imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

VOCÊ SUPORTA O SILÊNCIO?

Como você lida com o silêncio? O silêncio pesado da saudade, o silêncio cheio de fantasmas, o silêncio místico e o silêncio fundador das linguagem com formas e imagens. Cada silêncio pede para ser visto até tornar-se sentido e espaço diferencial da significação.


images (7).jpg Se a linguagem implica silêncio, este, por sua vez, é o não-dito do interior da linguagem. O silêncio existe nas palavras e dá espaço de recuo para produzir as condições de significar. Há o silêncio constitutivo, o que indica que para dizer é preciso nã-dizer; o silêncio local, que diz respeito à censura do que é proibido dizer em determinado contexto.

A reflexão sobre o silêncio nos leva à análise do discurso, pois através dela percebemos os efeitos contraditórios da produção dos sentidos na relação entre o dizer e o nã-dizer. Ainda que falemos com palavras que já têm sentidos, estes chegam a qualquer lugar, se movem e se desdobram. A palavra imprime-se no contínuo significante do silêncio e ela o marca, o segmenta e o distingue em sentidos discretos, constituindo um tempo no movimento contínuo dos sentidos no silêncio, supondo o movimento entre sentido e linguagem. Assim como a palavra é múltipla, o silêncio também o é. Tem-se o discurso religioso no seu silêncio, com a onipotência do silêncio divino. Depois, o silenciamento político que toma a palavra, obriga a dizer, faz calar. O silêncio é fundante, sendfo o real do discurso. Nessa mesma direção, coloca-se o império verbal e traduz o silêncio como linguagem. Estar em silêncio , ponde se percebe o silêncio como o estado primeiro. O silêncio significa. A fala organiza o silêncio por estar voltada para a unicidade. Por não ser observável, o silêncio passa pelas palavras de modo fugaz. Já que não se pode observá-lo, usaei a metáfora do mar e do eco.Em ambos há um movimento que retorna. O mar por ser disperso, profundo, imóvel em seu movimento monótono, do qual as ondas são a imagem. Como no mar, é na profundidade, no silêncio, que está o real do sentido. Estar em silêncio é estar em tranquilidade. Silentium, mar profundo com seu aspecto fluido e líquido. Em nosso imaginário o silêncio é subalterno, dando-se lugar à ideologia da comunicação, com a urgência do dizer e de tantas linguagens a que somos submetidos. Por isto, a pergunta: você suporta o silêncio? É preciso não cair na mística do silêncio igual à morte. Para isso, busca-se um signbificado no silêncio.Mesmo não observável, o silêncio está aí. Ele não é vazio. Está no sorriso da Giocanda, no amarelo de Van Gogh, nas pausas.

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Ao pensar o silêncio percebe-se a completude. Pensar o silêncio é pensar a relação com o outro nos limites da dialogia. Por sua relação com o silêncio, o ser humano se remete à continuidade, à contradição, à ruptura, ao absoluto e à indistinção. O silêncio tem uma existência efêmera porque o ser humano não o suporta, tendo uma certa duração nas condições em que se produz. Este silêncio está presente na constituição do sentido e do sujeito da linguagem. Portanto, o silêncio não é o vazio, o sem-sentido; ao contrário, ele é o indício de uma totalidade significativa que não existiria sem ele que nos leva a compreender a linguagem como um horizonte.

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