imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

ACORDES FELINOS

O momento feminino de aprender com os gatos a não morrer a toda hora. Sentir de uma mulher o seu miado vindo dos gatos que lhe lambem os dedos e encostam seu pelo quente por entre os cantos da casa. O tempo dos acordes felinos a elevar a alma hasta la eternidade.


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De mim sei o que sinto. De mim pressinto cores, vozes e horrores. Atos de violência se espalham na casa. Cadê você? E você nem está aí. Se está é um mudo. Fico prostrada na porta. Viro esfinge para não berrar. Choro por dentro um choro seco e ferido. Apresento-lhe então meu gato, um de quatro. E te mando embora para que voce não me mate.

A espiritualidade dos gatos me eleva e transcendo todo o mal. sou uma pata, um focinho e dosi olhos azuis. Confundo-me com o instinto felino e deixo o devaneio me invadir. A solidão tem destas coisas. Havia me esquecido do corredor e parece que fiquei lá mesmo, naquele corredor frio e sem fim. Estava só porque sempre fora só. Mas, o frio/ em cada passo, ouvia minhas botas e quando o frio parecia mais longo que a morte, tomava uma talagada de uísque, como quem mama. Só no dia seguinte saberia o quanto tinha andado. Eu queria viver, mas o corredor que era maior. Caminho só de mãos dadas comigo,os olhos miram o nada.

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A fantasia proveniente do real/ da carência do real nos leva a um céu cintilante e perfumado onde começamos a delirar sobre o feio e o belo de pessoas que nem existem. For heaven’s sake...I don’t know how to abstract myself so much. It’s been a very tough and challenging time. Sempre. Tudo mal. À flor da pele rasgada, irritada de dor. Sequei. Seco choro sem cheiro de nada. Mas, você deveria estar contente...eu? hahhhhh não encontro saída. Antes havia esta presença. Já não há. É o sangue das almas inundando o tempo/ das almas/ do tempo...contudo sem medo, sem ira, insisto em romper o véu da fantasia. Misturar com muita sensibilidade todas as gotas de diferentes flores e perfumar estas almas, inclusive a minha alma perdidamente morta, não sei porque.

De mim para acabar logo com isso, sou palavra. Palavra solta na imagem. De mim o que quero é nunca ser fragmento. Lamento muito se a estória vira e volta como um carrossel. Foi em Londres que eu conheci Domenico. Foi em Londres que nos amamos, incansavelmente. Foi em Londres também que quase morri. Por isso mesmo, de mim, o que sei é o que sinto. Flores roxas nos caminhos, dias cinzentos e estradas vazias. Muito caminho e poucas conversas. De mim, sei da dor da agonia miserável do fim- acidente. Eu me tornara um gato. eu me tornara o que nunca consegui na vida real. Os gatos não iriam ao meu funeral. Mas estavam presentes no sofa´no aconchego, no miado mais triste do entardecer. Filhotes. Bambinos. Quatro gatos e uma harpa. Os pulos e a alegria felina aqueceram por tempo indeterminado minha louca vontade de sair pela janela.

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O impossível caminho que traço é de sonho. Não se fala a mesma língua. Mais ainda nada é certinho, palpável, arrumadinho. Mentira. Tudo é inconsciente e bruxo. Tudo é muito o que não temos consciência. Dia de sol ou não. Agendados ou não. Somos todos parte de um sonho. Segure a vida com as mãos e atravesse-a a cavalo. De preferência galope. Por quê? Porque vale à pena e é gostoso demais. No sonho que caminho há muita água e todas as imagens que me invadem são intensas: o quarteirão, o escritório, canetas Bic, bolsas bagunçadas, risos, olhares estranhos. Sustos. Por quem sou eu se não o Eu que outros apresentam a mim? O espelho como objeto de auto-confrontação me lembra as imagens justapostas de um suposto vir a ser....Encontrava a minha identidade.

A tarde cinzenta escondia minha timidez. Foi o vinho que me deixou vermelha. Foi esta a nossa primeira fotografia- sentados na mesa de um bar. «A primeira coca cola me lembro ainda nas asas da Panair.» Domenico e sua insegurança sábia, seu gênio fascinante, sua veracidade. Eu busquei você por tantos anos, e só agora você me aparece, com sua música encantada, seu mistério reticente. Fui fundo. Chamei-te e você ficou. Meus gatos, chaves, casa, cama, silêncio. Não era o que eu mais queria. Eram tão somente meus quatro gatos e movimentos invisiveis de quem não morrera, todavia. Gatos, lambidas e cheiros, miados em sinfonia. O tempo do misterio. O tempo felino de olhares azuis para a eternidade.

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