imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

QUEM É VOCÊ?

Eu me reconheço como ser individual, separado, e começo a trilhar rumo à integração. Busco retornar ao lar, `a consciência una e não rompida. Mas para isso preciso reconhecer todos caquinhos dessa consciência como meus semelhantes,, considerando as parcialidades não como erradas, mas como perspectivas diversas, verdadeiras, mas parciais.


imagesCARHT5EU.jpgimagesCADLA0FY.jpg Eu sou poeta, mas poderia ser atleta para rimar. Eu sou o que não fala. Eu sou a vela do barco solta ao vento. Eu sou o último e o primeiro. Salvação. Escuta. Sou mais um na multidão, inconsciente coletivo expresso em todas as imagens que registro. eu sou a falta e o excesso. Quando se vive em uma sociedade onde toda e qualquer falta é preenchida pelo consumo de objetos que não completam e vão sendo compulsivamente substituídos por outros objetos de desejo. A identidade é prejudicada. Você esquece quem é você. Sua essência desaparece na angústia existencial de ignorar o futuro e anestesiar o presente.

A razão desta fragmentação foi a perda da espiritualidade transcendente. Deus, na realidade, formou uma imagem sua, ao mesmo tempo incrivelmente esplêndida e sinistramente contraditória, sem a ajuda do homem, e a implantou no inconsciente do homem como um arquétipo, de acordo com Jung, não para que os teólogos de todos os tempos e de todas as religiões se degladiassem por causa dela, mas sim para que o homem despretensioso pudesse olhar, no silêncio de sua alma, para dentro desta imagem que lhe é aparentada, construída com a substância de sua própria psique, encerrando tudo quanto ele viesse, um dia, a imaginar a respeito de seus deuses e das raízes de sua própria psique. Este ponto central é o -mesmo (Selbst). Intelectualmente, ele não passa de um conceito psicológico, de uma construção que serve para exprimir o incognoscível que, obviamente, ultrapassa os limites da nossa capacidade de compreender. O si-mesmo também pode ser chamado “o Deus em nós”. Os primórdios de toda nossa vida psíquica parecem surgir inextricavelmente deste ponto e as metas mais altas e derradeiras parecem dirigir-se para ele. Tal paradoxo é inevitável como sempre que tentamos definir o que ultrapassa os limites de nossa compreensão.

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O processo de individuação tem dois aspectos fundamentais: por um lado, é um processo interior e subjetivo de integração, por outro, é um processo objetivo de relação com o outro, tão indispensável quanto o primeiro. Um não pode existir sem o outro, muito embora seja ora um, ora o outro desses aspectos que prevaleça. Há dois perigos típicos inerentes a esse duplo aspecto: um, é que o sujeito se sirva das possibilidades de desenvolvimento espiritual oferecidas pelo co nfronto com o inconsciente, para esquivarse de certos compromissos humanos mais profundos e afetar uma “espiritualidade” que não resiste à crítica moral; o outro, consiste na preponderância excessiva das tendências atávicas, rebaixando a relação a um nível primitivo. O caminho estreito entre “Esquila e Caribdis”, para cujo conhecimento a mística cristã medieval e a alquimia tanto contribuíram, passa por aí. Como o termo “religião”, não me refiro a uma determinada profissão de fé religiosa. A verdade, porém, é que toda confissão religiosa, por um lado, se funda originalmente na experiência do numinoso, e, por outro, na pistis, na fidelidade (lealdade), na fé e na confiança em relação a uma determinada experiência de caráter numinoso e na mudança de consciência que daí resulta, possibilitando-me saber quem sou eu, inteiro, mortal e humano.

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