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REFLEXÕES SOBRE LITERATURA E CINEMA

Fernanda Villas Boas

A SEREIA DO MISSISSIPI

Depois de um namoro por correspondência, Louis Mahé ( Jean Paul Belmondo), dono de uma fazenda e de uma fábrica de tabaco na Ilha da Reunião, África, se casa com Julie Roussel( Catherine Deneuve), mesmo ela não parecendo com a foto que lhe mandou antes. Ele não sabe, mas Julie está envolvida num caso de uma mulher que foi assassinada, no passado, em circunstâncias misteriosas. Esse fato e o amor de ambos mudará a vida de Louis completamente, fazendo-o se aproximar cada vez mais da ruína e da morte.


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“Não posso dizer que sou feliz com ela. O que sei é que não posso viver sem ela.” A frase de Louis Mahé, resume a tônica de A Sereia do Mississipi, um thriller em que a paixão obcecada de um homem por uma mulher extrapola os limites da razão e do romantismo, em que os dois nunca podem ficar separados, mesmo que para isso possam morrer.

O filme de François Truffaut, com claras referências aos seus dois cineastas favoritos, Alfred Hitchcock e Jean Renoir, hoje é tido como uma obra prima. Realmente, é difícil arranjar algum argumento que deponha contra Julie/Marion de Deneuve . Ela lembra as ambíguas Madeleine/Judy de Kim Novak em Um Corpo que Cai (1958) e a personagem homônima de Tippie Hendren em Marnie: Confissões de uma Ladra (1963), outros dois grandes filmes de Hitchcock. Ela tem uma moral distorcida por privações do passado e conta seu passado ao marido, quando se revêem depois de tê-lo roubado tudo. Há dois tempos do casal. No começo, quando Louis é ingêneuo aristocrata da Ilha da Reunião e com uma vida rica materialmente, porém sem emoções. No segundo tempo, há um reencontro no sul da França, Marseille, quando Louis descobre a verdade sobre Marion, ex bandida, mulher sofrida na infância que adora dinheiro para c0ompensar seua vazio. É uma mulher sensual que usa os homens para seu deleite. Com uma total paixão, Loius quer esta mulher a qualquer preço.

Ecran_La_sirene_du_Mississipi_i19.jpg Ela é exatamente seu oposto. É o animus do poder, ele tem a anima de poeta romântico, capaz de morrer por seu amor. Nesta época, em que o filme foi produzido, o mundo estava exatamente questionando o amor romântico e Truffaut resgata-o de uma forma mesclada ao suspense e à uma vida livre dos padrões sociais, o que é uma marca em seus filmes arrebatadores, líricos e rebeldes. zzsirene3-1024x435.jpg

Como em todos seus filmes, Truffaut persegue a transgressão em seus personagens, como se nos dissesse que há pessoas que vivem intensamente a aventura, tanto no amor como em suas vidas marginais. A personagem Julie é bandida e ladra e vai ao encontro de Louis, um herói de suspense mágico, que vence tudo em nome da amada. Após conhecer Marion fica obcecado, não importando quais meios deve ultrapassar para se estar perto dela. É uma relação doentia que pode até se tornar incômoda para o espectador, já que Julie/Marion trapaceia, rouba e até tenta matá-lo com veneno de rato, mas nem por isso ele deixa de gostar dela. Seria o sexo o combustível-motor do casal? Truffaut investe numa atmosfera nunca vista antes em seus filmes, a da sensualidade extrema. São muitos beijos e cenas na cama, além de sexo. Tudo que a personagem exala é sexo, é desejo. E Louis não consegue fugir de seus encantos.

Realmente, quem conhece uma mulher por classificados de jornal, casa-se e em pouco tempo cria um conta conjunta recheada com mais de 26 milhões, o que ele queria? Por amor, ele fica totalmente a mercê dos comandos de Julie, seja lá o que ela fizer, ele acaba encobrindo, aceitando e a perdoando. Seja por ela ter roubado 26 milhões da sua conta bancária ou ter tentado envenená-lo, não importa, ele é totalmente perdido por ela e faz todas as suas vontades. a sereia do mississipi.jpg

Assim, ele sai do seu caminho para seguir o dela, para ela, passando pois para a clandestinidade, quando mata o detetive que havia contratado antes. Daí, o casal se aproxima mais e o amor da avant guarde ganha espaço,com frases poéticas, bem macias, como só sabe dizer, quem se apaixona. Mesmo estranha, Marion, se descobre amando Louis, querendo-o como seu homem. A realidade se torna difícil pelos assassinatos cometidos e o final é tão complexo como um pouco vago,já que faz com que o espectador pense, insinuando que seguem felizes, até quando puderem fugir e sobreviver. Numa cena plena e exuberante na neve, caminham para lugar nenhum, caminham juntos poéticos e comprometidos com o amor em estado bruto. É um amor bandido e incondicional.

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