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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

último tango em paris - tradição e ruptura

Último Tango em Paris (italiano: Ultimo Tango a Parigi; francês: Le Dernier Tango à Paris) é um drama erótico franco-italiano de 1972 gravado em 35 mm,dirigido por Bernardo Bertolucci e estrelado por Marlon Brando e a então desconhecida Maria Schneider. Considerado uma obra-prima cinematográfica e um sucesso de bilheteria mundial, pelo sexo explícito e a busca incessante dos corpos até o caos emocional levaram a uma grande polêmica e uma ruptura em relação à tradicional família burguesa internacional.


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Último Tango em Paris dirigido por Bernardo Bertolucci em 1972 relata o romance clandestino entre um americano ( Marlon Brando), cuja esposa acaba de cometer suicídio com uma jovem (Maria Schneider) em um apartamento vazio em Paris.

Paul, de quarenta e cinco anos, chora o luto de sua mulher que acaba de suicidar-se. Jean é americano e mora em uma edifício sinistro que serve de bordel. Sua ex-mulher, Rosa era dona do bordel. Confuso e perdido, vai procurar um apartamento para ficar. Lá se dá o encontro com a bela Jeanne que busca um lugar para alugar pois vai casar-se. Ela , nos seus 18 anos namora um rapaz e que sonha com um casamento tradiconal. São bem imaturos. Ele é cineasta novato, nervoso e inseguro.

Ao conhecer John no apartamento, Jeanne não resiste ao assédio transgressor e transam em pé. Ele praticamente a violenta, mas ela permite e goza. Silêncio profundo perpassa todas as sequências. O apartamento é destacado pelo seu vazio amarelo seco, sem vida. Os amantes tentam aí, buscar preencher seu vazio existencial. É um lugar onde as instituições não chegam, onde não há coerção. O sexo é a expressão máxima da vontade e explode com total naturalidade em uma série de cenas em que os amantes vão tendo intimidade e se desnudam. Por outro lado, há uma gradual aproximação, com momentos de carícia intercalados com perguntas soltas, como: " Você acha que sou uma meretriz"? A qual ele responde? " Não. Você é uma menina burguesa e obediente."

dernier-tangoaparis72.jpg Por outro lado, o apartamento não é um lugar feliz. Parece que os personagens retornam sempre pra lá em busca de algo que não encontram – e de fato, eles acabam se prendendo a este lugar de modo obsessivo. Em busca de si próprios no silêncio e nas pausas. Último Tango é uma obra de arte tanto na narrativa como nos cenários perfeitos em cada detalhe. O filme rompe com os padrões de cinema na estética e na metalinguagem de um filme dentro do filme. A relação de Paul e Jeanne é alienada da história que acontece concomitante aos encontros inevitáveis dos amantes. O sexo os alimenta. E nada de nomes, diz Paul. Lá fora, Paul tem o fantasma da mulher suicida e a tragédia ainda está em carne viva, obrigando-o a buscar Eros em oposição a Tânatos.

O apartamento é um espaço metafórico onde o vazio predomina. A arte poética constrói a narrativa através da polaridade entre o imaginário sem qualquer referência dos amantes e a realidade da rua, com suas identidades, imposições burguesas, barulho,o cotidiano e suas normas. Ali é proibido nomes. Paul e Jeanne são criaturas que eroticamente se envolvem, brigam, brincam, fogem dentro de uma dança representada pela sensualidade do tango no final. Dentro de um olhar mais demorado, percebe-se o lado Tânatos, a morte ainda presente em Paul, que sofre o luto da falecida, e o lado Eros da mulher jovem buscando uma aventura através da transgressão.

lasttango01.jpg Todas as cenas de sexo são tórridas e imprevisíveis. Ao fazerem sexo,estão ousando uma entrega sem limites. O contrário do sexo romântico dos casamentos tradicionais. Jeanne, moça típica dos anos 60-70 em Paris, questiona seus valores e mente para o noivo. Ela gosta da brincadeira. Ela goza um momento da vida na qual desobedecer e fazer sexo estava se tornando um movimento femininista. Foram anos de revolução, da guerra do Vietnan, da procura intensa em mudar a sociedade burguesa e sua hipocrisia. Há um hiato, de onde surge a ruptura. Os amantes tornam o silêncio sua arma e aos poucos a fala surge do nada. Falas sem uma composição, pois que apenas dão forma aos personagens. Paul silencia Jeanne por não querer revelar sua identidade. Não quer ser romântico.

Lá fora, eles ganham nome. Jeanne tem um noivo (Jean-Pierre Léaud), um noivo que quer transformar o amor deles em cinema. O que talvez seja a metáfora mais completa que alguém já tenha encontrado para expressar a artificialidade dos relacionamentos – pelo menos dos relacionamentos convencionais, aqueles que se passam “do lado de fora”. Ouvimos sempre falar na brutal diferença que distancia um beijo cinematográfico de um beijo real.

Ao fazer/lançar o filme, Bertolucci se envolve com questões delicadas acerca de uma sociedade burguesa cristã onde os valores são criticados pelo mesmo, criando enunciados diversos que são sustentados por sua maneira característica de compreender e criticar a sociedade da época, uma sociedade francesa em plena articulação de novos pensamentos nos anos 60-70 que faz emergir temas como o feminismo e independência de colônias francesas. Paul: “Vamos nos olhar.”, Jeanne: “É lindo não saber de nada. Talvez... Talvez nós possamos gozar sem nos tocar.”, há, aqui, uma abertura para um sexo que transcende, que não precisa de toques, como numa espécie de sexo tântrico, porém, sem sucesso, os dois acabam fazendo graça da situação. Vê-se a possibilidade de um discurso que levaria para o emocional, mas ele é logo descartado, sendo zombado como algo ridículo.

Bertolucci, rompe com paradigmas e desmitifica temas polêmicos como o do suicídio e o sexo por puro prazer, sem barreiras nem convenções. e mostra uma jovem que busca ser livre, mas é uma tentativa frustrada, já que recua no final.

O objetivo deste artigo, portanto, é o de compreender como o silêncio é matéria significante e como sua política ganha espaço no filme.

Em Último Tango em Paris a censura, como manifestação linguística, traz à tona a relação de força exercida por Paul ao obrigar Jeanne a falar só o estabelecido por meio do calar, do censurar certos assuntos, assuntos esses que pudessem ter qualquer relação com o pessoal, com a vida privada de cada um deles.

Jeanne então começa a afirmar várias vezes que está apaixonada, conta que ‘eles’ fazem amor e Paul questiona se ‘ele’ fode bem (silencia o discurso do amor romântico com o do sexo por prazer), sendo dito que é magnífico. Ele a considera uma besta e diz que a sua melhor foda está ali naquele apartamento. Ela diz que ‘ele’ é cheio de mistérios, sendo outra vez refutada com o fato de os maiores mistérios que terá na vida estarem ali; Paul começa um monólogo sobre como é impossível encontrar um homem que dará a ela todas as coisas que almeja, como proteção, carinho, segurança e que mais tarde esse homem faria dele mesmo um altar, tendo ela que adorar o seu pênis, por fim afirma que tudo parece besteira, chama tudo de baboseira romântica e fala sobre a morte, sobre encontrar/enfrentar de fato seus medos e que daí talvez ela encontre “o homem certo”. Jeanne então revela: “[...]Ele é você. Você é esse homem.”

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O fato de ela ter trazido à tona o discurso do amor, do emocional, num envolvimento com ele (Paul) por estar apaixonada, apesar de toda a censura a respeito disso, faz com que a ruptura aconteça.

Ele fala que é a chance deles no ‘campeonato’ (na sociedade com uma vida regrada e "normal"/burguesa), que agora irão até o final, e afirma amá-la dizendo querer saber o nome dela. Jeanne, sentindo-se invadida com a presença daquele ‘estranho’ em sua intimidade, dá-lhe um tiro na barriga. Paul morre na sacada em posição fetal. Jeanne fica repetindo para si mesma que não o conhece, que é um louco, que ele tentou violentá-la, que ela nem mesmo sabe seu nome – por fim, a censura, o silenciamento tantas vezes imposto ganha lugar dentro dela e finalizando com a a negação do que sentiu pelo proibido, desconhecido, o não-envolvimento, o não-saber. A morte vem fechar a narrativa anunciada desde o início.

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