imagens e palavras

REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

SEM MEDO DE VOAR

Talvez fosse apenas um plano mirabólico, sonhar com uma vida regular, metódica e até quem sabe aquela que me incomoda. É quando o coração encontra as emoções primeiras. A chave da linguagem.


009.jpg

Encontrei um hotel barato perto do centro da cidade. Os pedestres caminham a 40 graus sentidos. Agarro a vida nas mãos e não me ofendo com nada. A cidade grande não combina comigo. Calamidades públicas acontecendo a toda hora nestes inconscientes coletivos. Tenho medo de recuar. Consegui ingressos para um grande baile carnavalesco. Liguei para papai desejando Feliz Ano Novo. Todos bem? Sergio chega semana que vem. Por que vocês não não vêm para cá passar uns dias conosco? Sim. Não. Talvez. Te amo muito, cuida...Se eu conseguisse apenas usar o corpo e esquecer as amarguras na água não ficaria tão descontente com esta falta de ânimo por tudo que tenho visto no Rio. Será que isto é vida?

Assim se passou a semana. Estou ficando desconfiadíssima com este meu jeito crítico. É esquisito o não querer. Esses sentimentos todos, me são estranhos e se transformam num turbilhão. Que semana atropelada em observações as mais diversas. Somos humanos, apenas humanos. É muito estranho quando o silêncio baixa. Tenho aqui ao meu lado, um quadro estático. Estou no restaurante do hotel.São quatro homens que não se comunicam em nada. Suas fisionomias sem expressão de vida. Era bom poder fotografá-los. Um quadro morno e pesado. Chega a dar sono. Na outra ponta, um homem sozinho conversa com o garçom que o acompanha com a cabeça. Assim o som do silêncio é apenas cortado pela máquina de gelar. O cheiro do verão penetra nas narinas. Lá fora um sol regular começa a ir embora. Anoitece. Vou. Vai? Vem. Ahhh.

namorado-apaixonado[1].jpg

Até que um vai e vem seria ótimo se não houvesse empecilhos próprios de quem vacila entre o gozo e o mal estar. Se pensamento valesse, já trepei com você, seduzindo-o mansamente. Gosto dos seus olhos e do seu sorriso. Abro-me. Escancaro. Mas o quadro permanece semi-morto. Saio. A gente precisa saber distinguir-se. Não sei de onde vem tanta raiva. É um sentimento tão pesado e também reprimidíssimo. Vem, me diz de mais carinho. Vem. Me põe no colo e me conta aquelas histórias sem idade. Vamos pra cama, contra o horror que se faz aos nossos olhos, confuso e cinzento. Vamos trabalharmo-nos. Não é estranho mudar de posição no chão, na mesa, na cama, na rua. O que é estranho é deixar-se imobilizar pelo passado tão remoído. É intolerável. Receio não aguentar o impacto. Não trema. Entregue-se à vida com brilho e luz própria...Namore-se. Está de férias? Curta-se. Quanto policiamento..meu deus..Preciso trepar com a vida e abandonar a frágil ideia de morte em algum desses quartos.A história de sonhos começa aqui. Sem medo de voar, embarco em todos saltos mágicos na tarde azul. Sergio chega amanhã e será exatamente o dia do baile de carnaval. Tremo de prazer e me solto frouxa na cama com os olhos abertos de alegria. Está chegando a hora marcada...Cara semi séria. Óculos escuros. Dê asas ao seu desejo...Que asas? Não sou nenhum pássaro...que expressão mais ridícula...no banheiro suspendo o cabelo. Solto. Não está mal assim...cheiro as axilas, ajeito a blusa. Simulo um sorriso entre os dentes e saio. Sergio está ali e num abraço sonoro e colorido vamos nos dizendo tudo até chegarmos ao hotel. Você sabe, você está muito bonita, muito mais.. Tem mais sardas nos ombros. É o sol de Parati, não é? Isto tudo faz somente uma existência inteira. As pessoas mudam de expressão, se enfeitam e as ruas se iluminam. Você faz parte deste universo novo. Gosto de vê-lo. É muito excitante. Gozamos. Você não dorme? Estou muito feliz. Quero saber mais, me conta tudo. Ahh..o filme foi premiado? Que ótimo. E a escola? E as crianças? Você está satisfeita? Sempre calada... As luzes e os fantasmas da solidão. Se desfazem e se multiplicam. Me espera. Quanto tempo você quiser. Ahhh assim. Que calor no rosto cheio de imagens. Os carros deixam sombras nas paredes e mergulhamos nelas aquecidos pelo desejo. Vamos ao baile? Sem máscaras . Vamos nus.

buemos aires 057.jpg

Descobrimos um caminho. Os pobres passando na chuva, esperando embaixo das marquises e um maldito mal estar escorrendo no asfalto. Não sei de onde vem a coragem de ir-se compondo uma pessoa inteira. Abraçados. A força que cada palavra contém é indizível. Todos os problemas mal engolidos se desfazem na saliva. É surpreendente caminharmos assim, tão inteiros e intermináveis. Foi a procura de vida que nos fez reencontrarmo-nos e há uma viagem na recomposição da paz natural- não uma paz teleguiada e televisiva. Estado de graça. A energia flui com maior fulgor. O muro não diz nada. Deve-se saber construir os muros e destruí-los convenientemente. O pensar se refaz íntimo e intenso. Heloísa nasce aqui. Constrói as peças devagarinho dentro de sua feminilidade. Sergio é e não é seu próprio sonho. Sonham-se no meio da música, dos cheiros de lança, dos corpos suados em plena dança. Somem. Somam-se ao todo definidos por um foco de luz intenso. Você me conhece? Os apelos se repetem rítmicos e sólidos. Não há volta. A história começa agora. Abrimos a porta e saímos sem fantasia, porém inundados de sonhos para a vida que nos convida amiga: venham.

images (3).jpg


version 1/s/literatura// //Fernanda Villas Boas