e vem que não leva a nada. Ela e seus amores. Imagens recorrentes. E a saída / Que me falta para dar o desfecho? Tudo veio à tona e com uma clareza imensa consegui somar o que tinha para ser somado. Subtraio-me.

Sérgio me escreveu de novo. Gostou da minha resposta. Eu? O fruto virá, diz ele; basta semearmos. Mais plenos. Parece que atravessei de novo. Amor? Não sei, estou confusa porque às vezes não sinto e quando não sinto, penso, dispenso, sub-traio. Heloísa quer que eu me case, tenha um filho, dois, três...Ela é ótima. Minha boca ca-la-da. Torci os ombros em total desconforto- Meus olhos se umedeceram e mais uma vez disfarcei-me. Incoerente na minha contradição esperei minha aflição, beijei Helô e saí correndo. Passei. Não pode continuar assim, porra! Mas, é a verdade pura e crua. Quando te vejo? Não sei. Te amo. Você vem? Cresci tanto que não caibo nos cantos. Até quando? Dezembro. Acho que vou gozar. Aiiiiiii. Quem tá aí? Meu amor, vem, vem, não controle teu gozo, vem....f-e-l-i-z Aproveitando a total falta de assunto, escrevo de novo, após uma semana infernal de silêncio sufocante. Sem casco, o barco navega ao léu, ao gosto puro do vento. Sua proteção está descoberta às estrelas, sua realidade se estraçalhou com o poder do oceano e tripartidamente segue com a fé do cego e do surdo. Há rãs parindo no porão infecto de almas. Lá, os olhos ardem, na imensurável mutação de espumas e ao revolver das águas. O ruído se fez mudo. O túnel atravessa quadros coloridamente sofridos e duramente mastigados. Se a tempestade viesse, seria mais empolgante a viagem. Mas este estado inerte cheira à morte. Não quer seguir, nem trazer aos olhos turvos, o horizonte.

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O momento urge movimento, contudo a porta está trancada. De novo não ouso sair. Lúcida aguardo,. Acorrentada. Se ao menos uma ventania me levasse ao porto, lá consertaria a máquina e no sistema vital de trocas, diminuiria esta ávida procura. O barco balança e arrepia. Que passagem difícil esta que atravessamos. Carência de carência. Algumas gaivotas selvagens e o ronco do motor me levam aos extremos do quasimotor ato de ser, já que cheira à mofo, à lama, à câncer. Tempo nulo. Sem espaço. Acordo. Amanhã e ontem são iguais. Não morri, só porque vejo e prevejo como um profeta, ou uma cigana que uma porta se abrirá e falarei então qualquer língua, nativa, agreste; sinto-me renascer como uma sereia. Ultra-passo. Heloisa acentuou uns pontos comigo. Há uma ansiedade crônica entre nós. Ando com medo deste voo que me determinei a entrar nestes últimos meses. Relutante a cada passo, apresso-me Devagar, devagarinho. Não quero estas emoções desenfreadas. Conversamos. Fico louca para obter minha licença de viver. Heloísa não quer me ouvir. Fala do meu nervosismo toda vez que tentamos um diálogo Reprimo-me e encolho-me feito cobra no asfalto quente. Só não dou o bote.

Aprisiono-me. Deveria ir ver o mar. Qual é o meu nome? Heloisa acende um cigarro e me olha. Fala de inter ferências e projeções paternas. Família é uma coisa a lattere. O lance é ganhar dinheiro. Quero ser muito. É preciso querer muito para ser sublime. Fiquei perdida e pedi desculpas. Brigamos. Quem é você? Meu nome é ninguém. Acordei com a cara inchada de tanto chorar. Disfarço com um pouco de make-up. É chato ir trabalhar assim. Não Sérgio, não quero controlar tudo. Quero você. A nossa vida devia estar sempre arrumada como uma casa que espera uma visita. Nela deveria haver brilho e cheiro. Seu cheiro. Aliás, hoje foi um dia de total desorganização. Dia que importa. Acho que as palavras perdem totalmente seu sentido depois de certo tempo. Queria que a linha que cruza o papel fosse certa, retilínea. A mesma que cruza nossas mentes. Lúcida, procuro os sentidos alertas. Varro o dia. Bato a porta,. Saí da vida intensa, tão plena de vazio. A pessoa sábia não se esforça. O homem ignorante ata-se a si próprio. Se os teus pensamentos estão amarrados, estragas o que é genuíno. Queria não ser tão antagônica ao mundo dos sentidos e poder acordar nua, como Heloísa gosta de acordar. Ela faz este ritual todos os dias e fica me mostrando tudo. Eu raciocino. Sérgio está tão longe..Sou –seremos. Ou será que a gente só consegue ser feliz num dado momento de nossas vidas? Não faz bem alimentar passados. Sérgio me ama. Heloísa não quer amar. Sérgio, e eu? Cada um na sua. Ridículo. Poeira visual. O papel branco é consolo e carinho. É a satisfação maldita de falar a sós em tardias viagens. É poder fazer e estar fazendo. Produzo. Encaro melhor a rua no despertar fortuito pela janela transversal. Corrijo. A correção da minha vida louca. ?Mantive minha promessa. Corro...da curra. Curo-me? Nada é pior que a falta de confiança. Papos. Desânimo. Corações nus animados em perdidas carícias. Alma-fala! Os fios estão expostos, a postos e sua fração é zero. Pelo menos zelo pela máquina humana. Sou?

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Os suores se misturaram e o gozo foi pleno. Nossos cheiros se confundindo sempre, quero mais, você deixa? Já está chegando o dia de me decidir, quero engolir numa boa e não consigo, ando marcando bobeira, diz Helô, sinto-me contudo completamente desamparada e os vacilos se tornaram uma constante ahhhhhh. Em um mês, pois, o peso dos dias, a busca intranquila de trabalho novo somou-se a uma falta total de diálogo. Heloísa tem saído adoidada enquanto tento tomar maior consciência de mim, com lucidez resta o fim do começo. Engulo, resisto e não procuro saídas forçadas. Não entra em pânico, se acalma, se abre comigo. Só ando ao contrário, num contato próximo e visível de corpos que se confundem num coletivo colérico, egoísta e desorientado. Pondero. A análise cotidiana e um tanto monástica se tornou hábito imprescindível para ir levando. Nesta conformação estão muitas cabeças ingênuas entrando em contínuo desvario, alienatória alucinantemente, sem rumo. Simples reações cheias de defesa exasperantes inseguranças, entregues às baratas, aos ratos,. Aos morcegos estão as gerações do futuro. Parei de querer entender tudo. Parei a tempo antes que me tornasse um nuvem mitológica sem nem haver morrido. Ou será que minha morte é o preço?

Você quer andar? ( no fundo não). Mas fomos de mãos dadas pelas pedras milenares, contando-me que outros mil casais passearam sobre elas. Aí, vou cair. Continua o receio, porém a poesia percorre nossa ideia e intimamente nos tocamos de uma ternura sem palavras. A cabeça se protege nos ombros fortes. Os braços se entrecruzam, porque era, está sendo ainda. Amanhece a toda hora. Parece que nunca vai parar de amanhecer. O sol reflete forte, dourando tudo, tudo mesmo; onde quer que eu esteja estou falando com você, e sempre acaba, quando eu olho e você não está lá..como te dizer que te amo? /Este gosto de brisa feito festa no rosto, festa de sal, na carícia atemporal: é este o segredo do amor original. Suas mãos habilmente masculinas, agora, de novo, continuará no estímulo dos voos? Dois voos altos, matando restrições e ideias malditas até alcançarmos o invisível amanhã. Passamos. Impossível fugir para o sul, leste ou faroeste, já que a noite sempre acompanha o dia, a natureza canta sua canção e nos entregamos à harmonia, à mudança fascinante destes ciclos tão bem desenhados, tão amarelo-foscos, infinitamente azuis.

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