imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

PALAVRAS E IMAGENS- A ARTE DE AMAR

Em uma escola secundária, começa uma guerra entre dois professores: Jack Marcus, escritor de sucesso e professor de literatura, e Dina Delsanto, pintora e professora de artes plásticas. Enquanto ele acredita que as palavras são mais importantes do que as imagens, ela afirma a supremacia das fotos e dos quadros. À medida que o embate dos dois se transforma em romance, os alunos tentam descobrir qual linguagem é mais importante.


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Nesta comédia romântica, Fred Schepisi, australiano, questiona o valor da palavra em oposição à imagem através do encontro de Jack é um professor de inglês e literatura excelente, que vem se prejudicando por causa do alcoolismo. Sua vida profissional está em risco por causa da bebida em excesso e de uma certa displicência que o leva a um alerta da escola. Neste momento crucial, prestes a ser demitido, chega à escola a nova professora de Artes,Del Santo. Ela sofre de artrite, é estóica, lutadora e solitária. Tem um animus forte e autoritário. é pela sua personalidade que Jack vai aos poucos se apaixonando. Aqui tem-se a junção de força do amor através dos signos e de sua presença na imagem. Ambos se comungam. Ambos se unem e escapam do isolamento e da solidão.

Pode-se afi rmar que o signo é arbitrário, tendo a sua construção um lugar contextual simétrico com a ordem simbólica e a realidade empírica. A relação entre os elementos constitutivos do signo tem a função estruturante do signifi cante e a presença estruturada do significado e, nesta, ou se marcará o lugar de suporte indicador de contextualidade simbólica e descontinuidade empírica ou, pelo ntrário, marcar-se-á a referencialidade empírica como sinonímia de contextualidade. O inconsciente é estruturado como linguagem e nesta há uma arbitrariedade que é condição de produção. No caso do registro real (lugar que o discurso oferece como verdade), o imaginário se constrói, lendo-o nas suas ausências, registrando-as em outro nível. No discurso literário, o imaginário pode representar a recuperação do sentido simbólico da representatividade, reafi rmando a função do significante, apagada da cena final. f251675e-fa4d-4f71-9fad-78d754107975.jpg

Os termos implicados no signo lingüístico são psíquicos e estão unidos em nosso cérebro, por um vínculo de associação. O signo lingüístico une um conceito a uma imagem acústica, que é uma impressão psíquica do som. O conceito psíquico das imagens acústicas são reveladas na própria linguagem. O signo lingüistico é, pois, uma entidade psíquica de duas faces, representada pela imagem acústica e o conceito. Conceito e imagem acústica estão unidos e um complementa o outro, sendo aceitos os termos de uma palavra numa língua determinada. O termo signo se insere numa série de termos diferentes: sinal, índice, ícone, egoria. Todos les remetem a uma relação entre dois elementos. Signo é, então, a combinação do conceito e da imagem acústica. O signo designa o total, substitui o conceito e imagem acústica por signifi cado e significante interelacionados. Para Jung, o símbolo é existencial e serve para duas funções diferentes, com uma representação psíquica que transcende a relação imotivada do signo. Saussure eliminou o símbolo porque este implica uma idéia de motivação (Barthes, 1974: 42). O que se pretende provar como hipótese deste artigo é a convergência entre o conceito junguiano de arquétipo (do grego = cunhagem original) que representa padrões da natureza humana e a representação mental anterior ao conceito de signo lingüístico. Tanto o arquétipo como a representação mental ou imagem têm uma natureza pura e intocável. Os arquétipos são herdados como disposições representáveis do inconsciente,as constantes intemporais da natureza humana. Por outro lado, as combinações que criam (imagens e idéias arquetípicas) são formadas novamente em cada vida individual como variantes temporalmente condicionadas do motivo intemporal (Jaffé, 1995: 20).

qnlJYepU3KRTzKUYhSz0xQpqFI2[1].jpg O inconsciente pessoal conceitua estas imagens pela linguagem criativa que ouve sua vida interior e sai em busca de um sentido. Daí o símbolo e o signo serem arbitrários e lineares. O laço que une o significante e o significado é arbitrário, ou seja, o signo é a associação de um signifi cante com um signifi cado, logo, o signo é arbitrário, assim como o símbolo. Por exemplo, a ideia de mar não possui uma relação maior à seqüência de sons m-a-r que lhe serve do signifi cante; poderia bem ser representada por outra seqüência qualquer estipulada, como tal ocorre com as diferentes línguas onde o signifi cado de uma palavra pode ser diferente em diferentes lugares. Entretanto, a idéia de mar preexiste no inconsciente coletivo como herança arquetípica. Exemplo: boeuf (francês) signifi ca bõf na fronteira franco germânica. A palavra boi (português) nos remete à idéia inconsciente do animal. Logo, a lingüística segue um paradigma para um estudo semiológico, enquanto a psicologia analítica conceitua a manifestação do arquétipo como uma formação de variantes que dependem do ambiente, da experiência pessoal e da cultura considerada. O símbolo não é completamente arbitrário, existe um vínculo natural entre o signifi cante e o signifi cado. A balança que simboliza a justiça não poderia ser trocada por uma geladeira. A palavra arbitrário não deve dar a idéia de que o signifi cado (conceito) dependa da livre escolha, pois um indivíduo não pode mudar coisa alguma de um signo lingüístico. Logo, o significante (imagem acústica) é arbitrário em relação ao signifi cado, com o qual não tem nenhum laço natural na realidade. Mas, o signifi cado não é totalmente arbitrário em relação ao signo. O signifi cado é uma representação psíquica da “coisa”. Saussure notou bem a natureza psíquica do signifi cado ao denominá-lo conceito. Por exemplo: o signifi cado da palavra boi não é o animal boi, mas sua imagem psíquica (Barthes, 1974: 46).

A análise estrutural confirma que a linguagem contém a imagem e ordena o inconsciente através dos signos e sua arbitrariedade. A imagem é a imitação de uma forma; semelhança. Aquilo que imita ou representa pessoa ou coisa. Impressão de um objeto no espírito, reprodução na memória, símbolo e reprodução, no espírito, de uma sensação, na ausência da causa que a produziu.

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É fundamental saber que a imagem acústica não se confunde com o som, pois ela é, assim como o conceito, de natureza psíquica e não física. Ela é a imagem que fazemos do som em nosso cérebro. O laço que liga o signifi cante ao signifi cado é arbitrário, convencional e imotivado, sendo o sistema lingüístico formado de unidades abstratas e convencionais. É através da relação de diferença que os signos irão constituir o sistema da língua. Um signo tem sempre relação com o outro que ele não é. Da mesma forma a expressão artística do arquétipo é interpretada pelos símbolos a que se remetem. Esse caráter aparece imediatamente quando o representamos pela escrita e substituímos a sucessão do tempo pela linha espacial dos signos gráfi cos. Se, com relação à idéia que representa, o signifi cante (imagem acústica) é escolhido livremente (de modo arbitrário), em compensação, em relação à comunidade lingüística que o emprega, ele não é livre: é imposto. O signo é imposto pela língua. A língua é sempre uma herança da época precedente. Ela é um produto de fatores históricos que explicam o porquê do signo ser imutável e resistente a toda substituição. O fator histórico da transmissão impede uma transformação lingüística geral e repentina.


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